Posso me ver caminhando no deserto. Não sei para onde vou. Só no que penso é andar, andar, andar... E de onde eu vim? Vejo uma pequena cidade na direção oposta à que estou indo. Sim, vim de lá.

Lá vejo tendas e algumas pequenas casas brancas, as ruas cheias de pessoas e animais, uma grande confusão. Mulheres de véu, tendas com listras, pessoas carregando tapetes, barracas para vender coisas, muitos tecidos. Estou andando no meio daquele povo todo. Sou um homem alto, cabeça coberta por um turbante à moda árabe, esvoaçando enquanto caminho apressadamente no meio da multidão, abrindo meu caminho por entre as pessoas, afastando-as para que eu possa andar a passos largos e decididos. Estou alheio ao povaréu. As vozes na minha cabeça aumentam.

Que faço ali? Procuro alguém: uma mulher. No começo, tento descobrir o que quero dela, ou se vou encontrá-la no meio da multidão. Estou aflito, ansioso. É uma questão de amor. Uma palavra atravessa-me a mente num grito: traição. Foi o que me disseram. E vejo a imagem mental de um punho segurando fortemente uma adaga (na verdade, é um alfanje).

Será que quem me falou da traição era digno de confiança Não queria acreditar num outro homem com a mulher que eu amava. E não acreditava. Mas a angústia, oh, a angústia do orgulho ferido me fazia ir em frente, incapaz sequer de respirar, mente obcecada em encontrá-la. Tinha de vê-la, e naquele momento.

Por um momento, apercebo-me da multidão, e parece que todos me olham. Uma sucessão de rostos desconhecidos aparecem diante de mim, os olhares me angustiam. Pergunto-me me sabem da traição, se os seus eloqüentes e mudos olhos me acusam ou se zombam de mim. Vejo minha adaga embainhada na cintura, e minhas mãos sobre ela - prontas para um golpe fulminante a qualquer momento. Ainda não sei se quero desembainhar aquele punhal, ou se farei isso porque é o que esperariam que eu fizesse se soubessem.

Chego à casa dela. Sou barrado na porta por seu pai, um homem bem mais baixo do que eu, gordo e claro, roupas listradas, que tenta contemporizar. Não consigo entender sua língua: parece ser composta de apenas uma vogal (a) e de inúmeros sons guturais que ele emite numa velocidade impressionante, sempre gesticulando muito. Ele procura me impedir de entrar, mas eu não estava disposto a ser detido. Empurro-o para o lado e invado a casa.

Ela está em seu quarto - um cubículo separado apenas por cortinas penduradas. Posso ver que está assustada, pois provavelmente ouviu a gritaria do pai assim que cheguei. Procura manter-se afastada de mim. Mas quando eu a vejo, eu me desmancho. Toda a agressividade se transforma em ansiedade ao vê-la tão trêmula. Como ela é suave e doce...

Ainda que traga o rosto coberto pelo véu que só me deixa ver os grandes olhos amendoados, sei que ela teme minha reação. Eu lhe digo que não tenha medo, pois jamais encostaria um dedo nela. Eu a amo e só o que eu quero é que ela me ame.

Trago a certeza de que nosso casamento (ainda não concretizado) foi arranjado com o pai, a quem eu paguei o dote. Sei também que ele ficou muito satisfeito com o negócio, e torce para que a filha não o estrague. São pobres e eu paguei uma soma considerável. Acho até que vendi meu camelo para ter o dinheiro do dote.

Eu me ajoelho. Digo a ela que eu a amo, e ela se angustia. Afirmo que não quero mais nenhuma outra esposa - só ela. Penso que é a maior prova de amor que uma mulher pode querer numa sociedade que aceita a poligamia. Só o que eu quero é que ela me ame.

Cada vez mais aflita, ela me diz que não me ama. Diz que nunca daria certo, e me pede que entenda e aceite isso. Meu orgulho está mortalmente ferido. Ela é minha! Eu mato qualquer um que ousar se aproximar dela! Eu paguei por isso. Mas a dor da rejeição me deixa incapaz de reagir.

Estou andando no deserto com o sol a pino, andando, andando, andando...Nem meu camelo eu tenho. Não tenho mais nada, não sou mais nada. Sem ela, eu não sou nada. Estou desesperado, derrotado demais para pensar em qualquer coisa que não seja andar para longe dela, para longe do meu sofrimento insuportável. Peço ao Profeta para me guiar, peço a Alá que me ilumine. Caminho sem forças para sustentar minha dor, meus pés se arrastam, minhas botas de cano alto fazem marcas na areia.

Estou deitado no chão do deserto, e vejo toda minha vida se tornar inútil e desprovida de sentido. Eu vim de tão longe, passei por tanta coisa... Todas aquelas batalhas, a visão do sangue, de cavalos que manejava tão bem, de tantos inimigos de Alá derrotados por minhas mãos e por meu alfanje - mas sempre tão sozinho, tão sozinho... Um aventureiro obstinado, viajante e guerreiro tido por muitos como um homem violento e temível. E de que adianta tudo aquilo, se ela não me ama? Jamais seria violento com ela. Eu só queria que ela me amasse. como tempo, ela aprenderia a me amar. Mas era tarde. E eu estava tão só...

O sol parece crescer nos meus olhos, como se estivesse se aproximando. Logo deixo o meu corpo, e subo rumo ao sol que parecia tão perto. Dois guerreiros de Alá me conduzem, em roupas ricas de bordados, seus turbantes ostentam penas vermelhas eretas.

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