Começo experimentando medo na rua. Estou andando e tenho medo das pessoas. Elas passam, me olhando de modo ameaçador. Tenho medo de que me espanquem, me batam. Fico com ainda mais medo. Elas me acusam, gritam comigo, mas não posso ouvir o que dizem. Será por isso que estão tão furiosas comigo? Elas ficam ainda mais furiosas, me empurrando e me cutucando de modo agressivo. Há muitas, homens, mulheres, talvez até crianças. Temendo algo mais violento, fujo delas.

Elas voltam a me cercar perto de uma esquina. Caio no chão, chorando. A multidão parece ensandecida, e usam cimitarras pra me cortar em pedaços. Quando fazem isso, sinto-me assustada e confusa. Não entendo porque fazem aquilo. Sinto a necessidade de compreender. Mas devo apenas sentir.

O medo aumenta. As pessoas continua cortando pedacinhos, cubinhos de meu corpo. Depois partem para pedaços maiores, decepando membros. Um outro medo maior aparece. O medo de medo continuado, o medo de que aquilo nunca acabe, que não morra jamais.

Deixo o corpo e me torno inteira novamente, assustada. Agora tenho certeza de que o medo nunca vai acabar. É imperecível. Por toda a eternidade, séculos e gerações passando e o medo continuando em mim, uma rotina que dura centenas de milhares de anos - e por quê? Sinto uma espécie de redemoinho me levar, tentando ainda fazer algum sentido daquilo tudo.

M eu nasço eu morro eu nasço eu morro eu nasço eu morro eu nasço eu m

E orro eu nasço eu morro eu nasço eu morro eu nasço eu morro eu nasço

D eu morro eu nasço eu morro eu nasço eu morro eu nasço eu morro eu n

O nasço eu morro eu nasço eu morro eu nasço eu morro eu nasço eu morro

Vejo minhas vidas passarem à minha frente (revivo-as?) numa velocidade inacreditável [Se fosse mais devagar, poderia tentar reconhecê-las]. Não estou procurando uma resposta. O processo se assemelha a um procedimento autônomo de uma máquina varrendo seus bancos de memória em busca de um minúsculo datum para completar sua programação.

Um refrão de uma música soa suavemente: Fear, she's the mother of violence...

Sinto como uma explosão quando um novo eu surge e floresce. Parece livre para respirar. Grande, forte, poderoso, ambicioso, feio e muito infeliz. Meus/seus braços estão espalhados por um lugar amplo. Eu/ele parece confiante, e sorri malevolamente: "Sim! A resposta, afinal! Nada mais de medo para mim. Deixo para todos! Quero que eles sintam agora o que senti por milênios!". Sinto raiva.

Preciso ser honesta comigo mesma. Nova confusão se estabelece. O eu/ele grande e forte se esvai como um balão, devagar, resistindo ferozmente e o medo volta, cruel e impiedoso. Sinto-me derrotada.

Devo materializá-lo. Ele se transforma numa rocha imensa, maior do que qualquer coisa que já tenha visto, encarando-me bem de perto. É preta e escarpada. Ao vê-la, sinto-me triste com tudo que perdi, as coisas que nunca fiz - tudo que jamais cumpri. Muito triste.

Com muita relutância, toco nela. Sinto-me mal, quase doente. É fria e áspera. Devo pegá-la com ambas as mãos e jogá-la longe. Vai para cima. Eu acompanho sua trajetória até sumir, sem acreditar que tenha ido embora para sempre, que jamais vai voltar.

Quando finalmente se vai, me sinto vazia. E triste. Não parece haver mais nada. Não há mais eu, mais coisa alguma. Tão triste, tão vazio...

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