Breves palavras

Houve um tempo em que eu, de fato, estava interessada em arte, a arte enquanto manifestadora da beleza. Apesar da formação considerada essencialmente técnica, havia uma espécie de julgamento quanto aos profissionais de Desenho Industrial, como profissão pós-moderna. Ledo engano?! Pelo menos 1/3 do curso foi atribuido ao estudo da arte. Depois o estudo da técnica e, por ultimo, da tecnologia. No início do curso, estudamos introduções à Sociologia e à Filosofia. Lembro-me que o professor de filosofia tentava nos explicar a Estética do Belo. Na época, soou muito estranho, mas foi muito interessante. Eu mesma não sabia que seguiria o pensamento filosófico. Anos depois isso foi estimulado. Creio que essa é uma das minhas poucas certezas. Hoje sou muito grata por tê-la descoberto.

Reconheço que pensar não é nada fácil. A história da filosofia é densa. São diversos autores que tratam de diversos temas e problemas. Certamente fazer filosofia ou pensar requer uma atitude própria dessa área. Contudo, muito mais assustador que a "Odisséia" filosófica são as inúmeras críticas a ela. Fora as perseguições e críticas pejorativas quanto ao livre exercício do pensar. Vale lembrar que história da filosofia não é o mesmo que história. Trata-se antes do estudo do pensamento, o que difere do próprio fato ou acontecimento. Por isso, não se deve tratar a filosofia como uma ciência, exatamente porque ela não é uma ciência. Acho que aprendi isso com alguns filósofos.

Tolos os pragmáticos, tecnicistas e mecanicistas "puros"! O apêgo ao mediato lhes fazem seres de baixa visão. Digo a visão da criação de objetos dissociada da visão de um todo invisível aos seus olhos ou aos sentidos.

A imaginação criadora é comum a três instâncias: a ciência, a arte e a filosofia. Imaginemos que a combinação das relações entre elas possa gerar um infinito leque de possibilidades. Certamente a palavra possibilidade gera uma certa insegurança ao cientista. Diante da expectativa de resolver um problema uma infinidade de variáveis. Isso é muito difícil. Mas, e se essas variáveis fossem pensadas e reordenadas? Isso não faz parte da imaginação criadora? É claro que sim. Sem dúvida a incerteza coloca-nos no "paredão" de dificuldades para estabelecer o que é certo e o que é errado. Assim nos foi ensinado. Mas se em momento algum eu me agarro ao ideal de chegada aos princípios e, ao invés de olhar para cima, percebo que as possibilidades "vivem" ao meu redor, o que me faz mais ou menos cientista, artista ou filósofo? Nada. Eu apenas não me enquadro numa ditadura do conhecimento que coibiu qualquer tipo de expressão inteligível ou sensível. Então, nada me amedronta a ponto de fazer-me abandonar o meu verdadeiro caminho. Hoje, o de pensar a contemporaneidade.

Das formas de sustentabilidade do velho autoritarismo

Existem fatores impressionantes que coibem o desenvolvimento de formas de pensamento. Dentre eles, o apêgo das academias e universidades a uma estrutura metódica em qualquer linha de pensamento. Mas isto não é tão grave como o racismo e a discriminação. A burguesia, a qual compõe praticamente sozinha o mais alto escalão do dito "conhecimento acadêmico" preocupa-se muito mais no seu autosustento e na sua posição social cada vez mais mediculosa do que em realmente descobrir coisas novas. Para tanto, vale, como sempre, estrangular, coibir, vigiar e prostituir candidatos e falsos pretendentes com o objetivo de ir "renovando" a sua própria estrutura. Assustador é ver tais elementos darem o mesmo sentido tão conhecido, o da escravidão contemporânea e ver que boa parte desse elementos ainda é constituida por pessoas de etnia negra. Mas vale lembrar que da mesma forma que existe uma sociedade que aliena, há também uma outra sociedade que gosta da alienação e embora essa última seja composta por pessoas novas, essas nada mais fazem do que re-estruturar o velho. O ambiente que trabalho é um exemplo disso. Existe um elemento, com nome de santo que julga traduzir a história com ar socrático, mas na verdade aliena os jovens, os quais estão re-escrevendo suas normas de conduta, aprendendo a cartilha da subalternidade e da alienação tal como cordeiros conduzidos e encurralados pelos "pastores". Dá um conselho aqui, outro ali, mostra-se muito preocupado com a sua vida pessoal, um presentinho sensual (cd pornográfico, carros, mulheres, futebol e cachaça), o antigo "pão e circo". É bem católico isso, não?! Nada de novo, só pura repetição. Foi um panorama similar a esse que me levou a escrever o texto (n)mitos: reiterações inadequadas. Ele não foi apresentado em nenhum evento, porque não foi concluído. Fruto de uma atividade da disciplina Educação, Conhecimento e Imaginário. E, ao meu ver, desenvolver esse assunto seria tratar de algo sem retorno satisfatório. Elementos como esse "santo católico pastor de ovelhas" são meras repetições. Esse perfil não se enquadra nos meus objetivos. Fica apenas o breve registro.

Voltando à Filosofia...

Eu disse um pouco mais acima que não me afastaria do exercício do pensar a contemporaneidade. É claro, ficou muito amplo. Pensar o que dentro do contexto contemporâneo? Lá nos primórdios do meu contato com a relação homem-máquina, digo ainda no curso de Desenho Industrial, fiquei espantada com a tendência da época pela cultura materialista, a qual eu também pertencia. Era como se estivesse no próprio sistema de objetos, sem perspectiva de questioná-lo. Daí, fui percebendo que a minha área de conhecimento era praticamente subjulgada pelas áreas tradicionais e essa perepção aconteceu quando nas diversas tentativas de Mestrado e até nas participações como aluna especial ou como aluna ouvinte, havia preferência para alunos dos cursos tradicionais e sempre o comentário de que o Desenho Industrial ou Design era apenas um fruto da apelidada "pós-modernidade". Então surgia sempre aquela questão: Por que a Academia ou a Universidade nunca se olha no espelho? Quem escraviza? Um Arquiteto, Engenheiro, Médico, Sociólogo, etc., capitalista neo-liberal ou um modesto Desenhista Industrial? Daí percebi que a intensidade do pensar não deve ser uma particularidade burguesa, menos ainda acadêmica. Não deve ser de cima para baixo. Por que? Simplesmente porque a menor estrutura e mais importante composição do mundo ainda é o átomo ou suas partículas, suas manifestações de vida. Se a Academia quiser descobrir algo NOVO terá que valorizar o mínimo de seus componentes. O mínimo, invisível, não-palpável. Algo em torno do que definimos como Física Quântica. Simplesmente por uma questão de proximidade. Eis que o invisível não é dominável, portanto de pouco interesse de quem deseja dominar. Várias hermenêuticas não dependem da ciência, muito menos são subordinadas a ela como espécie de validação. Novamente a predominância do pensar.

Na verdade não fiz o curso específico à habilitação (Programação Visual-PV ou Projeto de Produto-PP). Pertenci a última turma de um curso "integrado" que exigia escolha da habilitação nos últimos semestres. Creio que fomos favorecidos pela "não-especialização". Isso justifica algumas das minhas breves "intervenções" na produção do produto(considero os objetos em realidade virtual como atividade produtiva, projetual), o que não quer dizer que a domino. Quer dizer que no caso da atividade projetiva, poderemos desenvolver uma atitude interdisciplinar/transdisciplinar. É claro dependerá de um grupo tanto eficaz quanto eficiente. Ainda no curso de Desenho Industrial havia uma definição clássica dessa área como atividade projetual que tinha como objetivo atender às necessidades humanas. Lembro-me de um determinado professor de história do desenho industrial esforçar-se em fazer-nos perceber o nascimento do "produto" ou da "arte gráfica" já noperíodo da pedra lascada. Daí o desenho insdustral fazer parte da história. Não como produção em série, mas lá no início simplesmente como uma manifestação produtiva. Seja esculpindo um objeto técnico com o objetivo de cortar alguma coisa, seja desenhando nas paredes das cavernas. Não é objeto desse texto re-escrever a História do Desenho Industrial. Se necessário, apenas invocá-la.

Antes de construir um objeto real concreto, um artefato qualquer material ou "imaterial" certamente o sujeito infere sobre a percepção de algo que lhe foi estimulado. Digamos que essa inferência já constitua o processo de conhecer o objeto, ora imaginado, ora em alguns casos abstraído.

Luciene Bulhões Mattos 17.08.2006

Poucos trabalhos escritos sobre o tema:

Trabalhos em eventos (Completo)

BULHÕES MATTOS, L. Transmutações do objeto em realidade virtual. In: 5º Encontro Regional de Expressão Gráfica-EREG, 2006, Salvador-Bahia.

BULHÕES MATTOS, L. [on](me)on]Y ALETHÉIA, em busca de um conceito de existência nas tensões das relações homem-máquina, corpo-tecnologia. In: VII SEMOC, 2004, Salvador. VII SEMOC - Reforma Universitária, 2004.

BULHÕES MATTOS, L. (n)mitos: reiterações inadequadas. Texto apresentado na disciplina Educação, Conhecimento e Imaginário, Universidade Federal da Bahia, 2003. Regentes: Profª Drª Maria Inez Carvalho e Prof Luis Felipe Perret Serpa (in memoriam).

BULHÕES MATTOS, L. A relação homem-máquina, corpo-tecnologia em realidade virtual. In: VI SEMOC - Semana de Mobilização Científica da Ucsal, 2003, Salvador-Bahia. VI SEMOC, 2003.

BULHÕES MATTOS, L. Por uma autopoiésis, gênese de um novo ser. In: XVI EPENN-Encontro de Pesquisa Educacional do Norte-Nordeste, 2003, Salvador. ANAIS EPENN 2003. Aracaju : Editora da Universidade Federal de Sergipe, 2003.

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Os quatro últimos foram resultados de anotações de sala de aula, leituras de livros citados, quando cursei algumas disciplinas das áreas de Educação e de Filosofia como aluna especial e/ou ouvinte. O mais recente, "Transmutações do objeto em realidade virtual" foi uma intuição, uma dúvida, talvez mais um desejo, quando da leitura de alguns textos de Gilles Deleuze. Certamente, melhorei minha leitura e meu desempenho na escrita.

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