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Luís
Dantas |
Lavar
no rio foi uso antigo. O nosso rei trovador deixou esse quadro a bailar numa cantiga de amigo: "Levantou-se a bela; /rompe a alvorada; /vai lavar camisas/no rio:/lava-as de alvorada. //Vai lavar camisas; /rompe a alvorada; /o vento lhas desvia/no rio:/lava-as de alvorada. // Finas peças lava..." Mais
tarde é a vez das lendas, dos textos românticos, da pintura, da fotografia, da dança, do fado e do cinema registarem o folclore que rodeava o povo a lavar na água que corre. O rio foi o ganha-pão de muitas mulheres que lavavam para fora. O pouco que arrecadavam dava para o sabão, para a sopa, sardinhas, broa e vinho. Iam a casa das freguesas buscar a roupa, contavam bisbilhotices, inventariavam tudo com discernimento: "Três corpetes, um avental/Sete fronhas e um lençol/Seis camisas do enxoval/Qu'a freguesa deu ao rol". Essas
antigas lavadeiras tinham galhardia na arte de desencardir os trapos: cobertas, toalhas de mesa, guardanapos, calças, lenços, ceroulas, coletes, fatos, linhos ou rendas ficavam sempre com um aspecto impecável. Nada de nódoas ou sujidades, nada de puídos ou rasgões. Tudo isso à custa de muito esforço! Para quê contar os pormenores malfadados dessa vida de trabalheira? Elas sempre se foram acadimando ao sol do verão e à ventania do Inverno. Pior do que esse vento que soprava de todos os lados era a água gelada e os malditos unheiros. Mas cogitassem lá o que cogitassem, era tão raro vislumbrar um ar carrancudo, um queixume, um lamento. Só de vez em quando é que resmungavam contra os dias de chuva ou doença de languescer em casa. Vi
ainda muitas dessas moças, enroupadas nas suas saias de chita meio arrepanhadas, com as trouxas de roupa à cabeça, os caixotes de lavar afincados aos quadris, numa esteira de aromas voluptuosos. Atravessavam as ruas da vila como lavandiscas. A vizinhança via uma ou outra a passar, quase sempre descalça, e perguntava só por perguntar: -
"Aonde vais, Inês?" -
"Vou aproveitar este bocanho!" Vejam
só a sapiência contida na resposta! E consoante a cara do tempo iam bamboleando ligeiras ou vagarosas em direcção ao areal. Aí os cenários desdobravam-se em sinfonias de cores, de sons, de espumas e de fragrâncias. As lavadeiras ficavam de joelhos e alinhavam-se em grupos bairristas, pândegos, festivos, tagarelas e mexeriqueiros ao longo das extensas margens do Lima. Conversavam. Coscuvilhavam. Segredavam. Riam e cantavam ao despique umas com as outras ou todas em coro desaustinado: "Água leva o regadinho, água leva o regador/Enquanto rega e não rega, vou falar ao meu amor/Água leva o regadinho, água leva e vai regar/Enquanto rega e não rega, ao meu amor vou falar." A música saía da aragem, das folhas dos salgueiros, do rumor da água ou do chilrear de um pássaro e os corpos ondulavam ao ritmo daquela roda-viva: molhar a roupa, jogar na barrela ou ensaboar, esfregar, chapinhar, torcer, bater, enxaguar. Depois deixavam a roupa lavada dependurada no varal para secar ao sol ou ao vento. Era então que a paisagem limiana resplandecia de cores e de assombro. | |