OLHOS E CORES

 

                  

 

DOS MAUS CONSELHOS DO MEDO

 


LUIS CARLOS LISBOA


 



O livro de Bob Woodward sobre os primeiros cem dias do atual governo dos Estados Unidos, Bush in War (Bush na Guerra), é uma colagem das reações da Casa Branca ao ataque terrorista de 11 de setembro, das conseqüentes operações da CIA e da repercussão dos atentados na política do país, acrescida de detalhes ficcionais que querem transmitir ao leitor a ilusão de que está lendo um romance da qualidade dos de Graham Greene ou de Umberto Eco. A combinação tirou um pouco da confiabilidade que deve acompanhar o relato histórico, bem como a graça misteriosa da obra literária convencional, o que explica a frieza com que a obra está sendo recebida. 
Mas, se não satisfez à maior parte da crítica nem garantiu o sucesso que se esperava da fama do autor - imortalizado como um dos gatilhos do caso Watergate e da renúncia do presidente Richard Nixon, há 28 anos -, o livro iluminou alguns recantos sombrios do atual governo norte-americano, que mais bem entendidos podem explicar sua popularidade interna e seu evidente desgaste no resto do mundo. 
A guerra contra o terrorismo e a crise do Iraque têm trazido à mesa das redações e, em geral, às editorias da mídia dos Estados Unidos depoimentos, análises, retrospectivas que permitem uma nova percepção das motivações (e talvez do destino) do governo do segundo presidente Bush. Bob Woodward não consegue provar que é o presidente Bush, e não o vice-presidente Dick Cheney, quem controla as reuniões e encaminha as decisões na Casa Branca, embora repita incansavelmente que "a visão final das coisas" cabe ao primeiro mandatário. Muitas histórias alegres e pitorescas que se multiplicam no relato romanceado transmitem ao leitor a idéia de que está convivendo com a intimidade da casa presidencial mais importante do planeta, mas mantêm frio um observador mais vivido da cena internacional. 
O depoimento sobre o secretário de Estado, Collin Powell, no entanto, parece confirmar outros comentários e análises que o apontam como senhor de uma coisa rara hoje em dia, uma filosofia de governo, além de uma paciente capacidade de argumentação, que dificilmente têm sido encontradas em militares que estão próximos dos centros de poder no mundo. Nos cem dias que o livro celebra, Powell foi às vezes voto vencido, mas sua trajetória e o conjunto de suas idéias parecem de alguém que sabe para onde caminha, ao contrário dos demais membros do governo Bush, que só identificam claramente o que não querem, ou o que não gostam. Bob Woodward alonga-se, a partir de sua convivência diária na Casa Branca, a respeito do sucesso de Powell junto ao presidente, em setembro deste ano, evitando distanciar os Estados Unidos da ONU a pretexto da crise do Iraque. Sua nemesis, seu adversário constante, foi sempre o vice Cheney, radical conservador que desde o governo do primeiro George Bush opôs uma teimosa resistência às opiniões do general. 
Cheney tem muita identidade com o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, com quem todos convivem, mas poucos conhecem, e que está presente nas menores decisões. Falcões e pombos, liberais e conservadores, a questão não é mais essa. Os atentados de 11 de setembro não mudaram a história moderna, como se apregoa, mas abriram os olhos do mundo para os resultados práticos do avanço tecnológico que aos poucos colocou nas mãos de um grupo de fanáticos, ou simplesmente ambiciosos - e amanhã colocará, certamente, nas de um único homem -, um potencial de destruição miniaturizado até agora só ao alcance de uma grande nação, de um exército poderoso, de um bando voltado para a conquista e a dominação dos homens comuns desarmados, que sempre serão a maioria. O fundametalismo islâmico não é mais perigoso do que qualquer fundamentalismo religioso disposto a conduzir a multidão ignorante de seguidores com palavras de ordem, gritos de rebeldia ou fatwas surgidas em quaisquer seitas ou culturas, sejam elas compostas de homens morenos barbados ou de louros alegadamente arianos. 
O governo do país mais rico e bem armado do mundo tem seus homens lúcidos e seus radicais e, dado seu poder de fogo, o fundamentalismo que germina em suas raízes é potencialmente mais perigoso do que qualquer outro. Bush na Guerra, de Bob Woodward, é um livro que mostra quase distraidamente esse perigoso declive histórico que se incorporou à história humana moderna para ficar. Porque o progresso material e seu resultado, a técnica elaborada, são irrenunciáveis, porque significam poder. A menos que o homem renuncie a esse seu apetite por poder, isso não deve mudar. Essa inclinação para o predomínio e essa necessidade de ter razão nem sempre são contidas por conceitos morais, políticos, ideológicos ou de bom senso, verbalizados no próprio íntimo. Em face do medo, os homens são crianças assustadas e, como tal, são imprevisíveis. 
Trocando em miúdos, o mundo carece urgentemente de um milagre, de uma conversão moral ou religiosa, para ficar a salvo do veneno que ele próprio segrega. Aqui e agora, a partir das informações da mídia, o que podemos prever com alguma certeza é que a História irá para onde os Estados Unidos forem, e os Estados Unidos estão assustados desde que descobriram a insegurança visceral do mundo, o que significa que este é um mundo em perigo. 

http://www.estado.estadao.com.br/editorias/02/12/06/aberto002.html


Luiz Carlos Lisboa, jornalista e escritor, é autor de
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