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A antiga máxima que afirma ser o mundo o melhor dos professores seria certamente incontestável se mundo , no caso, não significasse um tanto genericamente a vida e seus percalços . Melhor seria dizer talvez que as coisas , sobretudo as velhas coisas simples , ensinam lições a todo momento, e que esse aprendizado depende quase exclusivamente
da qualidade do aprendiz.
Wordsworth , poeta e precursor do amor à natureza , dizia : "um impulso vindo da floresta , na primavera /Contará a você mais do homem/Dos problemas morais e do bem/Do que tudo que os sábios lhe possam dizer". Embora tudo isso pareça muito estranho e até antipático àqueles que fizeram das ciências exatas sua única fonte de conhecimento, é inegável que o saber - uma forma profunda e essencial do saber
- pode emanar de objetos aparentemente estáticos e certamente desprovidos de alma.
Em artigo no Saturday Review-World , Yehudi Menuhin, violinista famoso e presidente do Conselho Internacional de Música da Unesco , afirma que o mundo contemporâneo está aprisionado dentro de um excesso de ângulos e retas que embrutecem o espírito e destroem a criatividade natural do homem. Há uma inflação de simetria, segundo ele, nas cidades modernas e na arte nos últimos tempos. O pior no homem pragmático consiste em produzir manifestações externas que são filhas legítimas de sua pobreza interior e de seu medo de improvisar. Menuhin toma como exemplo da melhor expressão humana de todos os tempos a arte gótica das grandes catedrais européias. Esses monumentos, produto do esforço de populações inteiras para estabelecer um lugar onde se reunir em instantes de necessária concentração , era o espelho da alma popular da época , imbuída da idéia de que a luta pela sobrevivência do corpo é fundamental mas nem tudo reside nisso. As catedrais , em sua grandeza aparentemente inerte, ensinavam lições de ordem, silêncio, humildade e devoção - e serviam como um bálsamo para o sofrimento , na medida em que punham o homem em contato consigo mesmo , porque ali tudo convidava à meditação.
Para Menuhin " a arte é uma representação da vida , da mesma forma que um jogo de xadrez é a representação de uma batalha no pequeno espaço de um tabuleiro ". Na vida e na arte se consegue um delicado equilíbrio entre os elementos previsíveis e os imprevisíveis. Tudo o que cerca o homem - as casas , as cidades , os veículos , os objetos de uso pessoal - expressa o sucesso ou o fracasso de quem o projetou e construiu.
O ritmo e a ordem proporcional são infinitamente mais importantes que a simetria , e a espontaneidade - por indispensável que seja - só libera a beleza se conta com aqueles dois fatores .Nas formas simples há, com freqüência, uma indescritível e variada gama de sabedoria , exatamente porque existe , ali , ritmo e proporcionalidade . O que falta nos objetos que nos cercam e que compõem nossa vida. A preocupação com a utilidade - ou funcionalidade - não pode ser levada ao extremo de se ignorar a harmonia e a naturalidade de cada objeto construído pelo homem para acompanhá-lo e servi-lo no seu dia-a-dia.
O contato com a natureza é , no mínimo , um reconstituinte para o homem. Quando nada , ele se refaz das tensões e descansa da desarmonia que o persegue na moradia e no local de trabalho . Em casos excepcionais, o ser humano pode tirar da contemplação da natureza alguma coisa muito mais preciosa e profunda que o simples descanso para os olhos e para a mente. Wodsworst tinha uma noção muito precisa desse fenômeno . e fala dele com uma insistência que chegou a irritar alguns dos seus contemporâneos , os quais nada viam num lago além de um bocado de água parada. Fora da natureza pode haver , naturalmente, harmonia e beleza , desde que existam - como lembra Yehudi Menuhin - ritmo e proporção . Quando há esses pressupostos , os objetos criados pelo homem tornam-se também fonte daquele aprendizado difícil de definir em palavras mas muito preciso para os que tomam contato com ele. O " impulso vindo da floresta" pode partir também da habitação harmoniosa e da vista que se tem das moradias próximas , bem como de todos os objetos feitos pelo homem para sua comodidade.
Dar um nome àquele aprendizado carece de sentido e oferece perigos evidentes. A sede de novidade e de mistério explora as palavras em detrimento do seu significado, e a idéia fixa de comercializar tudo - até mesmo a simples realidade - tende a comprometer a seriedade e qualquer incursão da mente humana fora dos limites estreitos da razão convencional. O que pode ser experiência direta , pessoal e profunda , assume aspectos de magia e alimenta , com muita freqüência , a mania de sensacionalismo que tomou conta do mundo nas últimas décadas . Assim , toda comunicação sobre esses fatos essenciais é facilmente mistificada ou ridicularizada por uma engrenagem que se pretende racional e científica , mas que não é mais pretensiosa e cega.
Negar que há fontes de conhecimento muito mais sutis que os tratados , os mestres - sejam céticos ou supersticiosos - e a pesquisa de laboratório ,
equivale a negar a privilegiada posição do cérebro humano no conjunto da natureza , onde ele se destaca como o mais extraordinário complexo da evolução animal na Terra . A sabedoria da mente, como a do corpo , não precisou esperar a invenção da imprensa nem o aperfeiçoamento da eletrônica para se estabelecer no mundo. Ao contrário, dela derivaram o conhecimento essencial e o outro, o superficial, e deste último saíram os conceitos que hoje empolgam uma humanidade que acredita, ingenuamente, que acaba de descobrir a razão , quando de fato apenas começa a engatinhar na direção de qualquer coisa luminosa e imprecisa ,vaga demais para ser compreendida mas atraente demais
para ser ignorada.
Lisboa , Luiz Carlos
Olhos de ver Ouvidos de Ouvir 1977
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