O SOM DO SILÊNCIO

 

 

OS ANGLO-AMERICANOS COMO UMBIGO DO MUNDO

 


LUIS CARLOS LISBOA


 


Prêmio Nobel de Literatura e autor de um romance consagrado no mundo inteiro, Auto-da-Fé, o escritor búlgaro Elias Canetti viveu longos anos na Inglaterra. Ali, suas observações sobre uma certa inconsistência nas conclusões e nos julgamentos de ingleses e norte-americanos a respeito do resto do mundo poderiam ter-lhe trazido alguma antipatia se ele não tivesse razão e fosse muito lido por leitores de fala inglesa. O desinteresse desses países pelo que se passa fora de sua cultura começa em casa, continua no colégio e chega, triunfante, ao serviço público. Canetti não viveu o bastante para ver de que modo multidões de imigrantes desembarcaram depois nas maiores nações de língua inglesa, nem como elas continuaram a existir como se nada tivesse acontecido ali, aceitas como realidade visível, mas inexistentes como humanidade. 
Era, afinal, coerente que os norte-americanos herdassem as qualidades e os defeitos dos ingleses, seus pais históricos, com uma mesma disposição para o trabalho, uma energia devotada a atividades de resultado imediato e uma cordialidade que só desaparece quando se aproxima perigosamente da intimidade. O desconhecimento da História e da Geografia alheias, que britânicos e seus descendentes não se importam em esconder, tem relação com o alegre formalismo que o homem comum mantém ali com amigos e vizinhos. 
Pode-se dizer, sem receio de errar, que a condescendência é a principal virtude (ou defeito) dos norte-americanos, no seu contato diário com o outro, seja ele nacional ou alienígena. Por isso mesmo, talvez, a imensa classe média norte-americana se orgulha, mais que tudo, da inexistência de cercas, grades e portões separando de sua casa as calçadas e a vizinhança. 
É notável que o caldeirão étnico que resultou de uma variada imigração pouco tenha alterado essa mistura de qualidades e defeitos legados como se tivessem sido diretamente ditados pelos Pais da Pátria nos dias gloriosos da constituinte na Filadélfia. Uma característica que eles receberam dos britânicos e reeditam infinitamente, resultado talvez de uma insegurança perfeitamente humana, é a teimosia política, com suas raízes e irradiações óbvias: a dificuldade de retroceder, a recusa de reexaminar estratégias e uma obstinada aversão à autocrítica. Humildes eles podem ser quando é preciso, mas são meticulosos na decisão de jamais parecer vacilantes. Disso não abrem mão, embora não saibam exatamente por quê. 
A decisão de não envolver-se na guerra contra o Eixo, até que aconteceu Pearl Harbour, é um exemplo clássico dessa mistura de teimosia e ignorância da realidade, nos Estados Unidos deste século. A caça às bruxas comandada pela Comissão de Atividades Antiamericanas do Senado foi outro erro de julgamento que somente o cansaço (jamais a contrição) arrefeceu. O envolvimento, difícil de reverter, no atoleiro do Vietnã foi outro. Em nossos dias, na justa cruzada contra o terror, a boa informação de iniciativa oficial separando islamismo e violência política foi uma saudável reversão de tendência. Mas a recusa de considerar os ferozes taleban como prisioneiros de guerra, segundo a Convenção de Genebra, foi outra daquelas gafes típicas de quem ignora as realidades do mundo, para nada dizer do Direito e da reciprocidade das convenções. 
A mais recente dessas decisões fatais tomadas pelo governo dos Estados Unidos, mais inspiradas na rigidez da determinação do que na sabedoria do conhecimento, foi informalmente anunciada pelo presidente George W. Bush recentemente, quando ele se disse decepcionado com o presidente palestino Yasser Arafat, que não conseguiu impedir atentados suicidas contra os israelenses. A situação é daquelas que Elias Canetti consideraria, se ele ainda estivesse entre nós, bastante paradigmática. Uma decisão que pode mudar a História do século é tomada a partir de pressões, impressões, velhas opiniões, pequenos conselhos, interesses econômicos, momentos - exceto do conhecimento da História e da realidade atual. Mas no mesmo dia, por milagrosa intervenção do acaso, o processo foi freado com um pronunciamento do príncipe Abdullah, da Arábia Saudita, sobre a indiferença de Bush em relação à causa palestina. 
A colonização britânica da Índia foi, em grande parte, o que alguns historiadores chamaram de "experimental", uma sucessão de tentativas e eventuais correções que na soma geral parece ter tido um resultado satisfatório. Pelo menos do ponto de vista dos cronistas ingleses que consideram o reinado da rainha Vitória um sucesso e a administração colonial de John Bull, um modelo. Nos Estados Unidos de hoje há, como sempre, pouca inclinação a reexaminar decisões políticas e administrativas recentes ou remotas, e nenhuma dúvida quanto ao acerto de políticas adotadas - simplesmente porque já foram adotadas. Até certo ponto, isso é um pouco o mal de toda humanidade, mas em nenhum outro caso, além do das grandes potências de fala inglesa, certos erros se devem tanto à ignorância calcada na indiferença pelas culturas e civilizações alheias quanto nelas. Se isso pode ser remediado um dia, não se sabe. Nem ninguém por lá está muito interessado no assunto. 

Lisboa ,Luiz Carlos
O Estado de São Paulo Terça-feira, 5 de fevereiro de 2002

 

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