Esta é uma memória espontânea, obtida durante um estado de consciência alterada, portanto o formato pode parecer um pouco diferente dos relatos anteriores
Sou um chefe de tribo numa região da Ásia Central, mais especificamente, o leste do Cazaquistão ou do Quirguistão, bem perto da Mongólia. Não sei localizar a época exata*, pois a paisagem dessa região pouco mudou em dezenas de séculos. O deserto de verões escaldantes e invernos congelantes é a tônica. Se viajarmos sul, temos inimigos ferozes, os orgulhosos dari ou pashtun., Para cima, um inimigo ainda mais implacável: a tundra, que não piedade de ninguém.
Como todos os chefes de tribo, visto-me basicamente de peles e couro, incluindo o meu chapéu pontudo. Minha barba é fina, meu olhos puxados, mas não tanto quanto os vizinhos ao leste, os belicosos mongóis. Nossa tribo não é (muito) guerreira e temos vivido em relativa paz com as tribos de menor porte ao nosso redor, apenas defendo-nos quando somos a chamados a tal..
Uma das minhas paixões são meus falcões. Eles são muito populares naquela região, treinados para reconhecerem e localizarem seu dono. Eles voam muitas montanhas de distância, alimentam-se de cobras e voltam direto para o meu braço, protegido contra suas garras mortais. Tenho muito carinho por minhas aves.
É uma sensação indescritível vê-los cortando o ar como se fosse gordura de cabra, ou a graça de vê-los planando sobre a presa. Eles costumam brincar com o animal de vão comer depois de imobilizá-lo entre as garras. Corujas não são capazes de fazer isso. Mas águias e falcões são especiais. Só que águias não são fiéis. Falcões ficam com seu dono por uma vida inteira. Nada se compara à visão de um falcão planando no céu, tentando localizar sua presa, seu grito potente capaz de estremecer as pequenas criaturas lá embaixo. São aves fascinantes. Passo horas com elas.
Fiz uma oferta a um rei chinês que queria passar pelas terras da minha tribo e ele aceitou: dei-lhe uma das minhas filhas mais jovens por dois de seus falcões ainda não treinados. Foi uma alegria treinar os falcãozinhos. Hoje eles trabalham em duplas, e atacam animais maiores. E consegui treiná-los para arrancar olhos de meus inimigos nas frentes de batalha. Nunca ouvi falar de um falcoeiro que tivesse conseguido isso. Isso será muito útil.
Dedico-me a administrar a tribo, resolvendo importantes disputas por água e terras, e mantendo meus ministros em paz com o Conselho de Anciãos, que me ajuda a governar. Nosso sistema de governo é avançado, outras tribos dizem que eu sou um fraco por dividir o poder. Dizem que eu deveria matar os anciões por serem velhos demais e dar o mesmo tratamento a ministro problemático, e rodear-me de guerreiro para poder subjugar as tribos mais fracas e crescer em poder para poder enfrentar a ameaça que surgia no horizonte - um importante líder mongol.
Enquanto eu me dedicava aos meus falcões, a ameaça crescia. O líder mongol já congregava sob sua bandeira diversas tribos que não eram de sua etnia e avançava rumo à China. Seríamos os próximos, por tínhamos o Lago Balhas, caminho para o Mar de Aral, território uzbeque. Mas eu contava em um tratado de paz, com a garantia de passagem livre para o líder mongol.
Como esperado, logo seus enviados vieram. Dois generais. Encontrei-me com eles com dois generais e um dos Anciãos do Conselho na tenda comunitária, onde eu tinha as audiências com meu povo. Infelizmente, apesar da nossa hospitalidade, os generais tinham um recado de seu líder: ele não só queria passagem. Ele queria as nossas terras e o nosso povo. Ele estava expandindo a Mongólia, tomando posição contra o imperador chinês. Seus planos eram de conquista, não atravessar até as tribos uzbeques. Ele faria isso, claro, quando tivesse anexado nossos guerreiros às suas hostes e quando em nossa tribo tremulasse sua bandeira. Os generais mostraram um mapa de todas as conquistas de seu líder e deixaram claro, sem margem para dúvida, que se resistíssemos, seríamos aniquilados, nossa tribo saqueada, nossas mulheres estupradas.
Respondemos que iríamos pensar e que eles voltassem em duas luas para a resposta.
A reunião do Conselho dos Anciãos com os generais é agitada aquela noite. Muitos clamavam por guerra, mas o ancião que esteve à reunião desenho no chão da tenda comunitária desenhou o território já conquistado pelo mongol. Ele anexara às suas hordas uma grande parte da China e do Casaquistão. Estava às nossas portas, o que indicava que o ataque estava próximo.
Relatos de tribos chinesas e até de tropas imperiais vindas de Xian que resistiram ao ataque foram simplesmente dizimado. O exército do mongol é contado aos milhares de soldados, alguns como espólio de guerra, mas dizia-se que todos tinham se convertido à causa dele: formar um império unido contra o poderio dos imperadores chineses: uma nova dinastia. Um homem só lidera milhares de pessoas numa missão tão grande e parecia que ele ia conseguir. Seu nome é Temujin.
A lua é cheia, e ao longe vêem-se as tochas de milhares de cavalos se aproximando de nossa aldeia. É uma fila que parece não ter fim na escuridão. Nossa decisão não está tomada. Os generais me pressionam por uma palavra, diziam que ainda há tempo de posicionar arqueiros no topo de torres. Mas eu, um fraco chefe de tribo, capitulo. Assim que digo isso, temo que meu próprio povo vá me matar ali mesmo e levar minha tribo à ruína nas mãos dos guerreiros mongóis em busca de liberdade.
Temujin aproxima-se de mim, que estava à frente de meus generais, ao lado da fogueira. "Você é o chefe?"
"Sim. Você é Temujin?"
"É como me chamam. Mas vou mudar de nome. Não serve a um imperador. Meus súditos me chamam de um outro nome. Você vai se tornar meu súdito ou prefere morrer lentamente enquanto toda sua gente será lentamente morta por meus homens?"
Em voz firme, como cabe a um chefe, respondo em voz alta, "Eu lhe ofereço minha aliança, meu senhor. E minha aldeia para servi-lo."
A resposta agrada ao chefe mongol. Ele sorri, as barbas finas se mexendo. "Tomou a decisão certa, amigo." Ele desmonta do cavalo. "Quero você como um de meus tenentes na frente de batalha."
"Se me permite senhor, para selar nossa aliança, tenho uma humilde oferta."
"É mesmo?"
"Tenho meia dúzia de falcões treinados, senhor. Dois deles são capazes de arrancar os olhos de um homem. Podem lhe ser muito útil até mesmo em batalha. Velozes, robustos e extremamente confiáveis. Agora são seus."
Temujin sorri e coloca sua mão no meu ombro. "É muito generoso, meu bom homem. Agradeço e aceito seus falcões. Agora deixe-me tomar conta de minha nova aldeia."
Ele se retira, mas volta-se para mim. Ele é homem envolvente, um líder como jamais fui. Seus olhos são firmes mais ao mesmo tempo suaves ao me dizer. "Gostei de você, tenente. Você ganhou o direito de me chamar de rei. Daqui por diante, pode me chamar de Genghis Khan."
Aquilo é uma honra e seu disso. Só gostaria de saber por quê exatamente.
Só o que eu consigo sentir é uma grande dor no coração, observando um rapazola (um menino!) ir ao viveiro de minhas queridas aves e prepará-los para a viagem. Aqueles falcões são como meus filhos, e embora eu seja um homem com três herdeiros, confesso que os seis têm um lugar especial no coração.
Talvez meu senhor Genghis Khan me deixe cuidar deles daqui por diante. Afinal, acho que eles dificilmente se acostumarão com outra pessoa lidando com ele.
Com um pouco de esperança no coração, mas uma tristeza enorme, a imagem desaparece, e eu (Ludmila), estou banhada em lágrimas de saudades por meus falcões.
*mas eu (Ludmila) suponho que finalmente uma pesquisa histórica poderá me dar uma pista de uma das pessoas que eu fui. Isso nunca aconteceu comigo. Seria uma primeira vez e eu estou excitada sobre isso. Talvez eu tenha que atualizar esse arquivo. Portanto, não deixe de conferir!