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William Butler Yeats, a quem T. S. Eliot considerava "o maior poeta da língua inglesa no século XX", atribuía a alguns animais uma profunda identidade com o homem. O golfinho, por sua sensibilidade quase humana, foi, para os gregos, o símbolo da conexão entre a vida e a morte, razão por que delphis é a palavra grega que significa útero. Nos Estados Unidos, o médico John Lilly foi o precursor dos testes de inteligência em animais. Na década de 60, convencido de que esses testes sacrificavam os golfinhos com que trabalhava, inclusive privando-os da liberdade, Lilly soltou todos os animais que estava estudando. Passou a trabalhar com um grupo de pesquisadores, na Flórida, usando modelos estimulados por computadores. Na sua opinião, o que começa a ser chamado "o direito dos animais" será uma realidade muito em breve, quando descobrirmos que, em nome da pesquisa científica e até de amizade pelos bichos, tiramos os animais de seu meio natural, onde se adaptaram milhões de anos, para transforma-los em objeto com função e utilidade.
No laboratório de Kewalo Basin, em Honolulu, dois cientistas decidiram libertar os golfinhos que utilizavam em experiências havia alguns anos. Foram, por isso, condenados a pagar multa elevada, além de indenizar o centro de pesquisa pela perda dos animais. Kenny Levasseur e Steve Sipman realizavam trabalho de pesquisa psicofísica sobre a agudeza de percepção dos sons pelo golfinho. Os resultados de trabalhos semelhantes, levados a efeito nos últimos dez anos, têm revelado a extraordinária memória e a capacidade de aprendizado desses cetáceos, superiores mesmo às dos chimpanzés, até hoje considerados "os mais próximos dos homens". Os cientistas declararam seu propósito de não mais aprisionar animais, desde que descobriram neles uma forma característica de ansiedade por estarem presos. Um consultor de assuntos do mar, Rick Gaffney, chamado a opinar no processo, distingue dois tipos de pessoas quando se trata de perseguição, maus-tratos e extinção de espécies animais: "As que gostam de olhar, de ver filmes e aprender sobre bichos, e as que querem salva-los imediatamente, a começar pelos animais domésticos". O assunto provocou muita controvérsia, na época, uma vez que a maioria das pessoas defende, teoricamente, a preservação das espécies animais e o tratamento humanitário dos bichos, mas, na prática, age diferentemente, aprisionando e dificultando a vida natural.
Os que reagem a essas idéias de respeito pela vida animal alegam as mil razões conformistas que sempre justificaram o aprisionamento e a tortura, freqüentemente involuntária, dos bichos que convivem com o homem, tudo feito em nome da ternura, da necessidade de companhia, da amizade adquirida, do interesse da ciência, etc. Até que ponto essas alegações são verdadeiras ou escondem o mais elementar impulso egoísta de transformar seres vivos em coisas úteis ou utilizáveis é um caso a estudar. É bom lembrar que a coisificação de pessoas teve, no passado, o nome de escravidão É oportuno considerar que as crianças, as mulheres, as minorias étnicas e religiosas sofreram e ainda sofrem restrições, em nossos dias, resultantes da cegueira egoísta dos beneficiários de sua exploração. Talvez ainda esteja longe a vez dos animais, quando tantos seres humanos ainda precisam conquistar direitos, alguns elementares, no mundo. Esse argumento tem seu peso, mas aparentemente não há por que deixar de discutir, desde já, essa questão que encerra tanto incompreensão quanto hipocrisia. O problema da caça, e de crueldades correlatas, é muito importante e merece atenção, mas é preciso começar a debater imediatamente a atitude humana contemporânea em relação aos animais domésticos. O que parece fútil assume importância inesperada, quando a nossa verdade interior esta em jogo, quando, também nesse relacionamento, descobrimos muito da nossa realidade pessoal.
Por que ter pássaros em gaiolas e viveiros, a não ser para exibi-los e para ouvir seu canto? Por que ter cães em casa, principalmente entre as paredes de um apartamento, a não ser para nos fazerem companhia, ou para nos orgulharmos de seu porte e
pèdigree? Os argumentos favoráveis aos costumes são todos "exteriores", isto é, dizem respeito à domesticidade desses bichos que convivem com o homem há milênios, à proteção que a maioria dos donos proporciona ao seu animal, ao fato de que eles não sentem como nós, e à convicção de que essa coisa toda de "direito dos animais" é pura pieguice. Seria útil interiorizar a investigação do assunto vendo o que nos leva, individualmente, a ter pássaros, cães e gatos em casa, bem como a que nos induz a essa atitude superprotetora em relação a animais que sempre viveram muito bem em seus
habitats naturais, tanto que suas espécies resistiram em liberdade até que o homem resolveu domesticá-los. Não se trata de libertar imediatamente esses bichos, como os cientistas da Flórida e de Honolulu fizeram com seus golfinhos, mas de compreender a motivação dos donos desses animais.
Quando Yeats atribuía aos irmãos irracionais uma profunda identidade com o ser humano, estava aludindo também - o que é comum em sua obra - à extraordinária possibilidade que temos de nos conhecer pelo relacionamento com os animais que eventualmente nos cercam . o que fazemos, como fazemos e por que fazemos nesse convívio podem esclarecer muita coisa a nosso respeito. Talvez a partir desse autoconhecimento, que certamente virá de uma observação interessada e isenta, seja fácil e até mesmo instintivo agir com naturalidade em relação aos bichos que, agora, neste estado de nebulosa ignorância em que a maioria de nós vive, são apenas nossa propriedade e servem à nossa vaidade e ao medo de solidão que mora conosco.
Lisboa, Luiz Carlos. A
Arte de Desaprender. Rio de janeiro: Antares 1981.
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