ESCRITOS
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CARTA AOS CARTEIROS

Essa carta foi escrita na v�spera do Vestibular Ufes/2004 para os meus colegas carteiros da ECT. Eu j� estava estudando na Ufes h� uns meses e convivendo com aquelas pessoas as quais me referi no texto. Minha sa�da da empresa j� era certa, pois os Correios n�o possuem um plano para o aproveitamento de m�o de obra qualificada entre os bra�ais...

Vit�ria-ES, 10 de Dezembro de 2003.


Caros amigos;

A extasiante imagem do pentacampeonato brasileiro na Copa do Mundo de 2002, ainda est� presente em nosso imagin�rio. Ap�s aquele �ltimo jogo contra a Alemanha sentimos um orgulho indescrit�vel da nossa na��o, houve uma sensa��o de euforia misturada � conquista. Quem n�o sentiu orgulho daquele feito �nico, realizado pelos nossos compatriotas? O t�tulo nos remeteu h� uma �poca de gl�ria que o pa�s nunca possuiu, foi uma esp�cie de nostalgia proibida.

A fa�anha de nossos her�is, n�o se resumiu � conquista da ta�a. Ela foi incrementada atrav�s da m�dia televisiva pelo acompanhamento da hist�ria de vida daqueles homens. E a� surgiram v�rias descobertas, haja vista que a maioria nasceu e cresceu nas periferias do nosso pa�s. Ent�o a idolatria do povo sobre aqueles deuses do olimpo tupiniquim, n�o se justificou apenas pela admira��o do futebol magia de Ronaldo, Rivaldo, Roberto Carlos e cia. Mas tamb�m, pelo exemplo de vida, dedica��o, ren�ncia e supera��o desses atletas. A vida de todos foi exposta salientando-se por exemplo; o quanto Caf� fora rejeitado por diversas equipes nos testes; os �nibus em que Ronaldo embarcava para treinar; o primeiro treinador de Ronaldinho Ga�cho; enfim, in�meras hist�rias que se confundiram e transformaram-se em um glorioso final.

Isso me faz pensar em todos aqueles que nesse final de semana estar�o fazendo o VestUfes/2004. De um lado: pessoas extremamente preparadas, exaustivamente treinadas, condicionadas desde a inf�ncia a conquistar o seu destino manifesto, estudantes dos melhores col�gios, alguns com interc�mbio cultural no exterior, conhecedores do mundo, detentores dos meios e dos fins. Todos com uma semelhan�a imensa, homog�neos na verdade. Lembream-me aqueles alem�es e ingleses dos jogos da copa. Altos, fortes... seriam deuses inalcan��veis? invenc�veis? Do outro lado: gente comum, uma multid�o cheia de sonho, chegam trazidos por uma condu��o abarrotada. Muitos est�o pisando pela primeira vez em uma universidade. Olham perplexos os pr�dios, e chegam at� a duvidar que tudo aquilo fora feito para eles tamb�m. S�o pessoas que esbanjam tonalidade e alegria... driblam o hor�rio e se apegam uns aos outros. Logo se forma uma atmosfera positiva. Na hora da prova as coisas funcionam como no campo, ali o rico e o pobre est�o diante das mesmas dificuldades. O fiscal autoriza o in�cio do teste, as canetas come�am a sua peregrina��o. Dentro daquela sala o que impera � a garra, a determina��o e os anos de afinco nos estudos.

Todos os anos surgem novos her�is no cen�rio educacional, infelizmente s�o poucos. Vivemos em um pa�s com uma d�vida social imensur�vel. A elite tem consci�ncia que ocupa uma posi��o privilegiada em virtude da nossa falta de acesso a uma educa��o de qualidade, e se aproveita disso, dificultando o m�ximo poss�vel nossa inser��o em seu meio. Cabe a cada um de n�s lutar para mudar essa situa��o. Nossa miss�o n�o se resume apenas em entrar na universidade, mas atrav�s dessa possibilidade, buscar constantemente uma ascens�o social coletiva atrav�s do aux�lio m�tuo. Essa tarefa � como um jogo de futebol, todos s�o pe�as important�ssimas. Apesar de estarmos escalados em posi��es diferentes, quando algu�m faz um gol todos ganham.

Isso todos n�s sabemos, o que esta faltando � a pr�tica dessa m�xima em nosso cotidiano. O meu desejo � que voc� fa�a esse gol. Fa�a-o por mim, fa�a-o por voc�, fa�a-o por todos. Vencer a Copa do Mundo n�o foi f�cil. Lembra-se da primeira fase? Jogamos contra times fracos que nos fizeram passar sufoco, e muitos at� desistiram do sonho ap�s o jogo contra a Turquia. Se voc� est� sentindo-se assim, lembre-se que foi contra os grandes que o Brasil demonstrou o seu maior futebol, dominando seus advers�rios com brilhantismo e coragem, as principais qualidades de um vencedor.

Boa prova, � meus sincero desejo...
LUIZ AQUINO DINIZ

Foi curioso quando meu chefe come�ou a ler o texto. Meus colegas de trabalho, que eram cerca de cinquenta pessoas, come�aram a reclamar do tempo que estavam perdendo parados. Meu chefe notando a resist�ncia come�ou a ler com extrema rapidez, tornando imposs�vel o entendimento. Depois de terminada a leitura um colega me chamou em um canto e agradeceu o icentivo, a maioria saiu esbravejando de raiva pelo interrompimento do trabalho. Foi meu �ltimo constrangimento como carteiro...

Toda vez que apresento um trabalho em na sala de aula, h� uma enorme expectativa entre eles, quando obtenho �xito, n�o demoro a ser reconhecido por aqueles a quem tanto agredi na carta.

N�o imaginava o quanto estava equivocado sobre eles. A diferen�a social � n�tida. Por�m digo com toda a convic��o, n�o poucos, s�o mais modestos do que eu. Confesso que a cada dia eles me ensinam algo sobre a vida.

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