UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE BIBLIOTECONOMIA E COMUNICAÇÃO DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL - JORNALISMO PROJETO EXPERIMENTAL JORNALISMO V - MONOGRAFIA O Ombudsman na Folha por Luiz Carlos Erbes Orientador Sérgio Caparelli Porto Alegre, outubro de 1991 Introdução Dos grandes jornais, a "Folha de S. Paulo" foi o que mais promoveu mudanças no jornalismo brasileiro nos últimos 10 anos. Ousado, crítico e polêmico são apenas alguns adjetivos que não chegam a definir a sua importância no contexto Brasil. A Folha, entre outras inovações, foi o primeiro meio de comunicação, fora a mídia alternativa, a se posicionar contra o regime militar e a reivindicar a volta da democracia. Empolgou na campanha das diretas-já, recebeu críticas na cobertura da doença e morte de Tancredo Neves, alertou primeiro sobre os erros do Plano Cruzado, revelou escândalos e bateu duro contra todos os candidatos à presidente na eleição direta de 1989. Por tudo isso, a Folha foi o jornal que mais mexeu com a população brasileira a partir dos anos 80. É inegável a influência do diário paulista no jornalismo brasileiro. Tudo o que saiu na Folha acabou, de uma ou de outra forma, seguido, elogiado ou criticado por jornalistas e concorrentes. É hoje o jornal com mais críticos e que mais provoca reações. Uma das marcas do Projeto Folha é a sua ousadia. Os meios de comunicação do país sempre tiveram - e ainda têm - uma postura arrogante. Difícil encontrar um jornal que reconheça erro de informação ou corrija nome digitado errado em suas páginas. A Folha de S. Paulo furou esse bloqueio a partir da metade dos anos 80. Sempre eram comuns críticas ou reparos nos jornais em relação aos governos e entidades, mas nunca havia um questionamento das informações dadas aos leitores. Aliado à ousadia, a Folha tem um rígido programa de metas em que se propõe a melhorar o seu produto a cada dia a dia. De alguns anos para cá, várias mudanças puderam ser acompanhadas pelos leitores: aumento do tamanho das letras, textos menores, divisão do jornal em cadernos e a utilização cada vez maior da cor em suas edições - principalmente na capa. A criação do cargo de ombudsman, decidida em 1986, insere-se nesta tentativa de elaborar um produto melhor e mais moderno. Com o programa, que começou a funcionar em setembro de 1989 com a indicação do jornalista Caio Túlio Costa para o cargo, passou-se a Ter um profissional fazendo a análise crítica do jornal e, principalmente, ouvindo o leitor, alvo principal de qualquer meio de comunicação. É possível afirmar que a Folha, com a implantação do programa, deu um passo rumo ao chamado Primeiro Mundo. Mesmo uma prática muito conhecida nos Estados Unidos e Europa, o ombudsman causou impacto aqui e deu ares de modernidade ao jornal. Por diversas razões, a experiência não foi adotada por outros meios de comunicação. Empresas de outros setores, como instituições financeiras e indústrias, indicaram um funcionário com nomes e funções semelhantes. A maior novidade não se refere, porém, a questão da crítica ao jornalismo. Nos anos 70, Alberto Dines tinha uma página semanal na Folha de S. Paulo em que fazia uma análise dos meios de comunicação. Hoje, há revistas que também se propõem a realizar esse tipo de trabalho. A novidade reside no espaço que o leitor recebeu. Pela primeira vez, o leitor passou a Ter um profissional específico para quem reclamar. Antes e em outros jornais, esse trabalho ainda acaba sendo feito por um editor ou repórter, que têm prazos rígidos para fechar páginas e entregar matérias e, por isso, nem sempre podem dar a ele o atendimento necessário. Um dos objetivos deste trabalho de conclusão do curso de Jornalismo é fazer uma descrição da experiência e detectar onde houve avanços no que se refere à melhoria do próprio jornalismo feito pela Folha - se é que esses avanços ocorreram realmente. A monografia procura ver também se houve melhora no relacionamento leitor/jornal e até que ponto o ombudsman realmente defende os interesses de quem compra e lê o diário. Outro objetivo é analisar as polêmicas que o ombudsman manteve durante os primeiros 20 meses do seu trabalho, como a que envolveu o correspondente em Nova York, Paulo Francis. Este trabalho está dividido em quatro capítulos. O primeiro retrata os 70 anos da Folha e quais os seus interesses e preocupações em diferentes períodos e, principalmente, hoje. O segundo, mostra como surgiu o ombudsman na Suécia, no início do século passado, e como essa função foi adaptada por empresas jornalísticas norte-americanas, na década de 60. No terceiro, é feita uma descrição do trabalho de Caio túlio Costa - suas funções e quais as suas preocupações. O quarto aborda as polêmicas. 1. A Folha A história da Folha e S. Paulo não é a história de uma família que se perpetua à frente de um jornal. Cada um dos quatro proprietários imprimiu ao diário paulista uma política editorial e administrativa própria. O jornal defendeu, em períodos distintos, os interesses da classe média urbana aos dos grandes produtores de café de São Paulo. Os jornalistas Olival Costa e Pedro Cunha fundaram o jornal em 19 de fevereiro de 1921, com o título de Folha da Noite. A política editorial - defesa dos interesses das classes média e, inclusive, operária - se deve a razões mercadológicas: o objetivo era buscar um público diferente do "O Estado de S. Paulo", ligado aos grandes cafeicultores. O que distinguia a Folha dos outros grandes jornais da época era a sua organização interna. Segundo o historiador Nelson Werneck Sodré, em "A História da Imprensa no Brasil, foi o primeiro jornal estruturado como uma empresa capitalista. Na época, a maioria das empresas jornalísticas eram porta-vozes de interesses políticos definidos. Em 1931, Octavino de Lima, Diógenes de Lemos e Guilherme Almeida compraram o jornal. O nome da empresa mudou para "Empresa Folha da Manhã Limitada". O diário passou os interesses dos grandes de café, numa mudança de 180 graus. Essa fase foi até 1945, ano da queda do presidente Getúlio Vargas do poder, quando Nabantino Ramos, Alcides Ribeiro Meirelles e Clóvis Medeiros Queiroga aquiriram a empresa. Advogado, Nabantino foi um líder que, segundo Carlos Eduardo Lins da Silva no livro "Mil Dias, os bastidores da revolução em um grande jornal" (1998), tentou modernizar a empresa e acabar com as improvisações que reinavam no mundo do jornalismo. Escreve Lins da Silva: "Ele teve a preocupação de sistematizar suas experiências, produziu um extraordinário documento chamado `Normas de Trabalho da Divisão de Redação´, tentou teorizar sobre jornalismo, estabeleceu critérios por excelência para a atividade dos repórteres e redatores." (Silva, página 42, 1988) Se o resultado final não pode ser considerado positivo, a experiência serviu ao jornalismo quase como uma ruptura com as práticas da época. Ao lutar contra a improvisação, ele produziu os documentos "Normas de Trabalho" e "Programa de Ação das Folhas", documentos "quase" precursores do "Manual de Redação" e do "Programa de Metas Trimestrais", segundo Lins da Silva. Nabantino, no entanto, deixou a empresa para os novos proprietários - Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho - em situação financeira difícil. Os dois empresários, que adquiriram o jornal em 1962, levaram praticamente cinco anos para reorganizar a empresa, financeira e administrativamente. "Nesse período, não houve tempo para preocupação com o jornal em si." Silva, página 44, 1988) Nem na Segunda fase (1968-1974), a redação foi premiada com grandes investimentos. Nesses seis anos se deu a chamada "revolução tecnológica". Foram introduzidos o "off-set", a fotocomposição e novas unidades impressoras. No fundo, essa fase segue até os dias de hoje e permitiu a introdução pioneira no país dos terminais de vídeo na redação, em 1983, e posteriormente nas sucursais de Brasília e Rio. Frias de Oliveira, que tem uma liderança maior na administração do jornal, passa a voltar os olhos para a redação a partir de 1974. Como Nabantino Ramos, pretendia levar à redação método e organização. Teve problemas. Conforme Lins da Silva, "por várias razões, isso só viria a começar de fato em 1984, quando seu filho, Otávio Frias Filho, assumiu a direção de redação". O período de 1974 a 1984 foi importante para o grupo, principalmente porque a Folha conseguiu se inserir numa política editorial diferente dos outros jornais. Apesar de não ser um porta-voz contra o regime militar que governo o país de 1964 a 1985, a Folha fez da "abertura política" e da "democracia" suas bandeiras. Um documento do Conselho Editorial deixa claro essa posição, ao pedir: "Melhores condições de vida para a maioria da população através da organização de um regime democrático, liberdade de informação, fortalecimento dos organismos da sociedade civil, distribuição mais eqüitativa da renda nacional, apoio à livre iniciativa, submissão de toda a economia ao interesse social e preservação da identidade cultural brasileira." (Silva, pág. 46, 1988) Esses pontos, mais a criação da seção "Tendências/Debates", em 1976, na página três, dando voz a políticos, economistas e cientistas sociais perseguidos pelo regime militar, identificaram o jornal com os anseios da sociedade. O ponto alto dessa luta foi a campanha diretas-já, em 1984. A Folha, apesar de defender o liberalismo e a livre iniciativa, passou a ser o jornal da esquerda brasileira. Todo esse processo não se deu no improviso. A partir de 1978, seis documentos definem o que passou a ser conhecido mais tarde como "Projeto Folha": "Levantamento de pontos indicativos de posição editorial e avaliação sintética do momento político", de 1978; "A Folha e alguns passos que é preciso dar", de 1981; "A Folha em busca de apartidarismo, reflexo do profissionalismo", de 1982; e "A Folha depois da campanha das diretas-já", em 1984; "Projeto Editorial da Folha - 1985-1986", em 1985; e "Projeto Editorial da Folha - 1986-1987", em 1987. O documento "A Folha depois da campanha das diretas-já é, provavelmente, o mais importante do Projeto Folha. Ele "consolida o projeto editorial do jornal e define questões técnicas e organizacionais como prioridade da redação". (Silva, pág. 47, 1988). O autor afirma: "Fala dos problemas de estrutura jornalística, faz críticas ao fluxo interno, demonstra preocupação com o cumprimento dos cronogramas industriais, reclama das faltas de mecanismo de controle, lamenta a ausência de critérios homogêneos para as tomadas de decisões jornalísticas, exige desenvolvimento profissional. Em sua, pode ser considerado como o marco de uma nova fase na vida do jornal. Uma fase de menos proselitismo político e de maior preocupação com a técnica da atividade; de menos dedicação à ideologia política e de formulação de uma ideologia jornalística." (Silva, pág 47, 1988). Além da campanha das diretas-já, houve outro importante para o Projeto Folha em 1984: a posse de Otávio Firas Filho como diretor de redação. Com ele, o processo de organizar internamente o jornal se acelerou. É um período em que se acirrou também a briga entre a Folha e o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Apesar de um projeto que visava "democratizar" mas as páginas do jornal, a implantação foi considerada autoritária (houve várias demissões por deficiência técnica, contestadas pelo Sindicato). Nos anos que se seguem, as inovações continuaram. Ainda em 12984, entrou em vigor a primeira edição do "Manuel Geral da Redação", reeditado em 1987. A direção também preparou manuais específicos paras as coberturas da Copa do Mundo do México (Manual da Copa) e das eleições para os governos estaduais em 1986 (Manual das Eleições), distribuídos aos jornalistas envolvidos no trabalho. Diferentemente dos concorrentes, a Folha deu um tratamento igual a Tancredo Neves e Paulo Maluf na eleição indireta à presidente de 1984 e também não aderiu à comoção nacional para salvar Tancredo (fez uma cobertura mais objetiva e mais investigativa). Um dos pontos do "projeto Folha" foi a preocupação em se melhorar a qualidade do produto e fazer um jornal pensando no leitor. Com o objetivo de ter um produto melhor, a Folha passou, a partir de 1985, a admitir jornalistas só com concurso e iniciou um programa de seminários sobre temas ligados à área. Ainda que timidamente, o jornal também passou a fazer um controle dos erros cometidos. Mas Carlos Eduardo Lins da Silva, que participou da implantação do projeto, reconheceu que os mecanismos eram fracos, sujeitos a erros. Houve também uma preocupação em ser ter um perfil melhor do leitor e ver como o público reagia. "Tanto a pesquisa "Perfil do Leitor" como a seção "Painel do Leitor" são insuficientes para que se tenha uma visão correta de como o público reage ao jornal. Dão bons indícios, oferecem uma visão aproximada, mas não satisfazem." (Silva, pág. 176. 1988) Os três pontos - preocupação com o produto, com o controle de erros e com a opinião do leitor - podem ser considerados como a base para a decisão e se criar o cargo de ombudsman na redação, ainda em 1986. Quanto jornalistas foram convidados pela direção do jornal para a função, mas rejeitaram o convite. Em 1989, o jornalista Caio Túlio Costa, então correspondente da Folha em Paris (França), aceitou o convite e passou a ser o primeiro ombudsman da imprensa brasileira e latino-americana. Ele começou o trabalho em 20 de setembro e, quando dias depois, publicou a sua primeira coluna, "Quando alguém é pago para defender o leitor". Suas funções: ouvir e passar à redação as reclamações dos leitores e fazer uma análise crítica do jornal. 2. O Ombudsman Até a Folha de S.Paulo implantar o programa, pouco se sabia no Brasil sobre o trabalho do ombudsman. O próprio nome, no início, soava estranho. Mais estranha, porém, era a sua função num país onde a imprensa ainda é arrogante (não gosta de admitir seus erros). Pela primeira vez, um meio de comunicação pagava um profissional para apontar erros do próprio veículo. Novidade no Brasil, o ombudsman já era uma figura conhecida nos Estados Unidos. O primeiro jornal a adotar um foi o "Louisville Corrier Journal", do Kentucky, em 1967. Hoje, o número de ombudsmen supera os 70 em todo o mundo. Destes, apenas um é da América Latina. O ombudsman foi adaptado pelos jornais. O cargo surgiu no início do século XIX, na Escandinávia. Isso ocorreu em 1809, segundo um artigo de Celso Barroso Leite e Clóvis Zobaram Monteiro (1971), ou em 1810, conforme a "Folha de S. Paulo. Tinha como função defender os interesses do cidadão contra o Estado (governo e administração pública). Para Leite e Monteiro, o ombudsman pode ter existido, de um maneira diferente, antes da criação do cargo pela Constituição da Suécia. Como "delegado", "agente" ou um "fiscal", ele tinha a função de defender o rei e o patrimônio do Estado. A mudança veio com a constituição sueca, quando o ombdusman passou a ser um representante do parlamento e do povo, com total independência do governo. A instituição do programa não foi um ato isolado no contexto histórico. Com o fim do feudalismo (séculos 14 e 15), os governos centralizaram o poder e passaram a exercer um número cada vez maior de atividades. E, na mesma proporção em que aumentaram o seu poder, cresceram as queixas contra a administração público. Leite e Monteiro afirmam: "À media que o Estado se distancia dos indivíduos e sua virtual onipresença o faz inevitavelmente difuso e impessoal, tornando insatisfatórios os mecanismos normais de manutenção do equilíbrio entre as partes e o todo, entre as unidades e o conjunto em que virtualmente se anulam, avulta a necessidade de proteção dos direitos individuais, dia a dia mais sujeitos aos riscos de desproporção entre a pessoa humana e o organismo social, corporificado no Poder Público." (Leite e Monteiro, 1971) Uma das funções do ombudsman é a de delegado do Parlamento que "investiga queixas de cidadãos contra mau atendimento por parte das repartições públicas e, quando considera procedentes, procura soluções", define Ronal Rowat, no livro "The Ombudsmen". Um brasileiro, Caio Tácito, dá uma definição mais abrangente no artigo "O controle da administração e a nova Constituição do Brasil" (Revista do Direito Administrativo, 1967): "Trata-se de um Comissário Parlamentar, escolhido pelo Poder Legislativo, com atribuições especiais de acompanhar e fiscalizar a regularidade da administração civil ou militar, apreciando queixas que lhe sejam encaminhadas ou realizando inspeções espontâneas nos serviços públicos. Os seus poderes são limitados, não exercendo competência anulatória, nem disciplinar ou criminal, mas, segundo o depoimento dos autores, a sua advertência ou a iniciativa de processos penais contribui expressivamente para a contenção dos abusos do poder administrativo." (Leite e Monteiro, 1971) Na área pública, o ombudsman combate principalmente a burocracia. O objetivo do seu trabalho é fazer com que o indivíduo tenha do poder público a atenção que merece. Ele não tem o poder de resolver problemas, mas os encaminha e agiliza o processo. Em 1971, pelo menos 15 países tinham um ombudsman ou um funcionário com função equivalente na área pública para defender o cidadão do Estado. O Brasil não consta dessa lista. Houve, mais tarde, durante o governo de José Sarney (1985-90), um funcionário com a função do "ouvidor-mor". A experiência acabou não dando certo e o cargo foi extinto meses depois. O ombdusman também ocupa um espaço na economia. Empresas que querem melhorar o seu relacionamento com o público ou detectar problemas, normalmente indicam um funcionário especializado para ouvir reclamações. Esse serviço é cada vez mais comum em bancos ou empresas que prestam serviços. E confirma, mais uma vez, um velho ditado: "O cliente sempre tem razão". 2.1. O Ombudsman na Imprensa O "Louisville Corrier Journal", de Kentucky (EUA), foi o primeiro jornal a adotar o ombudsman em sua redação, em 1967. Mais do que uma jogada de marketing, a criação do cargo refletia à época a discussão sobre ética no jornalismo norte-americano. Como na área pública, o ombudsman de jornal surgiu devido à preocupação com a veracidade da notícia e com a questão ética que envolvia os assuntos noticiados. As primeiras críticas ao jornalismo americano datam do período colonial e dos primeiros anos da república (proclamada em 1776, ano da independência do país). Mas, no início, os estudos se baseavam apenas em alguns fatos isolados. Com o passar dos anos, cresce a preocupação com a questão ética. A partir de 1920 - período em que começam a surgir no Brasil os primeiros jornais organizados como empresas -, a discussão ética entra na agenda nos Estados Unidos. Neste período, a Sociedade Americana de Editores de Jornais (em 1923) e a Sociedade dos Jornalistas Profissionais (1926) adotaram os primeiros códigos de conduta. Aliado a isso, há estudos aprofundados sobre a ética - ou a falta dela. Apesar de analisarem os problemas e estabeleceram alguns padrões éticos, os livros e códigos eram recebidos com ressalvas por jornalistas e editores. A partir dos anos 30, o "ideal de objetividade" começa a orientar os profissionais de imprensa e as escolas de jornalismo passam a se expandir, constata Robert Schmuhl, no livro "As Responsabilidades do Jornalismo". Segundo ele, "com a objetividade operando sem muito questionamento interno, o mundo da imprensa assumiu ingenuamente que não tinha que prestar muita atenção à moralidade jornalística". (Schmuhl, 1984:12) A relutância dos jornalistas em discutir com profundidade o seu trabalho teve conseqüências graves. O número de jornais diários nos Estados Unidos declinou de 2.008 em 1925 para 1.749 em 1945, enquanto houve um crescimento do total de revistas nacionais e de redes com departamento de jornalismo. Schmuhl diz que esta "preocupação com a mudança dos meios de informação contribuiria para o redespertar de algumas indagações éticas que tiveram nos anos vinte". (Schmuhl, 1984:12) O relatório "A Free and Responsible Press", da Comissão para a Liberdade de Imprensa - ou Comissão Hutchins -, em 1947, provocou uma polêmica ao propor a criação do órgão independente para avaliar os meios de comunicação. A proposta, que fala em regulamentação, reduziu o impacto imediato e diminuiu sua importância, avalia ele. Mas acrescenta: "As sugestões específicas - maior acesso aos meios de informação de pontos de vista contrários, publicação ou divulgação de críticas sobre os veículos, criação de agências externas para monitorar o desempenho dos veículos, etc. - e a teoria da responsabilidade social adotada no relatório levaram vários anos para se enraizarem e serem aceitas pelos jornalistas, pelos professores de jornalismo e pelo público em geral. Em última análise, porém, o relatório teve maior influência do que os trabalhos que o precederam e continua sendo importante até hoje." (Schmuhl, 1988:14) Em edições posteriores de relatórios, a Comissão voltou ao assunto. Em 1957, Reinhold Niebuhr, membro da Comissão, diz que "é necessária uma filosofia geral da comunicação de massa", mas reconhece que é difícil "exigir um comportamento responsável" e considera "perigosa" qualquer regulamentação. Segundo Schmuhl, uma "imprensa responsável" depende principalmente da definição de "responsabilidade social" pelos jornalistas e empresas de comunicação. Regulamentação, nem pensar. "Mecanismos limitados e práticos para estimular e encorajar a responsabilidade e a reflexão ética no interior dos veículos são praticamente os únicos caminhos possíveis", afirma. A filosofia liberal, que rege a economia norte-americana, vale também para os meios de comunicação impressos. Nos anos 50 e 60, a responsabilidade dos meios de comunicação cresceu principalmente devido às evoluções tecnológicas. Como os veículos - em especial as emissoras de TV - tornaram-se parte do dia a dia do cidadão, as atitudes dos jornalistas e das empresas passaram a ser analisados mais freqüentemente. As coberturas dos problemas raciais, da Guerra do Vietnã e do caso conhecido como Watergate (investigação que culminou com a renúncia do presidente Richard Nixon), de acordo com Schmuhl, "voltaram a atenção de toda a sociedade sobre o jornalismo, fazendo com que ela examinasse os mensageiros e sua mensagens de modo mais sério e crítico." Durante os anos 60, surgiu a revista "Columbia Journalism Review". Com ela, a crítica ao jornalismo passou a fazer parte de cotidiano. Alguns críticas da época são severas, duras, como a do "Public Broadcasting System" (rede TV pública, não comercial), que define a área como uma "selva ética em que reina o pragmatismo, no qual são poucos os princípios aceitos e respeitados no exercício diário da profissão e onde há muitos selvagens sentido-se orgulhosos da anarquia ao seu redor." Schmuhl discorda da crítica extrema da rede de TV e afirma que existem "várias trilhas" que podem levar ao "caminho da responsabilidade jornalística". A criação do cargo de ombudsman pelo "Louisville Corrier Journal", na análise de Robert Schmuhl, é uma trilha. Há ainda outras, como a adoção de códigos de ética que estimulem a conscientização dos profissionais e a criação de conselhos de imprensa, órgãos independentes que avaliam a atuação de jornalistas e veículos. Apesar de não terem poder de decidir, eles estimulam o diálogo entre jornalistas e o público. A experiência iniciada pelo "Louisville Corrier Journal" pode ser considerada como positiva. De 1967 até hoje, mais de 70 jornais de diferentes países (Estados Undiso, Inglaterra, Suécia, Espanha, Áustria, Canadá, Filipinas, África do Sul e Brasil) adotaram o ombudsman. Suas funções são ouvir, investigar e encaminhar as reclamações dos leitores; analisar o jornal diariamente e fazer uma crítica dos meios de comunicação, normalmente publicada nas edições de final de semana. Schmuhl define o trabalho do ombudsman: "Esses críticos internos têm como responsabilidade averiguar se uma matéria é exata, justa e equilibrada ou se ela tem defeitos que podem dar ao público uma falsa impressão da notícia. O ombudsman responde a perguntas e queixas tanto particularmente - um telefonema ou um memorando para o leitor e o jornalista envolvido - quanto publicamente - mediante uma retificação ou um artigo detalhado sobre um problema ou caso específico." (Schmuhl, 1984: 19) Quando um jornal adota o ombudsman, ele transmite ao leitor uma disposição de rever conceitos e reparar erros cometidos. Esta "meia culpa" feita pelos veículos torna-os menos arrogantes aos olhos do público. "Lavar a roupa suja nunca é agradável. No jornalismo, porém, pode reduzir a arrogância e estimular uma maior responsabilidade", diz o autor. Além do ombudsman, surgiu em 1983 uma coluna no jornal "The New York Times" (EUA), a "Nota de Editores", com o objetivo de corrigir erros de informação. Sobre a experiência, o editor-chefe A. M. Rosenthal afirma: "As pessoas ficam surpresas com a sinceridade. Se você diz que realmente errou, movido por um profundo desejo de reconhecer o fato, a primeira reação de muita gente em nossa profissão é de `ah, ah, o que ele está querendo?´ Francamente, não estamos querendo nada. Estamos fazendo isso para nos sentirmos melhor. Não existe outra razão." (Schmuhl, 1984: 19) Semelhante a uma parte do trabalho do ombudsman, a "Nota dos Editores" do NYT tem similares em outros jornais americanos. Essa discussão pública dos problemas do jornalismo dá uma idéia ao leitor de como é o trabalho e como funciona a imprensa. Ao mesmo tempo, ela expõe mais os jornalistas e, indiretamente, os obriga a ter um cuidado maior com a notícia e com a questão ética que envolve cada informação. Nos Estados Unidos, o surgimento do ombudsman de imprensa é precedido por uma longa e aprofundada discussão ética. Isso não significa que a adoção de um crítico interno não seja fruto de uma jogada de marketing. Isso é visível hoje no que se referea ecologia: inúmeras empresas, com passado de poluidoras, insistem em aparecer em publicidades como defensoras do meio ambiente. No Brasil, o ombudsman surge devido ao trabalho da Folha de S. Paulo. Não houve uma discussão sobre a questão ética dos meios de comunicação. Os possíveis debates sobre o jornalismo foram interrompidos pelo golpe de 1964. Com a ditadura militar, não era precisa discutir nada. Tudo era decidido em gabinetes, de cima para baixo. Mesmo após o fim do período militar e da abertura, o debate foi tímido. Os jornais realmente independentes podem ser contados nos dedos: a subserviência ao governo federal ainda é visível por parte de emissoras de rádio e TV e de jornais. Muitos órgãos ainda preferem se manter próximos ao poder e informal mal do que em optar pelo distanciamento e divulgar os fatos acima de interesses políticos. Nesse contexto, a Folha de S. Paulo foi o único jornal a assumir uma postura diferente dos concorrentes. Mesmo antes de indicar o jornalista Caio Túlio Costa para o cargo de ombudsman, o jornal já reconhecia erros e publicava correções. Dentro da própria equipe que implantava o Projeto Folha, a discussão era incentivada. Com o ombudsman, a discussão dos problemas passou a ser pública. 3. O Ombudsman na Folha O cargo de ombudsman na Folha foi criado com base nas experiências dos jornais "El País" (Espanha) e "The Washington Post" (EUA). Desde 1986, o diretor de redação Otávio Frias Filho e os secretários Carlos Eduardo Lins da Silva e Caio Túlio Costa acompanhavam o trabalho dos ombudsmen dos dois jornais, enquanto convidavam jornalistas para ocupar o cargo. Nenhum dos quatro convidados aceitou a função. A criação só foi oficializada em 20 de setembro de 1989. Correspondente em Paris, Caio Túlio precisava retornar ao país por causa de problemas particulares. A direção do jornal decidiu convidá-lo para ser o primeiro ombudsman do Brasil e da América Latina. Caio Túlio é um jornalista da "nova geração". Nascido em Alfrenas (MG), ele estreou na profissão como cronista social do jornal "O Imparcial", semanário de Tupi Paulista (SP). Formou-se em jornalismo na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), em 1979. Cursou ainda Filosofia, também na USP. Mesmo antes de formado, foi diretor de redação do jornal mensal "Beijo" (1977 e 78), e secretário de redação do Lei Livros (1978) e, mais tarde, diretor de redação (de 1979 a 81). Em 1981, ele foi convidado pela Folha pra ser o editor do caderno Ilustrada e do Folhetim (suplemento cultural). No ano seguinte, foi promovido a secretário de redação, cargo que ocupou até 1987. Nesse período, foi o responsável direto pela informatização da redação do jornal, realizada em 1983. De 1987 a 89, trabalhou como correspondente do jornal em Paris. Caio Túlio Costa foi um dos autores do "Manual Geral de Redação" e do livro "Seminário de Jornalismo", ambos editados pela Folha de S. Paulo. Foi também o autor de "O que é Anarquismo", livro da coleção Primeiros Passos, da Brasiliense. Por duas vezes, ele deu aulas na PUC-SP e no curso de pós-graduação de jornalismo da USP. Caio Túlio foi indicado com um mandato de um ano, com possibilidade de renovação por mais um ano, caso o jornal e ele estivessem de acordo. O ombudsman da Folha tem quatro funções básicas: 1. Realizar a crítica diária à edição do jornal. Ela é feita ainda na parte da manhã e encaminhada por volta do meio-dia à redação, às sucursais e aos correspondentes da Folha. Não é publicada. Normalmente, são duas ou três laudas datilografadas nas quais o ombudsman aponta erros cometidos. Essa crítica é realizada a partir da leitura aprofundada da Folha e dos outros principais jornais do país - O Estado de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil, Jornal da Tarde e Gazeta Mercantil. 2. Atender ao leitor. É o seu trabalho principal, segundo afirma o próprio Caio Túlio. Esse atendimento é feito por telefone (das 14h às 18h), por carta ou pessoalmente. O ombudsman passa a ser a "antena do jornal" junto ao leitor: recebe as reclamações, promove investigações e encaminha os problemas à redação. 3. Supervisionar o Painel do Leitor e indicar os erros que devem ser corrigidos. O ombudsman indica também cartas que merecem publicação, mas a decisão final cabe ao editor do Painel. 4. Fazer uma crítica dos meios de comunicação, publicada nas edições de domingo da Folha. É a oportunidade que ele tem para mostrar o seu trabalho ao leitor. No artigo, normalmente composto por um texto principal, uma seção chamada Retranca e, de vez em quando, e uma ilustração, ele faz uma análise da atuação da Folha e dos outros jornais, aborda questões éticas e tira dúvidas que o noticiário deixa. A indicação de Caio Túlio Costa foi anunciada pela Folha no dia 23 de setembro de 1989, um dia antes de ser publicada a primeira coluna. "Folha lança amanhã a coluna do ombudsman", dizia a manchete, no alto da página. Além do anúncio da criação do cargo, o jornal trazia depoimentos dos ombudsmen do El País, José Miguel La Raya, e do The Washington Post, Richard Harwood. Eles falaram sobre o que muda no jornalismo com a presença do ombudsman. "É um maior controle. Os jornalistas sabem que o leitor tem como reclamar e que existe alguém acompanhando o jornal. Para cuidar da reputação, eles ficam mais rigorosos nas reportagens", diz La Raya. "Depende dos jornalistas e como eles reagem. Eu acho que o ombudsman pode contribuir para se chegar a níveis mais altos. O jornal pode ser mais preciso, mais justo", afirmou Harwood. Ao responder a questão, o recém-eleito ombudsman da Folha diz que o resultado será visto na prática. "Mas acho que ele pode ajudar o jornal a ser mais bem feito. Pode ajudar um pouco o jornal a ser mais bem acabado". Numa entrevista, ele faz a sua primeira crítica à Folha. "Eu acho a Folha muito ousada. Ela tem um papel de ousadia inegável na história da imprensa brasileira. Mas acho que a Folha ainda é um jornal mal acabado. E esse problema de mal acabamento pode ser facilmente resolvido." (Folha, 23/9/1989) Até ser indicado para o cargo, Caio Túlio conhecia pouco do trabalho do ombudsman. "Eu já sabia da existência de uma organização mundial, que é a ONO - Organization of News Ombudsmen, com sede em Sacramento, Califórnia (EUA). Acompanhava, mas não sabia muito aprofundadamente. Mas acompanhava, sabia o que era, respeitava e achava a coisa interessante, principalmente a parte da crítica (Sextante, maio de 1991). A reação à criação do cargo foi positiva. "É uma idéia magnífica, um avanço muito grande. É uma idéia de bom senso", disse à Folha Olcyar de Moraes, presidente do grupo Itamarati. "Se vai criticar o jornal eu acho ótimo. A folha está muito boa, mas as vezes comete erros graves", afirmou Luiz Carlos Bresser Pereira, ex-ministro da Fazenda no governo Sarney. "Acho uma providência urgentíssima. Que todos os jornais a tomem. Os jornais têm praticado uma ditadura contra pessoas indefesas, sem jornal para se defender. É o que está acontecendo comigo na Ilustrada", declarou o escritor Ferreira Gullar. "O ombudsman estimula a troca de idéias e decisões mais democráticas. Quanto mais troca de idéias melhor", opinou o empresário Antônio Ermírio de Moraes. 3.1. O Leitor Um jornal é feito para o leitor. Deve apresentar informações que realmente sejam úteis ao seu dia-a-dia e que o deixem a par do que acontece em diferentes áreas, como política, economia, mundo, cultura, ciência, informática etc.. Mas nem sempre - ou poucas vezes - é assim. Uma leitura superficial dos jornais brasileiros, principalmente de veículos editados fora do eixo Rio-São Paulo, permite detectar essa deficiência: inúmeras matérias, além de pouco claras, interessam mais aos entrevistados e as suas assessorias do que propriamente ao leitor. A falta de sintonia entre o jornalista e o leitor é uma crítica antiga no jornalismo. Têm seus reflexos sobre os jornais: o número de exemplares vendidos caiu nos últimos anos - inegável que esta queda também tem razões de ordem econômica. Só escaparam da crise jornais que mudaram posições e tentaram se aproximar mais do leitor. A intenção de fazer um produto voltado mais para o leitor é uma das metas do Projeto Folha. Diz Eduardo Lins da Silva: "Na filosofia do Projeto Folha, a preocupação com o leitor passar a ser fundamental. Editores e integrantes da direção de redação sempre lembram aos demais jornalistas da importância que tem o ponto de vista do leitor." (Silva: 1984, 169) Desde a década de 80, a Folha fez sucessivas pesquisas para saber qual o perfil do seu leitor. O público ganhou espaço no diário com a seção Painel do Leitor. Mesmo cartas contendo críticas a posições da Folha e atacando alguns articulistas são publicadas na coluna. Reportagens polêmicas são muito comentadas em cartas, com leitores elogiando ou fazendo críticas. Mas Carlos Eduardo vê com reservas a pesquisa Perfil do Leitor - "o entrevistado", diz, "responde para impressionar o entrevistador" - e a seção Painel do Leitor - "as cartas dos leitores são iniciativas isoladas de pessoas que devem representar parcela significativa do leitorado, mas não se sabe exatamente de que tipo". Segundo ele, os dois mecanismos "são insuficientes para que se tenha uma visão correta de como o público reage ao jornal". Em 1989, o leitor ganhou um espaço real com a criação do cargo de ombudsman. Segundo o jornalista indicado para a função, o principal era Ter alguém na redação para atender o leitor. "O ombudsman tem a finalidade de melhorar o jornal, mas a finalidade maior é dar ao leitor um representante na redação. O ombudsman é a antena do jornal junto ao leitor". (Sextante:1991) Desde o início, o público foi receptivo à criação do cargo. Na primeira semana de trabalho (25 a 29 de setembro), Caio Túlio Costa foi muito procurado por leitores: recebeu 89 telefonemas (média de 17 por dia), 108 cartas (21 por dia) e atendeu cinco leitores em seu escritório, no quinto andar do prédio da Folha, em São Paulo. A candidatura de Fernando Collor de Mello à presidência foi o assunto principal. O ecologista Cláudio Duarte foi o primeiro leitor a ligar para o ombudsman, ma nanhã de 25 de setembro de 1989, a primeira segunda-feira de trabalho de Caio Túlio no cargo. Ele reivindicava um espaço maior para assuntos sobre o meio-ambiente. "O assunto foi encaminhado, discutido pela redação e redundou numa carta onde expliquei que o jornal estava examinando o assunto. Nada foi resolvido e tenho certeza de que não será em breve porque esta não é uma das prioridades do jornal". (Intercom, 1990) O advogado Gabriel Schmidt, de São Paulo, procurou primeiro o ombudsman pessoalmente. Se problema - apresentar propostas para o país - foi solucionado. Outras questões também foram resolvidas, conforme Caio Túlio Túlio: "Nos primeiros três meses tive que recorrer a coluna somente em duas oportunidades para dar conta ao leitor de ocorrências mal resolvidas pelo jornal após a intervenção do ombudsman". (Intercom, 1990) Em seis meses de trabalho, o ombudsman atendeu mais de 3,6 mil ligações telefônicas, respondeu aproximadamente 2 mil cartas e conversou com mais de 80 leitores pessoalmente, segundo relato de Caio Túlio na coluna "Os limites do ombudsman", de 8 de abril de 1990. Mas há estatísticas mais completas sobre o número de leitores que ligam para ele. Em fevereiro de 1991, o próprio ombudsman fez um levantamento dos telefonemas recebidos. Naquele mês, apesar das férias escolares, ligaram 421 leitores (média de 21 por dia) - 68% eram homens e 32%, mulheres. Foram processados 479 itens: 84% eram queixas, 7% sugestões, 7% elogios e 2% críticas a outros jornais ou revistas. Das 404 reclamações recebidas, 38% eram protestos específicos contra determinadas notícias ou opiniões emitidas no jornal; 16% eram erros objetivos apontados; 16% críticas de caráter genérico (tipo "eu não gosta da Folha", "não gosto da linha política"), 12,6% críticas de caráter administrativo; e 12,5% reclamações de erros de português e digitação. Essas críticas foram encaminhas à direção do jornal. O restante das queixas foi resolvido, na maioria das vezes, pelo próprio ombudsman. A editoria que recebeu o maior número de reclamações foi a de Cidades (hoje cotidiano). Depois aparecem, pela ordem, Ilustrada, Política (hoje brasil), Exterior (mundo) e a primeira página e editoriais. Foi feito ainda um perfil dos leitores que ligaram para o ombudsman. Pela ordem, quem mais entrou em contato foram estudantes, industriários e comerciários, professores e pesquisadores universitários, comerciantes, executivos e consultores, aposentados, jornalistas, editores, fotógrafos, escritores e relações públicas, advogados, donas-de-casa e industriais e empresários. Leitores da cidade de São Paulo foram os que mais ligaram, representando 77,8% do total. Outros 9,5% eram do interior ou do litoral paulista, e 12,5% de outros Estados. Ali, apareceram, pela ordem, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Distrito Federal e Bahia. O Rio Grande do Sul está em 13º lugar. Esses números podem ser maiores em determinados dias ou semanas, quando há um assunto importante ou um caso polêmico. Em épocas de eleições, os leitores se posicionam mais, normalmente reclamando que o jornal dá mais espaço para um candidato, que persegue o outro. A maioria dos primeiros telefonemas ou cartas recebidos se refere ao então candidato à presidente Fernando Collor. Uma polêmica também provoca a reação dos leitores. Um exemplo é a discussão entre Caio Túlio e o então correspondente em Nova York, Paulo Francis. De 12 de fevereiro a 4 de março, o ombudsman recebeu 220 cartas tratando especificamente do assunto. No mesmo período, a coluna "Painel do Leitor" recebeu outras 224 cartas opinando sobre a polêmica. Outro exemplo, mais recente, foi a recuperassão da Carta Aberta ao Sr. Presidente da República, do diretor de redação Otavio Frias Filho, publicada na capa da edição de 25 de abril de 1991, uma quinta-feira. No dia seguinte, Caio Túlio recebeu 56 telefonemas (a média em fevereiro era de 21). Sobre esse tema, escreveu o ombudsman: "Em um ano e sete meses nesta atividade de atender e investigar reclamações de leitores, eu jamais vivi um dia como o de quinta-feira passada. (...) Eu esperava, como sempre, atender aos leitores queixosos, discordantes, àqueles em busca do catalisador natural de descontentamento em relação ao jornal. Pois bem, dos 56 telefonemas que atendia pessoalmente na quinta-feira, 33 foram sobre a carta. Todos de apoio." (Folha, 28/4/1991) A principal intenção dos leitores era manifestar seu apoio ao conteúdo da carta e pergunta se havia ocorrido um "fato novo" que tivesse desencadeado a publicação. Nos dias seguintes, cartas de apoio ao diretor de redação começaram a chegar ao jornal. Resultado: o assunto ocupou praticamente todo o espaço da coluna Painel do Leitor. Normalmente, porém, os leitores ligam ou escrevem para o ombudsman reclamando de posições adotadas pelo jornal ou de erros cometidos em notícias. Os problemas de "ordem política" são os mais difíceis de serem resolvidos. São questões mais complicadas do que as situações enfrentadas por ombudsmen de outras áreas, principalmente porque o jornal lida "com idéias, conceitos, informações". Diz ele: "Aqui o cara liga para dizer que discorda, liga para dizer que o jornal é muito malufista; outro liga acham do que o jornal é petista; liga para dizer que o jornal persenal persegue o PT; outro liga para dizer "não dei tal declaração", e aí você vai conferir e ele deu. São problemas muito mais sofisticados do que uma salsicha estragada, no caso de um ombudsman de um empresa alimentícia". (Sextante, 571991) O ombudsman também enfrenta críticas subjetivas ao seu trabalho. Quando fez um relato dos seus primeiros seis meses no cargo, na coluna "Os limites do ombudsman", ele falou sobre "três cartas arrasadoras": "Numa dessas cartas, sou acusado de "derrapado" nas funções e de ter ficado "em cima do muro" no episódio da invasão da Folha pela polícia do presidente Collor. Noutra, posso por um profissional preocupado com as "maters of high relevancy, but of no practical importance" (assuntos de alta relevância, mas de nenhuma importância prática; o leitor escreveu em inglês). Um terceiro revela: "nunca compactuei com as críticas do ombudsman pelo fato de não trazer nenhum enriquecimento jornalístico ao jornal." (Folha, 8/4/1990) Segundo o artigo de Caio Túlio, "nem o principal e mais comentado dos ombudsmen de imprensa está livre de contestação". Ele cita como exemplo o ombudsman do The Washington Post, Richard Harwood, um dos mais conhecidos nos meios de comunicação. Ele recebeu uma carta ainda mais severa, que dizia: "Você passou muito tempo na cama das elites do The Post para fazer o papel de ombudsman." Mas o tom normalmente não é tão severo. Muitos leitores que ligam Vêem o resultado nas páginas do jornal. Eles colaboram com o trabalho de Caio Túlio, principalmente na crítica diária, apontando erros de informação e de grafia de nomes. Depois de checar os dados, o ombudsman pede a correção do erro à redação sempre que necessário. Muitos leitores ligam com problemas específicos, facilitando o seu trabalho. Outros ainda ligam para fazer reclamações administrativas - "o pessoal liga dizendo que recebeu o jornal molhado, que pagou assinatura e não recebeu" - ou para cobrar posições do jornal ou tentar ditar, inclusive, uma manchete. Conforme Caio Túlio, os erros objetivos são mais fáceis de serem resolvidos, apesar de alguns problemas persistirem. As questões subjetivas são as mais complicadas de serem resolvidas à contento dos leitores. As sugestões, todas elas segundo o ombudsman, são repassadas à redação, que as analisa e adota quando julgar conveniente, isso sempre dentro da linha editorial da empresa. As sugestões nem sempre são acatadas. As conversas com os leitores, por telefone, em geral são rápidas. "Agora, se o assunto tem a mínima importância, aí eu dou ao leitor todo tempo que precisa". Normalmente não é um trabalho difícil. Só exige, como diz, "muita paciência". 3.2. A Crítica Interna Diariamente o ombudsman produz uma crítica de circulação interna sobre a edição da Folha. Ele aponta erros cometidos por jornalistas, questiona a edição das notícias e pede, quase sempre, mais clareza. Esse trabalho é feito na parte da manhã. A avaliação circula por volta do meio-dia na redação e nas sucursais, além de ser enviada aos correspondentes no país e no exterior. Sobre o trabalho, diz Caio Túlio Costa: "Faço um comentário com o olho tanto do leitor como quanto do jornalista sobre aquilo que o jornal está dando naquele dia, se deu mal, se deu bem, o que omitiu, o que podia explicar melhor, o que está certo, o que está errado segundo o meu ponto de vista e do ponto de vista de vários leitores que ligam". (Sextante, 5/1991) A crítica feita "com os olhos do leitor - que quer informação precisa, exata e completa - quanto os olhos do jornalista capaz de analisar e julgar uma edição" provém do Manual Geral de Redação da Folha (1987, segunda edição). O Manual pede clareza - "tudo deve ser explicado, esclarecido e detalhado, de forma concisa, exata, simples" -, exatidão - "informação inexata é informação errada" - e propõe um jornalismo de serviço - "o jornal impresso deve ser um artigo de primeira necessidade par ao leitor". (Manual, 1987) Além de se basear no Manual, o ombudsman tem como referência os textos publicados pelos outros três grandes jornais do país. A critica dificilmente traz elogios à Folha, diz quando o material dos concorrentes é mais claro e aprofundado. A monte do cantor Gonzaguinha em 29 de abril de 1991, num acidente de carro no Paraná, é um exemplo: "Moreu Gonzaguinha e a primeira página registra em três módulos logo abaixo da dobra. Em tese, está bem registrado. Mas a Ilustrada chuta o material para a terceira página em detrimento, na capa, para material sobre dança - efetivamente para um micro-público. Se deu tempo para colocar a morte de Gonzaguinha na terceira página (o caderno fechou às 13h40min) então daria tempo de refazer a capa. O leitor percebe a preguiça editorial e não gosta. Se for ler o Estado, então não gostou da comparação. Primeiro porque o material do Estado é mais completo. Enquanto para a Folha os dois acompanhantes do cantor ainda estavam vivos, o Estado informa que um deles morreu ontem mesmo (Aristides Pereira). Nosso perfil também é insuficiente". Mais seguido que as referências aos concorrentes aparece a questão da clareza dos textos e manchetes. Isso fica claro na crítica de 30 de abril de 1991, até a manchete principal, "Governo demite indexar baixos salários", é questionada. "Não seria melhor dizer que o governo admite corrigir os baixos salários, reajustá-los periodicamente? O mesmo raciocínio vale para o texto da manchete", diz o ombudsman. Uma outra matéria da mesma edição, "Brasil adia definição sobre cotas de café", na página 3-5, só pode ser entendida por especialistas ou iniciados no assunto, segundo ele. E questiona: "Que cotas são essas? Para que servem? O que é o sistema internacional de cotas para o café. Que assunto sobre cotas o Brasil está analisando? Que episódio é esse fechamento de registros? Que registros? O ministério da Economia fechou por quê os registros de exportação? (...)". O ombudsman cobra também as decisões dos editores, que definem as notícias que terão destaque no dia seguinte. O caso conhecido como "Riocentro", que completava 10 anos em abril de 1991 e ainda não foi esclarecido devidamente, era notícia nos principais jornais do país mas não recebeu chamada na primeira página. Outra crítica: "A Folha traz três retrancas e um quadro na página 1-4 mas deixou de registrar que o senador Suplicy-PT pediu nova IMP (Inquérito Policial Militar) sobre o caso". O tratamento dado ao caso Maradona também foi questionado: "Não merecia menção na capa o fato de Maradona ter dito que consome cocaína Há três mês? Os outros jornais também trazem material mais completo sobre o caso." Além das críticas à edição de notícias e a reportagens inteiras, o ombudsman faz na sua avaliação uma indicação dos erros que devem ser corrigidos pelo jornal. A crítica diária não chega ao leitor. Ela circula apenas na redação, nas sucursais e é enviada aos correspondentes. Em 3 de março de 1991, Caio Túlio mostrou em sua coluna, "Pílulas da crítica diária", alguns dos assuntos abordados durante a semana. Apresentou 10 questões e reproduziu alguns dados da crítica diária. Os itens se referem ao anúncio do final da Guerra do Golfo Pérsico ("Vitória"), abordam o julgamento da equipe médica que operou o presidente eleito Tancredo Neves em 1995 ("Memória e Tancredo") e terminam numa questão de português sobre se a palavra "cólera" (doença) é masculina (o cólera) ou feminina (a cólera). O ombudsman toca em questões tanto de direção - "A noite de quarta-feira foi uma daquelas em que havia razão suficiente para os jornais esperarem um pouco antes de fecharem suas edições de quinta-feira", em razão do final da Guerra do Golfo - como em problemas de ordem jornalística - "em texto (terça-feira) sobre os novos da Assembléia Legislativa, a Folha dá show de preconceito". A coluna dominical dá um exemplo de que a crítica diária pode produzir resultados. Na quarta-feira daquela semana, a "Folha informou que os médicos que operaram Tancredo serão julgados na quinta. O ombudsman criticou o fato de o jornal não Ter "recuperado" o caso. No dia seguinte, apareceu uma reportagem mais completa sobre o assunto, o que acabou analisado por Caio Túlio: "Está boa a reportagem (na quinta-feira) recuperando o caso dos médicos de Tancredo que serão julgados. É um grande assunto jornalístico e, se estivéssimos num país de Primeiro Mundo, a pressão da imprensa no sentido de se apurar realmente o acontecido seria infinitamente superior à que se vê aqui." (Folha, 3/3/1991) Entre todas as funções do ombudsman, a da crítica diária às edições da Folha talvez seja a mais cansativa e desgastante. Requer atenção redobrada. 3.3. Erros e Correções A Folha de S. Paulo foi o primeiro jornal brasileiro a admitir erros publicamente - uma prática ainda hoje pouco comum. A correção da grafia de nomes ou de informações mal checadas veio com o Projeto Folha e evoluiu com ele. Publicados no início em castos de cada caderno e sem receber nenhum destaque, hoje os erros são corrigidos num lugar nobre: na página três do primeiro caderno, abaixo do Painel do Leitor. Mas as retificações não foram apenas para uma página melhor, mais nobre. O número de erros admitidos e corrigidos aumentou de forma considerável nos últimos anos, principalmente após a criação do cargo de ombudsman. Com ele, o jornal ganhou um instrumento de aferição dos erros melhor. O próprio leitor passou a ser um aliado neste trabalho, ao ligar e apontar erros específicos. Antes da criação do cargo, a Folha tinha um controle de erros feito pelo revisor e, mais tarde, pelos editores. Em 1984, a média de erros era de 175 por edição. Três anos após, esse número caiu para 65, uma queda significativa. Para Carlos Eduardo Lins da Silva, o total de erros era cerca de 30% maior do que o levantamento feito pelo revisor. A meta da Folha, segundo o autor do livro "Mil Dias", era ficar em torno de 30 erros por edição. Os erros, que não eram classificados pelo revisor, foram divididos em dois grupos pelo ombudsman: de grafia e português, e de informação. Um trabalho de aferição melhor elevou também o número de erros do jornal. De 65 erros de grafia e português apontados pelos editores em 1987, a Folha passou a ter 138 em 1990, em média, quando o trabalho já era feito por Caio Túlio Costa. Esse número - superior em mais de 100% - caiu 15% nos primeiros meses de 1991, para 117. Segundo avaliação do ombudsman, o jornal "tem tido uma queda muito leve na quantidade de erros de grafia, gramática e digitação. Agora isto tem a fez com o tamanho do jornal, que diminuiu." (Sextante, 5/1991) A média de três erros por página que a Folha comete fica dentro dos padrões mundiais, mas acima da média de algumas empresas. A rede que edita o Miami Herald (Flórida) e outros 28 diários, por exemplo, cometeu em média 2,5 erros por página em 1990, segundo dados da coluna de Caio Túlio. "A freqüência era de 4,7 erros em 1986, na média diária. Conseguiram diminuir quase a metade em quatro anos." No Brasil, qualquer comparação fica bem mais difícil. Os outros grandes jornais ainda não têm o hábito de reconhecer e publicar seus erros nem de quantificá-los. Os erros de grafia e digitação são os mais fáceis de serem apontados e retificados pelo jornal. A correção é enviada ao responsável pelo Erramos e, normalmente, publicada. Os problemas aparecem quando entram em questão os erros de informação. Segundo Caio Túlio, "não existe problema com refutações de erros objetivamente comprováveis, mas quando há uma pontinha de subjetividade a coisa complica". É o trabalho mais difícil, complicado: "Isto (os erros de informação) é muito difícil de aferir, e é muito difícil de comparar, porque tem muita informação que você não tem como saber se está certa ou errada. O leitor não tem como aferir um dado de um cara do Pará, um dado político do Estado do Maranhão, um dado de um garimpeiro. Você não tem como aferir se todas as informações que o jornal dá são corretas". (Sextante, 5/1991) Para o ombudsman, o que se pode ver na Folha é um aumento do número de admissão de erros. "A quantidade de admissão de erros aumentou porque o jornal está tendo um equipamento melhor de aferição, formado por seus leitores. O leitor liga para o ombudsman e diz que a coisa está errada". (Sextante, 5/1991) Segundo ele, antes da criação do cargo a Folha admitia cerca de 12 erros por mês. Logo no primeiro mês de trabalho do ombudsman, o jornal reconheceu 45 erros. Em 1990, o número subiu para 70. A partir de fevereiro desse ano, quando o ombudsman passou a aglutinar as erratas, a admissão de erros subiu para 130, média de 4,4 por dia. O recorde ocorreu em maio, quando o jornal retificou 160 informações, média de 5,3. Apesar do número de erros de informação, Caio Túlio acredita que a implantação do cargo de ombudsman teve um "conteúdo pedagógico". "Eu acho que o jornal antes da figura do ombudsman, se você conseguisse fazer uma aferição confiável, ele teria mais de 4,4 erros dia por dia". (Sextante, 5/1991) 3.4. A Crítica Entre as funções do ombudsman da Folha de S. Paulo está a de escrever um artigo semanal sobre os meios de comunicação. Caio Túlio Costa, entre outras coisas, analisa o desempenho da imprensa brasileira, faz previsões sobre o futuro do jornais e procura "aparar arestas" (tirar dúvidas deixadas pelo noticiário). É o seu momento de maior responsabilidade. A chamada "media criticism" é uma das funções incorporadas pelo ombudsman. Mesmo antes do surgimento do "advogado do leitor" no Louisville Corrier Journal, em 1967, a crítica aos meios de comunicação era exercida publicamente. No próprio Brasil há exemplos: entre 1975 e 77, Alberto Dines teve um espaço com esse objetivo na Folha; e na extinta revista Imprensa (não confundir com a atual, da Abril) havia uma coluna denominada "Crítica da Informação". A função, porém, não é universal. Os ombudsmen ingleses, por exemplo, não publicam colunas, ouvem apenas os leitores e produzem relatórios internos. A idéia da crítica pública é norte-americana e foi adotada pela Folha com base nas experiências do The Washington Post e do EL País (também implantou o programa nos moldes do Post). Caio Túlio estreou na função em setembro de 1989, com a coluna "Quando alguém é pago para defender o leitor", publicada no primeiro caderno da Folha. Desde aquela data até junho de 1991, o ombudsman escreveu sobre problemas da imprensa e comparou os noticiários dos quatro principais jornais do país - Folha, O Estado de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil. Nas suas primeiras colunas, o ombudsman foi didático. Procurou explicar ao leitor quais as suas funções: a coluna "vai comentar as notícias da semana e a maneira como a imprensa tratou os assuntos com um único objetivo: ler os jornais e escutar as notícias com olhos e ouvidos de leitor exigente", escreveu no artigo. No final, pediu: "Daqui para frente não tenha dúvida. Ao sentir seu direito de leitor ferido, procure o ombudsman. Ele está sendo pago para defender você." À medida do possível, Caio Túlio deixou a par os leitores do seu trabalho. Logo em seu segundo artigo, ele apresentou um relatório da sua primeira semana de trabalho, com o número de telefonemas e cartas recebidas, quais os assuntos que prevaleceram. Esse exemplo se repetiu inúmeras vezes. Em casos de um fatos importantes (como a "Carta Aberta ao Sr. Presidente da República", em abril de 1991), ele procurou mostrar a reação dos leitores. Deixou a par o público sobre a crítica interna (em "Pílulas da Crítica Diária", em 3 de março de 1991) e sobre o encaminhamento de sugestões à redação (em "Varejão de Problemas", em 2 de junho de 1991). Às informações do seu trabalho, o ombudsman acrescentou análises da realidade da imprensa brasileira que, segundo ele, "pouco deve à melhor imprensa estrangeira - que é a inglesa e a americana". Na coluna de estréia, ele escreveu: "Há muito o que falar da imprensa brasileira, das maquinações editoriais, das necessidades logísticas e empresarias de cada grupo ou mesmo das neuroses e idiossincrasias dos profissionais da área". Uma das questões mais abordadas se refere á ética. Publicar ou não uma notícia foi um assunto tratado diversas vezes por Caio Túlio durante sua permanência no cargo. Entre os casos em pauta, estavam os sequestros, a posição de um jornalista ou fotógrafo durante um assalto ou crime. A publicação de notícias envolvendo sequestros entrou em pauta em junho de 1990, quando o empresário Roberto Medina foi raptado no Rio. O jornal carioca "O Povo" rompeu uma antiga tradição, de só contar a história após o desfecho, e deu detalhes sobre o andamento das negociações. Outros jornais passaram a noticiar o sequestro, inclusive a Folha de S. Paulo - esta com a autorização da família Medina. O aumento do número de sequestros fez o ombudsman contestar a antiga norma, a da notícia embargada para evitar colocar a vítima em risco de vida: "Por quê a divulgação e o acompanhamento do caso - com um noticiário evidentemente correto, ponderado e despido de sensacionalismo barato - não pode ajudar na resolução do sequestro? Por que, necessariamente, ela só atrapalha? Não vi até agora argumentos irrefutáveis a este propósito. (Folha, 24/6/1990) Segundo o ombudsman, o desafio dos meios de comunicação é o de "preservar o direito à informação sem colocar em risco a vida de qualquer pessoa". A decisão da Folha em não divulgar o sequestro de Wagner Canhedo Filho - empresário e filho do dono da Vasp - enquanto emissoras de rádio e TV e diários impressos o noticiavam fez o ombudsman voltar ao tema em 14 de julho de 1991 e criticar o seu próprio jornal. Ele considerou a posição "carregada de uma contradição cujas edições diárias do jornal se encarregam de escancarar". Segundo disse, é preciso "ir fundo no mérito do caso": "Primeiro porque um noticiário enxuto, medido e honesto não iria colocar a vida de Canhedo Filho em risco. Segundo porque não era o fato de a Folha omitir a informação que garantiria a vida do sequestrado - ainda mais porque a mídia estava noticiado tudo. Terceiro porque, no momento da banalização dos sequestros e de sua transformação em indústria de terror civil, o ético é noticiá-los." (Folha, 24/7/1991) A participação do repórter como testemunha de um crime ou furto - deve tentar impedir ou apenas registrar o fato - mereceu abordagem de Caio Túlio. O problema, clássico no jornalismo, verificou-se no linchamento ocorrido em Matupá (MT) - onde três pessoas acusadas de assassinato foram mortas com a conivência da Polícia; um cinegrafista amador registrou a cena - e no caso de um furto a um motorista de Kombi no centro de São Paulo, registrado por um fotógrafo da Folha. A questão é: o que mais importante, impedir o furto e o linchamento ou registrar o fato? Qual o impacto maior? E até que ponto o cinegrafista poderia impedir o linchamento em Matupá ou o fotógrafo teria condições de impedir o roubo? Para o ombudsman, o "serviço prestado pelo flagrante" no caso do furto "foi maior do que a consequência do furto". "O jornalista ficou de tocaia à espera de algo que poderia ocorrer. Não estava ali para documentar nenhum crime anunciado, mas um crime previsível - também para a Polícia", argumentou na coluna "Sobre furto, lama e fotos", em 17 de março de 1991. Sobre o linchamento questionou: "O fotógrafo de Matupá teria feito melhor se tentasse evitar o linchamento dos assaltantes em vez de documentar com sua câmera de vídeo a cena e colocar a tragédia de Matupá no mapa dos problemas do país?" O preconceito da Folha também foi alvo de severas críticas do ombudsman. Casos não faltam, apesar do Manual Geral de Redação ser claro no verbete que trata do assunto: "A Folha não admite preconceitos nos textos que publica. Ninguém é qualificado por sua origem étnica, naturalidade, confissão religiosa, situação social, preferências sexuais, deficiências físicas ou mentais, exceto quando essa qualificação foi indispensável para tornar completa a informação que o texto veicula". (Manual: 1987) A prisão de um brasileiro nos Estados Unidos, após o desfecho do caso Marcelo Pirâmides Soares (foi absolvido da acusação de assassinato), resultou na manchete "Brasileiro evangélico é preso nos EUA e acusado de violentar crianças". O ombudsman criticou o uso do termo "evangélico", definição dispensável segundo ele. "O uso do termo evangélico em título discriminava o personagem da notícia e podia levar até a interpretação segundo a qual o fato dele ser evangélico teria determinado suposto crime", escreveu na coluna "Sequestros, normas e preconceitos" (14/6/1991) Há outros casos de preconceito em textos jornalísticos analisados pelo ombudsman ou na crítica diária ao jornal ou em sua coluna semanal. O prefeito de Washington, por exemplo, teve sua condição de negro destacada em título. Escreveu Caio Túlio: "Pelo que sei, Washington só tem um prefeito e, por isso, não era preciso destacar que era negro." Caio Túlio usou o seu espaço para pedir aos jornalistas mais clareza em seus textos. Segundo ele, o texto da Folha não é calo, limpo nem lógico. "Informações contraditórias se misturam, se contradizem, se picam, se repicam: é uma coisa muito misturada, mal escritia, mal elaborada", disse o ombudsman, para quem a Folha é um jornal de "difícil leitura porque é muito mal escrito". Na coluna "A crise anunciada", ele fez uma crítica contra os textos truncados, distantes da realidade do leitor, com base na matéria de contracapa do caderno brasil de 5 de abril de 1991, "Veja como o governo virou sócio da inflação". Disse que faltou "toda a didática requerida para tirar o assunto da macroeconomia e trazê-lo para o chão, ou seja, para o bolso do leitor." O ombudsman ocupou boa parte do seu espaço para reparar erros cometidos pela imprensa brasileira - ateve-se em especial a Folha - e a formular pautas. Pediu investigações sobre determinados assuntos, mas reclamou principalmente mais matérias que interessem diretamente ao público que consome jornais. Não só de problemas, no entanto, vive a coluna do ombudsman. Caio Túlio fez várias análises sobre o futuro da imprensa. Em uma coluna, ele revela que há uma redução de leitores de jornais no país e no mundo, com base em estudos feitos pela Universidade de São Paulo (USP) e Unesco. Os estudos mostram que, de 1970 a 88, a população economicamente ativa no Brasil cresceu 106%, enquanto a circulação de jornais diários aumentou apenas 62% (dados da Unesco, mais positivos). O estudo revela, segundo ele, que o potencial de leitores não foi atingido ou conquistado pelo jornal diário. "É evidente que alguns diários conseguiram aumentar consideravelmente sua circulação, mas o potencial é grande e até agora inatingível". (Folha, 5/4/1991) Para o ombudsman, o jornal enquanto suporte de informação é um produto em baixa em todo o mundo, inclusive no Brasil. Para reforçar sua tese, ele cita como exemplo o Rio Grande do Sul: "A Zero Hora é o único jornal com influência, já que acabou a concorrência do Correio do Povo". A crise, segundo ele, é mais visível em países do primeiro mundo, como os Estados Unidos, onde a maioria das metrópoles tem apenas um grande jornal. 4. Os Jornalistas O que a criação do cargo de ombudsman apresentou de inovador também teve de polêmico e contestador. Apontar erros em reportagens pode ser correto do ponto de vista do leitor e do entrevistado, mas expõe o jornalista a uma situação delicada: a de ser alvo de uma crítica pública. Se não há dados concretos sobre a reação interna dos repórteres da Folha de S. Paulo, existem exemplos em que profissionais contestaram publicamente a análise do ombudsman. Para Caio Túlio Costa, os jornalistas da Folha reagiram com normalidade à criação do cargo. "Muitas vezes eu recebo respostas de crítica - olha você está errado por isso e aquilo - e até dou direito a resposta de críticas quando eles se sentem atingidos e acham que eu errei". (Sextante, 5/1991) A convivência, porém, não é tão pacífica assim. As reações de Paulo Francis e José Arbex - após receberem críticas do ombudsman em coluna dominical - revela momentos tensos da experiência. Francis e Arbex, no entanto, não foram os primeiros a contestar Caio Túlio. O pioneirismo coube a Mauro Lopes, da Editoria de Política. Lopes teve uma matéria sua, "Pelé entra na campanha" (20/9/1989), criticada pelo ombudsman na coluna de estréia. Caio Túlio analisou as informações da notícia e considerou a informação de que Pelé aderiu a campanha de Fernando Collor precipitada. Baseou-se também no noticiário de outros jornais, que evitaram "cantar" o apoio. Lopes mandou um resposta ao ombudsman, publica no domingo seguinte: "A primeira frase da reportragem, "Pelé colloriu mesmo", retrata com fidelidade o acontecimento. Os outros jornais não publicam essa informação porque dela não dispunham. A folha, sim. Os repórteres de outros jornais contentaram-se em registrar declarações de Collor numa entrevista coletiva. O da Folha, não. A notícia foi precipitada, como afirma Caio Túlio Costa? Não. A crítica sim. Caio Túlio Costa cometeu um elogiou - tenho certeza que involuntário - à preguiça jornalística. Aplaudiu repórteres que se bastaram a recolher declarações numa coletiva. Criticou a reportagem da Folha que se constituiu num furo jornalístico". (Folha, 1/10/11989) A crítica e a resposta de Mauro Lopes são um caso menor. Não têm o peso de outras polêmicas, nas quais o debate deixou o espaço reservado ao ombudsman e invadiu páginas inteiras do jornal. A reação de Mauro Lopes, porém, permite afirmar que os jornalistas receberam com reservas o primeiro ombudsman e dispostos a responder as críticas. Essa postura dos repórteres da Folha mudou com o passar do tempo. Eles começaram a admitir a crítica como jornalistas. E não como se fosse uma agressão pessoal. Até porque uma das funções do ombudsman era justamente analisar o noticiário do jornal, com critérios técnicos e promover a crítica. A polêmica envolvendo Caio Túlio e Paulo Francis começou após o primeiro turno das eleições presidenciais. Fernando Collor de Mello (PRN) e Luís Inácio Lula da Silva (PT) estavam em plena campanha para o turno final. As pesquisas de opinião pública davam vantagem a color, mas o candidato do PT estava crescendo e ameaçava vencer. Em meio a esse contexto, Francis atacou Lula num artigo de página inteira na edição de 23 de novembro de 1989, publicada no caderno Ilustrada e com chamada na capa. Escreveu o correspondente de Nova York: "Lula nos coloca "au niveau" de Cuba e Nicarágua. É uma besta quadrada, que não sabe nada do que está falando. Arruinaria o país, nos transformaria em Sudão, numa grande bosta." (Folha, 23/11/1989) Nos dias que se seguiram ao artigo, o ombudsman atendeu nada menos que 38 telefonemas de simpatizantes do PT reclamando dos termos usados por Francis. Caio Túlio tentou explicar quem era o Francis no carde de artes e espetáculos, na coluna "Petismo, Paulo Francis e o mito de Narciso": "Não se deve cobrar jornalismo nesse tipo de artigo que o Francis faz. Ali ele é o Francis ficcionista. O cronista dos tempos. Diz besteiras e coisas sábias. Escreve o que muitos pensam e não ousam falar em voz alta. É precoceituoso, vulgar, chuta alguns dados, é o Paulo Francis de sempre - irreverente e destemido". (Folha, 26/11/1989) Francis reagiu à critica com ataques. Num artigo de 30 de novembro de 1989, ele disse que Caio Túlio não tinha "currículo ou gabarito" para criticá-lo e acusou o ombudsman de "ensinar mal jornalismo aos jovens da Folha". Em artigos posteriores, o ombudsman levantou uma série de defeitos nos textos do articulista: distorção de informações, falta de checagem dos dados, alterações de citações "até de Shakespeare", erro de grafias de palavras frncesas, autor de "teorias apocalípticas" no jornal, negação das mesmas teses na Rede Globo e responsável por "opinionismo desenfreado". O nível do debate caiu. Em artigo de 22 de fevereiro de 1990, Francis chamou Caio Túlio de "lagartixa pré-histórica" e de "canalha menor". Diz ainda no texto: "Caio Túlio me causa asco indescritível, não posso garantir que se o encontrar não lhe dê uma chicotada na cara, ou não, palmadas onde guarda o seu intelecto". A troca de farpas entre Francis e Caio Túlio fez a Folha encerrar a polêmica em 25 de fevereiro, com base no verbete "Polêmicas" do Manual Geral de Redação. Os dois tiveram um espaço igual para expor suas opiniões sobre o assunto pela última vez. Francis escreveu que tinha sido atacado "por uma instituição criada pelo diretoria" para criticá-lo. Afirmou também que o trabalho tinha que restringir-se à crítica técnica e não fazer uma contestação das opiniões dos articulistas da Folha. "Contra estas, se forem ofensivas a grupos e pessoas, a Folha poderia, deveria chamar, e chama, partidários da parte agredida". Caio Túlio não foi menos duro em seu artigo, Segundo ele, todos sabem que Francis "chuta dados, distorce fatos e pratica um opinionismo desenfreado". Definiu o articulista como "um ficcionista de sucesso apenas nas páginas do jornal". Disse ainda: "Se lhe tirarem os jornais por uma semana acaba o Paulo Francis". A polêmica acabou com a amizade entre Francis e Caio Túlio e provocou, mais tarde, a saída do articulista da Folha - foi para o Estado de S. Paulo, no qual faz duas páginas semanais sobre cultura do "Caderno Dois". Diferentemente da Folha, Francis não faz mais comentários de política internacional e relações econômicas entre países. Outra polêmica foi com o editor de Exterior do jornal, José Arbex, em novembro de 1990, envolvendo a questão da unificação da Europa num grande mercado. Foram dois artigos do ombudsman e dois do editor e, posteriormente, algumas críticas menores por parte de Caio Túlio. Tudo começou com a manchete "Europa decide adiar a unificação", de 19 de outubro de 1990. Em sua crítica interna, o ombudsman contestou a interpretação da Editoria sobre o que havia sido aprovado numa reunião em Roma, com a presença de 12 chefes de Estado. No encontro, foi definida a data da unificação monetária (1º de janerio de 1994), segunda etapa do processo. A primeira - unificação econômica, com o fim das barreiras alfandegária - está marcada para o início de 1993. Os argumentos do ombudsman não convenceram a Editoria de Exterior, que voltou ao assunto na terça-feira, com a manchete interna "Adiamento eclipsa a euforia européia". Segundo a editoria, uma reunião entre ministros da economia dos países que integrarão a Comunidade Européia (CE) havia definido como data início da Segunda etapa do dia 1º de janeiro de 1993. Na reunião de Roma, o começo da unificação monetária teria sido adiado por um ano. Em sua coluna de 4 de novembro, "Ninguém adiro unificação européia", o ombusdman escreveu: "Esta Folha cometeu na segunda e terça-feira grave erro de informação, talvez o maior da imprensa brasileira neste ano." Segundo ele, a Folha confundir o início da unificação européia com as três etapas do processo - unificação econômica, monetária e política. O noticiário, segundo o ombudsman, trazia dois erros factuais (o jornal não mencionou que a definição da data da Segunda etapa era necessário para a adoção da moeda única e que a proposta aprovada era de Giulio Andreotti, da Itália, e não de Helmut Kohl, da Alemanha) e uma interpretação errada (a definição da data não adiou a unificação mas acelerou o processo). José Arbex respondeu dias depois, em texto que foi manchete de página. Segundo o editor, "há pompa na crítica. A circunstância foi fabricada pelo ombudsman": "Em sua crítica, o ombudsman não tocou naquilo que marcou as edições de 29 e 30 : a editoria preocupou-se em situar o processo de unificação da CE no quadro cirado com a queda do Muro de Berlim. Até essa data, a unificação européia era imediatamente associada à unificação dos países da CE. Isso perdeu o sentido após a queda do Muro". (Folha, 7/11/1990) Caio Túlio Costa e José Arbex escreveram cada um ainda um outro artigo sobre a unificação européia. O ombudsman trouxe as manchetes dos principais jornais da Europa sobre o assunto para reforçar seus argumentos. O editor disse que Caio Túlio "não conseguiu escapar a simplificação esquemática e equivocada", ressaltando que os jornais europeus fizeram análises diferentes. Apesar de considerar "errada" a interpretação do editor, o ombudsman concorda com o debate feito nas páginas do jornal: "É democrático. Se ele acha que não está errado e se o diretor do jornal acha que deve, nada contra. Deixa ele defender o interesse dele. O que eu fiz foi mostrar para o leitor que não é uma coisa que eu estava falando. O que fato é uma coisa. A Folha deu outra coisa ." (Sextante, 5/1991) Os debates com Paulo Francis e José Arbex foram os maiores travados pelo ombudsman. O primeiro por tratar-se de Francisco, um provocador de polêmicas da primeira linha do país. De forma seguida, ele deixa irados autores, compositores, cineastas, políticos e entidades. Aliado aos seus pontos de visa, ele tem um estilo agressivo e não mede as palavras para (des)caracterizar o seu adversário, quem quer seja. Com Arbex, a discussão foi mais no nível de idéias. O assunto reunificação européia interessa aos brasileiros, até pela imagem que o povo tem da Europa. Uma unificação semelhante no continente asiático não teria os mesmos efeitos, apesar do crescimento econômico e geopolítico do Japão. O ombudsman não foi contestado apenas por jornalistas da Folha. Ele foi alvo também de notas nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo. Diz Caio Túlio: "Toda tentativa do Estado e Globo ou de outros jornais que crítico é bater o ombudsman, inventar casos a meu respeito para me intimidar e eu deixar de falar deles". (Sextante, 5/1991) A briga maior foi com o Estado. Em função das férias de Caio Túlio no início de 1991, por exemplo, o jornal publicou a nota "Ombudsman elogia", no dia 5 de janeiro: "Por causa das anunciadas férias do ombudsman do jornal Folha de S. Paulo, esta coluna só voltará em fevereiro a publica alguns dos elogios que ele faz diariamente ao Estado em seus boletins de uso interno da redação, enquanto, aos domingos, critica o concorrente. Para o público externo". (Estado, 5/1/1991) Pela reação, nota-se que tudo que o ombudsman escreveu em sua coluna dominical foi lido com atenção pelos jornalistas da Folha e pelos concorrentes. Ninguém é contestado sem ser lido. Cada erro mereceu comentários. "Toda vez que o ombudsman erra é uma festa na redação", disse ele durante uma palestra em Porto Alegre, em agosto de 1991. CONCLUSÃO Nos anos 80, a Folha de S. Paulo adotou um novo modelo de jornalismo. Os textos extensos, opinativos e repletos de adjetivos deram lugar a matérias curtas, secas, diretas, exatas. Informação inexata passou a ser informação errada. À medida que o tempo passou, o Projeto Folha foi aprimorado. A criação do cargo de ombudsman, em 1989, faz parte desse objetivo de melhorar a cada edição o jornal. Criar o programa do ombudsman exige alguns pré-requisitos. Entre esses itens, estão a independência de um jornal perante o governo, empresas e instituições, a tentativa de se melhorar o produto de forma insistente, a humildade para reconhecer erros e a vontade de estabelecer mecanismos de controle, além de buscar o contato com os seus leitores. A Folha atendia, em parte, esses pré-requisitos muitos antes de 1989, quando criou o programa. O cargo de ombudsman não é simplesmente uma peça de marketing. Apenas ouvir as reclamações dos leitores para se dizer que se pensa nele - sem atender as reivindicações - pode afastá-lo do jornal. Se fosse uma "jogada", certamente outras empresas jornalísticas já teriam adotado o programa. O principal beneficiado com a criação do cargo foi o leitor ou a pessoa que se sentiu lesada pelo jornal. Pela primeira vez na história da imprensa desse país, uma empresa dos meios de comunicação colocou um profissional para ouvir principalmente queixas e - também - sugestões dos leitores. Mesmo antes da criação do cargo, a Folha já tinha reservado ao leitor o seu espaço, com o Painel do Leitor, na página três do primeiro caderno. Ali, era comum aparecerem críticas de pessoas anônimas contra o jornal, reclamando de erros de interpretação e até de opiniões emitidas por repórteres ou articulistas. Mas o leitor não tinha alguém específico a quem pudesse reclamar quando quissesse. Com a indicação do primeiro ombudsman, em 20 de setembro de 1989, ele passou a ter sua opinião mais respeitada no jornal - não necessariamente mais valorizada. Pôde, finalmente, reclamar contra a postura da Folha em algumas coberturas jornalísticas e ver, em alguns casos, mudanças. Com o cargo, o jornal passou também a ter um perfil dos leitores que mais se posicionam frente aos fatos. Ficou comprovado, por exemplo, que toda crítica a qualquer partido - mas principalmente ao Partido dos Trabalhadores (PT) - resultava em uma reação emotiva das pessoas. O ombudsman passou a ser também um responsável pelo controle de qualidade do jornal. Com as três outras funções - crítica diária, crítica pública semana e o controle dos erros cometidos pela redação -, o jornalista Caio Túlio Costa também colaborou com sugestões às editores e a cobrou mais reportagens desse ou daquele assunto. As intervenções do ombudsman tiveram resultados. Isso fica demonstrado no caso do julgamento dos médicos que operaram o presidente eleito Tancredo Neves, em 1985. Tancredo morreu dois meses após a cirurgia, num hospital de São Paulo. Dois antes do início do julgamento, a Folha deu a notícia, mas não explicou como ocorreram os problemas com Tancredo. O ombudsman pediu na crítica interna para o jornal relembrar o caso. No dia seguinte, a Folha trouxe um material bem mais completo e consistente do que nos dias anteriores. Nem sempre, porém, foi assim. Há casos em que a intervenção do ombudsman não teve resultados semelhantes, principalmente quando os problemas eram subjetivos, permitiam alguma discussão opinativa. Os resultados dos primeiros 18 meses de Caio Túlio Costa no cargo são positivos. Jornalistas da própria Folha - como Gilberto Dimenstein - afirmam que o produto final melhorou com a implantação do programa. O fato de ter alguém realizando o controle e com espaço para emitir opiniões na edição de domingo fez com que os repórteres tivessem uma preocupação maior com a informação. Passou-se a ter mais cuidado na busca de dados para a redação do texto final. O controle de erros de digitação e português e de informação passou a ser melhor. Com isso, o número de erros cometidos pelo jornal passou a ser maior do que antes. Quando Caio Túlio Costa assumiu o cargo, eram corrigidas cerca de 12 informações por mês. Em fevereiro de 1991, poucos meses após a implantação do programa, foram feitos 130 erramos. Em maio, o número subiu a 160. Mesmo com esses dados, o ombudsman destaca que os erros diminuíram em relação a 1989. Mas ainda não há uma análise sobre quando essa média atual de 4,4 erros de informação por edição vai começar a baixar ou se ainda continuará crescendo. O ombudsman teve na sua coluna dominical um espaço nobre em que pôde discutir velhos conceitos do jornalismo brasileiro e mundial. Entre uma e outra polêmica, ele se opôs a atitudes tomadas por seu jornal em relação aos sequestros e pediu mais clareza aos jornalistas. O que fez o seu trabalho ganhar atenção, no entanto, foi a briga com o correspondente em Nova York, Paulo Francis. Por mais de um mês, eles travaram uma batalha verbal nas páginas da Folha, culminando com a intervenção da direção de redação. Apesar dos problemas que jornalistas - aceitar uma crítica sempre foi difícil - o ombudsman conseguiu atender certos objetivos. Ele ouviu os leitores e encaminhou suas queixas - muitas delas atendidas. Conseguiu também melhorar alguns detalhes do jornal. É, porém, um trabalho difícil, cansativo, que exige paciência. O principal beneficiado é o leitor. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS LIVROS SCHMUHL, Robert. O Caminho da Responsabilidade. In As Responsabilidades do Jornalismo. Robert Schmuhl. Nórdica. 1984. Rio de Janeiro. RJ. SILVA, Carlos Edurardo Lins da. Mil Dias - Os Bastidores da Revolução num Grande Jornal. Trajetória Cultural. 1987. São Paulo. SP. SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Graal. 1977. São Paulo. SP. REVISTAS COSTA, Caio Túlio, O ombudsman no Brasil: primeiras impressões. Revista Brasileira de Comunicação. 1º Semestre de 1990. São Paulo. ERBES, Luiz Carlos. Ombudsman, a autocrítica do Jornalismo. In Revsita Sextante - UFRGS. Maio de 1991. Porto Alegre. 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