Sinto que desejaria jamais ter nascido. Isso provoca um nó que vai da garganta até o estômago. Vejo-me fechada num espaço, sendo arrastada por meus pulsos. Resisto. Não quero ir. Quero ficar naquele lugar tranqüilo e pacífico. Continuo lutando, tentando me manter lá dentro com minhas pernas.

De repente divido-me em duas. Uma parte fica lá dentro e a outra sai arrastada. Fico confusa por um tempo, tentando perceber quem eu sou. Devo me concentrar na parte que sai.

Tenho medo. Encontro-me cercada por gente. Não são muitas, mas me deixam desconfortável, aproximando-se rapidamente para me saudar. Dou alguns passos para trás, mas logo minhas costas encontram a parte externa do espaço fechado onde estava. O outro eu assiste a tudo, petrificado. E as pessoas me alcançam, tocando em mim e me cercando. Meu medo aumenta.

Imploro a eles que parem, que tirem suas mãos de mim, mas eles nem se importam com o que digo. Dizem para eu não ser tímida, para não me preocupar. Aí é que o meu medo aumenta, e desejo estar muito longe delas. Tenho nojo do seu toque. Sinto que não são sinceras e podem me fazer mal.

Consigo escapar do cerco. Vejo-me só e posso sentir que um longo tempo se passou. Sinto-me muito sozinha e abandonada. Estou no topo de uma montanha, num deserto muito estranho. Estou olhando um pôr-do-sol dourado e laranja, que reflete nas areias e quase cega meus olhos. Sinto saudade de minha casa, de meu povo. Sinto que, para mim, estão perdidos para sempre. Sugerem-me que eu posso vê-los de novo.

E dois deles aparecem, usando formas humanóides, grandes e brilhantes, imensas asas com plumas graciosas, descendo para mim. São tão luminosos que o sol parece empalidecer à sua chegada.

Imploro a eles que levem para casa, ainda que saiba que não posso mais ir, pois não sou mais a mesma. Sem me responder, apenas me dão sua carga de amor, um brilho que emana de todo o seu ser. Mas a saudade de casa é muito grande, e peço de novo para voltar para casa.

Ao longe, ouço os gritos do meu outro eu, meu irmão. Ele está apavorado de ser abandonado neste lugar. Não posso deixá-lo aqui. Seus gritos de desespero me doem profundamente.

Eles devem ir agora. Resisto ferozmente. Quero ir com eles, não quero ser abandonada mais uma vez. Meu irmão fica ainda mais angustiado. Fico em grande dor. Não vou abandonar meu irmão. Transmito-lhe meu amor, retransmitindo o amor deles.

Só com a orientação deixo os dois irem, flutuando graciosamente para o céu. Quando eles somem, vou ao meu irmão. Atravesso a parede transparente e abraço-o carinhosamente, enchendo-o de amor. Ele parece ainda tão assustado como um bichinho engaiolado e eu tento confortá-lo, enviando-lhe confiança e amor. Apenas depois que ele se acalma posso me reunir a ele, ainda abraçados. Nós nos tornamos um.

Tento manter comigo todo o amor que me foi dado e minha mente vagueia por tempo. Parece andar pelos domínios de sonho. Fica apenas a dor de meu lar perdido, de ficar nesse lugar estranho.

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