Com alguma dificuldade, vejo que me expulsam do lugar onde moro. Vejo que estão irritados comigo, pessoas muito grandes, muito ocupadas. Eles se irritam toda vez que eu me aproximo pedindo carinho, atenção. Dizem que eu sou muito chato, que eu os aborreço. Sou um menino de uns seis anos, talvez menos. E então me expulsam dali. Fico muito triste, sentindo-me só.
Mal ando um pouco, apenas o suficiente para deixá-los para trás, eu tento saber o que fazer em seguida. Não consigo descobrir. Então eu me sento no chão. Espero que alguma pessoa passe por ali, alguém que cuide de mim, me diga o fazer. Mas não aparece ninguém. Fico me sentindo triste e sozinho.
Me dizem para ir a um outro lugar. Este também tem muitas pessoas, mas essas não são tão altas quanto as outras. Também pareço ter esticado, minhas pernas estão bem compridas.
As pessoas estão correndo, ocupadas, e não reparam em mim. Se eu não chatear ninguém, se eu ficar bem quietinho, então talvez essas não me expulsem dali.
Tento falar com as pessoas, mas elas não me escutam. Então ouço alguém me chamar. É uma moça bonita, de cabelos compridos e pretos, toda enfeitada. Está na soleira de uma porta ou de uma janela. Ela está sorrindo para mim de um jeito estranho e diz que gosta de mim, que eu devo chegar mais perto. Fico com medo dela. Sei que ela está mentindo e quer me devorar. Ela fica me chamando, e eu fico com ainda mais medo dela. Finalmente fujo dela.
Fico andando no meio das pessoas, que continuam passando por mim como se não me vissem. Talvez não me vejam mesmo. Fico imaginando que era assim que seria se eu fosse um fantasma e estivesse no meio de gente viva. Então aquela moça talvez também fosse fantasma, para poder me ver. Mas eu não pareço diferente de ninguém. Estranho.
Sinto, de repente, que meu lugar não é ali. É um conhecimento que vem de repente, enquanto olho para as pessoas que olham através de mim, como seu eu não estivesse ali.
Devo ir para o meu lugar. Em princípio, não sei que lugar é esse, mas logo me vejo no meio dele. Eu o reconheço de uma vivência passada. É um salão monumental, deve ter uns 10 metros de altura, bem amplo por dentro, de cor prateada e branca, parecendo ser todo feito de vidros, cristais e espelhos. Fico olhando aquele lugar lindo, maravilhado e abismado.
Um ancião vestido de branco e de barba longa vem me saudar com um sorriso suave. Diz que eu sou bem-vindo ali, ao meu lugar. Eu começo a chorar, uma espécie de dor imensa cresce no meu coração, pois acho que eu não mereço. Dor ou saudade, talvez saudade da dor...