CLÁUDIO LIMA

APRESENTA O LIVRO «OS GARRANOS DA PENÍNSULA IBÉRICA»

DE LUÍS DANTAS

 

 

 

Falar das Feiras Novas implica reportarmo-nos a uma rica e variada gama de atracções populares, a toda uma contagiante animação, no que a palavra animação tem de mais genuíno significado: incutir alma, entusiasmo, vida às manifestações colectivas. Com efeito, as nossas festas atingem índices máximos de alegria partilhada, nos múltiplos aspectos em que se compõem: o religioso, o folclórico, o lúdico. Manifestação de fé, cultura popular, competição sadia, eis as principais perspectivas pelas quais as festas limianas podem ser vistas e desfrutadas.

No que concerne à competição, - aspecto que, de momento, nos ocupa - ocorre referir as touradas e as corridas de garranos, duas atracções bem tradicionais e concorridas da programação. Neste momento, em que se prepara a corrida de garranos na Alameda de S. João, com participantes e aficcionados em enorme tensão e expectativa, exprimimos ao Dr. Luís Dantas o apreço e a gratidão pelo estudo que dedicou a essa espécie equídea, oriunda das nossas montanhas, que dá pelo nome genérico de garrano.

Forte, decidido, pacífico, aliado generoso do homem nos trabalhos mais árduos e nas deslocações mais longas nos tempos pretéritos em que os cavalos eram de carne e músculo, alimentados a pastos e beberagens e não unidades de força debitadas por alimárias metálicas, movidas a petróleo, o garrano tem sido vítima de muitos preconceitos de purismo genético, relegado para o plano de subespécie desinteressante. Já em meados do séc. XIX, o especialista Silvestre Bernardo Lima o classificava como "vilaniagem hípica." E porquê? Porque a natureza e o habitat, não o descaracterizando profundamente, lhe negaram medidas e traços comuns às respectivas famílias originais, designadamente a marca, que é a altura convencionada para os cavalos de sela e tem como mínimo 1,48m, calculados desde a base dos cascos dianteiros até uma linha horizontal à cernelha, com o animal aprumado. Pormenores que, nesta circunstância, não importa esmiuçar. Atentemos só em mais um juízo extremamente depreciativo, expresso por Paula Nogueira no "Dicionário Universal da Vida Prática" (1889): "em Portugal os cavalos garranos, sendo baixos, não têm a fineza ou elegância de formas derivada da proporcional idade das linhas, antes são cavalos de cabeça e pescoço grossos, massudos e feios, semelhando anões disformes. (...) Têm pouco valor, por serem muito comuns, muito feios e de pouco préstimo. O exército não os aceita nas remontas e o estado não os admite como padreadores ou garanhões."

Com o livrinho "Os garranos da Península Ibérica", Luís Dantas lidou o tema com a sensibilidade e autoridade que a sua tríplice condição de limiano, poeta e historiador lhe conferem. Como limiano e poeta retém nos arquivos da memória o entusiasmo e o fascínio que, desde menino, lhe proporcionou o espectáculo dos cavalinhos demandando a Vila, batendo cascos no lajedo e resfolegando ruidosamente ou, já na Alameda, em upas de cortesia e chicoteando as moscas com a cauda. Uma maravilha, que só visto... E que aqui transparece subtilmente, por detrás da objectividade e do rigor documental do historiador conceituado, com provas sobejamente dadas, que Luís Dantas também é.

Muito sucintamente, sem prejudicar as expectativas que, estou certo, todos aqui nutrem pela sua leitura, direi que, pequeno em formato e paginação, nele o Autor consubstancia vasto e aturado saber sobre os equídeos, no seu trânsito dos tempos pré-históricos até aos nossos dias. Desde as pinturas rupestres e as incisões em rochas, como as nossas de Foz Coa, entre outras, em que a multiplicidade de desenhos e a subtileza dos traços nos permitem presumir ter sido o cavalo um animal de culto; desde os primórdios da sua domesticação e adestramento às lides agrícolas, à tracção e à carga, à participação em acções bélicas e venatórias, até às suas origens geográficas, as suas migrações e cruzamentos, as suas características morfológicas e temperamentais, em todos os aspectos a investigação de Luís Dantas demonstra inteira competência.

De marca pequena, mas de «têmpera rija» - assim define o garrano. Como todas as espécies zoológicas, também esta apresenta particularidades imputáveis ao meio em que vive. O garrano ibérico, que já foi prestimoso na Lusitânia de Viriato nos confrontos com as legiões romanas, é, com efeito, um cavalo de reduzido porte, locomovendo-se em «trote travadinho» (Eugénio de Castro Caldas), mas de inestimáveis préstimos aos povos da região. Por isso ele é amado por viajantes e agricultores, servindo a uns e outros nos rudes trabalhos ou nos pedregosos trilhos montanheses, quantas vezes cúmplice de contrabando fronteiriço, em tempos bem recentes. Faz parte da nossa cultura e dos nossos afectos. Como o demonstra o entusiasmo que se vive nesta Alameda, onde agora ele vai ser o rei do espectáculo.

Ler o livro de Luís Dantas é conhecer melhor o garrano.

E quanto melhor o conhecemos, mais crescerá a nossa estima por ele.

Cláudio Lima

Ponte de Lima, Feiras Novas de 2002

 

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