OLHOS E CORES

 

                  

 

ELEITOS, TEMEI

 


LUIS CARLOS LISBOA


 



Os antigos gregos ensinaram ao mundo tudo o que ele sabe da arte delicada e trabalhosa de imitar a realidade humana, criada para divertir e educar o homem, que ainda hoje é conhecida por teatro. Mas, se imitar o homem é tarefa quase divina, de tão elevada, imitar essa imitação na vida real visando resultados é fraude e falsificação que poucos toleram. O bom teatro nunca se cansou de satirizar o fingidor que afivela no rosto a máscara que lhe convém, no tempo que lhe parece necessário, e se livra dela quando não lhe serve mais. E sempre o estigmatizou. 
A política há muito tem mostrado essa velha encenação entre nós, e é verdade que nela não têm faltado atores razoáveis. Mas, ao contrário do que acontece nas artes cênicas, na vida pública nossos atores ultimamente têm sido atrozes em suas interpretações, e em alguns casos não menos do que patéticos. Isso se deve, talvez, ao pouco apreço que eles têm pelo homem comum, que, afinal, pretendem seduzir. "O povo é burro", disse recentemente um candidato de língua solta, que talvez nunca tenha prestado atenção no povo de verdade Quem carece de inteligência são nossos canastrões da vida pública, que com suas interpretações de baixo nível subestimam a sensibilidade popular. Mas a seu favor é preciso que se diga também que alguns atores da política têm conseguido excelentes resultados nos seus desempenhos, e até, como agora, provavelmente o poder maior. Há uma boa diversidade de papéis nas nossas telas e palcos políticos: os salva-pátria, os bonachões, os redentores, os missionários, os patéticos, os simplistas. 
O deputado federal mais votado da história brasileira teve no passado, e continua tendo agora que se consagrou, como principal programa o enunciado claro e pausado do próprio nome. Nunca fez seguir, que se saiba, muita coisa mais de uma plataforma eleitoral ou de prioridades administrativas. Esse é Enéas, do Prona. Supõe-se, então, que todo o seu projeto de salvação nacional consiste na repetição cabalística e cheia de fé do próprio nome, fórmula mágica que resolverá os problemas nacionais. 
Luiz Inácio Lula da Silva foi, dos candidatos à Presidência da República no primeiro turno das eleições, o mais corajoso, por ter permitido mudanças na própria linguagem e até nas aproximações. Para ele e seus companheiros, flexibilidade foi sempre sinônimo de fraqueza, e alianças com adversários ideológicos pareceu sempre oportunismo e rendição. O cansaço de três derrotas anteriores (tática e estratégia são coisas diferentes, companheiros) mudou a cabeça antigamente dura da rapaziada da estrela vermelha, dando-lhe a moleira macia que lhe faltou em eleições anteriores. 
Para eles, agora até o demônio tem seu lado bom. 
Ah, hipocrisia! Ah, vontade de poder! Mas o povo certamente quer mudança, convenhamos. Talvez, mas ele não quer atores, sejam bons ou medíocres, porque esses já os teve demais. Isso quer dizer que a massa votante está acreditando na personificação de "paz e amor" que lhe estão empurrando. Se o velho lobo da luta armada ressurgir de sob a pele de cordeiro e as barbas se tornarem hirsutas de novo, milhões se sentirão traídos e se mostrarão mais intransigentes com a mentira do que com a incompetência do passado. Seus escolhidos podem fracassar por falta de tirocínio, mas não podem fazê-los de idiotas. Eleitos, temei. 
"O homem mudou", diz o povão, que por três vezes se recusou a elegê-lo daquele jeito radicarão e feroz. Mais debates seriam um perigo, porque iriam acentuar a descontinuidade do personagem criado pela marquetagem inspirada. 
A primeira refrega teve menos nitidez porque ao lado outros se contorciam na contenda, e as atenções estavam dispersas. Maquiagem de comício não serve para a televisão, onde até os poros parecem crateras temíveis. 
O Serra, como ele próprio admite, pode ser pouco fotogênico, mas resiste bem a uma verificação continuada de personalidade e os refletores não derretem os traços do seu semblante. Já o Lula é um caso a verificar - ou por outra, para ser sincero, não resiste mesmo. 
Mas o que há de fato a ser considerado é o perigo desse derretimento, por uma razão simples: os apenas ridículos ainda são aceitos pela multidão; os larápios simpáticos são, talvez, tolerados; os demagogos de comício são até bem suportados; mas os que pagam caro por um pancake para esconder sua verdadeira natureza, esses o homem da rua não perdoa, quando e se os descobre. 


http://www.estado.estadao.com.br/editorias/02/10/15/aberto002.html


Luiz Carlos Lisboa, jornalista e escritor, é autor de Guerra Santa do Gato

 

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