OLHOS E CORES

                  

 

OS ALIENADOS

 


LUIS CARLOS LISBOA


 


É muito antiga a desconfiança entre ao mais sensíveis e "marginais", a respeito do fato visível de o homem viver descuidado do que lhe é essencial. Numa linha que acaba conduzida à intelectualização e ao devaneio teórico, desde logo crescem as dúvidas sobre o que é importante e sobre o que é irrelevante e aumenta a perplexidade em face do que é de fato essencial para o ser humano. As afirmativas soam aqui sempre como pregação missionária e, o que é pior, tornam-se mesmo retóricas e pouco a pouco vazias. Apesar disso, muitas pessoas não podem deixar de perceber os aspectos de futilidade e jogo infantil de que se revestem as ações humanas, as solenes, as pândegas, os rituais e quase de todo gênero. Sente-se com freqüência que os homens brincam de viver, como as crianças quando fingem ser pessoas adultas e responsáveis, nos seus jogos.
A palavra alienação foi empregada de muitos sentidos fortes, de tal maneira que se desgastou a ponto de não significar mais nada, a não ser para aqueles que manipulam pensamentos e sentimentos com palavras "grávidas". A idéia geral de alheamento, de distração diante do que é fundamental na vida, no espaço em que se vive, na condição humana, é intrigante para os que mantém suas antenas ligadas, no aprendizado constante que é uma vocação e um modo de ser. Nesse estado de absorção do mundo o "desligamento" do fundamental é entendido como uma espécie de doença do espírito, uma disfunção difícil de tratar porque é a própria fonte habitual de terapia que esta avariada: a alma. Não há maiores complicações nisso e tudo pode ser a final resumido numa inadequação do individuo - não do homem como espécie, porque essa falha é pessoal e isolada, quando muito é epidêmica e acaba regredindo. De que modo seja manifesta esse fracasso provisório? No não percebimento do fato simplíssimo de que há auma ignorância sonsetida, alimentada na preguiça e na irresponsbilidade, e uma outra, de que ninguém tem culpa e se explica pelas naturais limitações de todos os seres.
Usar a palavra alienação equivale a incorrer em alguns riscos que não podem ser desprezados. Hegel achou necessário moldar a expressão "alma alienada" para designar uma consciência separada da realidade. Marx adorou o termo e "engravidou-o" de conotações e significados, na sua tarefa de criar uma linguagem consensual que daria um ar de verdade às suas estruturações. Hoje, em literatura chama-se alienada a obra indiferente à "realidade social" - o que há é uma visão "interpretada" da pura realidade. Mas as tentativas de escravizar conceitos simplesmente explicam o funcionamento do psiquismo humano, a veia missionária que se esconde em todo apologista apaixonado, no final sempre um reducionista incurável. Vale mais talvez repensar as tendências de quase todo homem para ignorar o que lhe diz respeito, preferindo cuidar do irrelevante e do passageiro.
Acreditar na eficácia de uma doutrina, um modelo que deve ser aplicado ao universo mutável em que vivemos, indica um desejo intenso de certeza, uma vontade teimosa de compreender tudo, imediatamente. Quem se lança nesse rumo nunca pergunta a si próprio quem quer de fato compreender tudo. É forte e teimosa a convicção de que a determinação, o esforço, a vontade firme conseguem levar até a compreensão seja lá do que for. Não vemos com facilidade que quanto mais presente esta o propósito central de chegar a um lugar, mais temos possibilidades de alcançar um destino previamente preparado pela nossa vontade. Repetindo: se queremos intensamente um fim, "elaboramos" esse fim quando nos pumos energeticamente a caminho. O caminhante empreende um esforço que altera tudo em torno, até mesmo seu destino. Não haveria exagero em dizer que todo fim conhecido, toda meta antevista é mudada à imagem e semelhança daquele que segue na sua direção. Assim, compreender de verdade não é seguir um rumo, não é evoluir-mas simplesmente entegrar-se naquilo que é compreendido.
Alienar-se é cuidar meticulosamente do supérfluo, é estabelecer metas fúteis e alcança-las com coração cheio de orgulho e energia. É confundir o nome dado a uma coisa, um sentimento, uma situação, com a situação, o sentimento e a coisa em si. É principalmente ser incapaz de atuar como critico sereno e divertido de si mesmo, vendo de que modo não deixamos facilmente de ser crianças-no que as crianças têm de egoístas e ignorantes, não na sua inocência e criatividade.Alienação é entrar nas "ondas" todas, falar a linguagem do dia e pensar, por isso, que está vivendo seu tempo. É não desconfiar que o tão decanto amor à ação é muitas vezes só medo de ficar diante de si próprio, como diante de um espelho. Esses são sintomas do grande alheamento que caracteriza o homem vaidoso do século XX, capaz de dominar técnica e voar ate outros planetas, mas um absoluto ignorante a respeito de si mesmo, seus motivos, temores, impulsos, ardores, ate mesmo da sua fisiologia.
A grande alienação é o gosto proverbial pelo que não tenha nenhuma importância-um vicio cultural que invadiu e dominou com duras garras do século da comunicação eletrônica. Nossos valores são quantitativos porque ignoramos tudo sobrea qualidade das coisas. É compreensível, vivemos na casca do ovo e desconhecemos tudo da clara, da gema e da vida que às vezes esta palpitando nele. Procurando prazer de todo gênero, fugimos da dor por todos os modos. Esse balanço pode fazer de um homem inteligente um idiota perfeito, se ele se repete infinitamente e se transforma na razão de ser de uma vida. Por isso os alienados estão aí enchendo as ruas, usando seus corpos como quem utiliza um mecanismo qualquer (a dificuldade é que quando essa "maquina" estraga, não se pode comprar uma outra). A sensibilidade fica também como as artérias dos fregueses assíduos das lanchonetes: rígida, inflexível, plastificada. A cidade grande é o imenso centro de alienação-não a "produzida" pelos ideólogos, mas enfermidade do espírito--, e dela o futuro vai falar muito mal, com toda certeza. O alheamento é a marca registrada destes tempos urbanos, apressados e sombrios, como os quais é preciso, apesar de tudo, conviver.


 Lisboa, Luiz Carlos O Estado de São Paulo  Quarta-feira, 2-1-85

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05Jan2003

Colaboração /Digitação de Lucas dos Santos Chagas - 16 anos - Estudante - Santista

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