Voltei para casa : é a saudade de um lugar - lar - quente e mais azul do que a própria música. Um lar aqüoso, que me abraça e me cerca. A emoção de estar em casa se intensifica quando um ser levemente humanóide me recebe calorosamente em seu braços liqüefeitos. Sua voz grave, mas doce e benfazeja, soa diretamente nos meus ouvidos: "Bem-vinda de volta, criança. Você está em casa novamente".

Há outros mais adiante, atrás dele, que não querem chegar mais perto. Minhas lágrimas se fundem n'água, e sem palavras, digo: "Já faz tanto tempo..." Fico imaginando se ele é pai ou Mestre. Naquele exato momento, não sei. Ele é a autoridade do lugar, mas não o vejo perto de mim o tempo todo. Logo, ele é Mestre.

Lembrei-me do tempo em que era ainda mais criança, e lhe falei que queria ver o que havia além daquele lugar, conhecer outros povos. Em sua mente havia censura e desaprovação, mas jamais proibição. Avisou-me que seria difícil, talvez perigoso, mas eu era livre para ir - da mesma maneira que tive a liberdade de voltar.

Quando cheguei, queria lhe falar das coisas que vi - a maioria me desagradou. O Povo de Cima era tão estranho, fisicamente. Eles não sabiam viver na água, e às vezes morriam por causa dela (!). Tinha certeza de que sequer sabiam da nossa existência. Não eram maus, mas eu tampouco podia afirmar que tinha sido bem-tratada, embora não pudesse exemplificar como. Pareceu-me que eram mais crianças que eu.

Sou instruída a perguntar a ele se posso ficar ali. A princípio, achei a pergunta desnecessária, ao ser recebida com tanto carinho pelo Mestre, mas fiz assim mesmo. As emanações dele não mudaram, tampouco a suavidade e a ternura, ao me dizer que eu já não era a mesma pessoa que saíra, e que jamais poderia ser totalmente igual. Deixou claro que eu poderia ficar se quisesse, mas não seria mais a mesma coisa de antes. Silenciosamente, a massa de criaturas atrás dele concordou mentalmente, alguns transmitindo a preocupação de que eu fosse contaminar o resto do Povo, outros até indignados com a mera possibilidade de que eu pudesse realmente voltar.

Foi uma resposta que eu jamais esperaria, e não imaginei que doesse tanto. Vi que eu não era mais totalmente azulada como eles. Trazia uma listra fina e preta vertical no meu corpo liqüefeito - eu estava '"oxidada". Era uma marca da qual eu jamais livraria, e sabia que todo o Povo iria me apontar na rua, a marca a revelar que eu era a diferente do grupo.

Senti a rejeição bater implacavelmente, e não podia acreditar que aquilo partia da minha própria gente. Minha mente gritou, de puro pavor: "Por favor, não me exile de novo!". Tudo voltou, como um pesadelo recorrente: a sensação de abandono, o total belongnessless - não pertencer a lugar algum, ser um alienígena em qualquer lugar, não importa qual; o exílio agora seria eterno, e eu, nada além de uma proscrita, banida por seus iguais e rejeitada por dois mundos.

O Mestre disse que a escolha entre ficar e ir era minha. Só que eu não tinha a menor idéia da decisão a tomar. Ficar poderia ser ainda mais dolorido do que ir. Afinal, era o meu mundo e o meu povo me rejeitando. Ao menos eu pensava que pertencia àquele lugar. E ir... para onde? Isso nem o Mestre soube dizer. E ele estava pesaroso. Como no dia em que eu parti.

Pedi ao Mestre para nos colocar na fonte de luz daquele lugar. Ela nos daria a solução para o impasse. Eu já vira a fonte de luz: um sol amarelo desmaiado que ficava além das montanhas, flutuando num imenso mar de ar. Fomos iluminados, e parei de ouvir as vozes dos outros do povo em minha mente, claramente pedindo que eu saísse dali e não contaminasse mais ninguém. A luz amainou a dor - minha e do Mestre.

A resposta veio, afinal, sem que eu soubesse quem a apontou: eu deveria voltar para cima. No mar de ar estava o meu destino. Minha etapa na água estava completa. O Mestre me desejou boa sorte e eu me impulsionei para cima, a tempo de não ver as bolhas causadas pelos suspiros de alívio dos outros. Não posso dizer que a partida foi totalmente indolor.

O ar queimou em meus pulmões quando minha cabeça atingiu a superfície da água. Meus braços erguidos foram capturados por uma águia solitária, que me elevou para o topo plano e redondo de uma montanha alta. O sol pálido estava lá, pendurado, e ajudando a secar meu corpo. A águia voava em círculos, acima de mim. Eu estava de volta àquele mundo, sem ter idéia de por que ou o que deveria fazer.

Devia haver um Mestre do Ar ali, como havia um Mestre da Água. Pedi à fonte de luz que me mostrasse onde estava o Mestre. Um cone de luz amarelo-alaranjada cobriu o pequeno platô onde eu estava. Logo vi que não estava só. A águia pousou suavemente no meu cone de luz, transmutando num homem, ou antes, num humanóide. Ele era o meu Mestre, como eu intuíra antes.

Explicou-me que eu tinha uma espécie de missão no Mundo do Ar. Eu tinha que ajudar o Povo de Cima e o da Água a se comunicarem. Os de Cima não conheciam os da Água, nem podiam viver na água; eu sim. E os da Água desconfiavam dos de Cima, e sequer podiam subir para o ar; eu sim. Afinal, eu não era nem de Cima nem da Água, mais mestiça do que outra coisa.

"Sim", pensei. Havia muito preconceito contra os que se "oxidavam" e também contra a destruição das águas. O Mestre voltou a ser águia e voou acima de mim, sem quebrar o elo de comunicação entre nossas mentes. Olhei o horizonte, e pensei como era vasto, como havia coisas ainda a serem feitas. E não havia limites. Satisfeita, puxei mais ar para os meus pulmões aguelrados. Doeu. Eu teria que me acostumar àquilo.

Perguntei ao Mestre do Ar se ele iria ficar comigo. A resposta dele foi não, como eu esperava. Mas eu estaria sempre com ele, na parte de trás da minha mente. Nós nos comunicaríamos sempre que quiséssemos, sempre que necessário, como eu fazia com o Mestre da Água enquanto estava no Mundo de Ar - embora ele não fosse meu mestre particular. Eu tinha um canal direto de comunicação com o Mestre do Ar.

Mas primeiro eu precisava aprender a voar. Afinal, eu precisava sair daquela montanha.

O Mestre e eu compartilhamos um campo de energia branco translúcido, vindo do sol pálido. Embora ele tivesse voltado à forma humanóide, eu sentia que a águia continuava a circundar, voando livre acima de nós. Minha curiosidade fez palavras de física teórica sobre o continuum espaço-tempo passaram em velocidade da luz à minha frente, como táquions apressados, esvanecendo-se.

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