Há uma coisa horrível dentro de mim. É uma coisa forte e convulsiva, que parece dividida entre o estômago e o peito. Sinto o estômago se remexer, parece que vou vomitar. Depois de um tempo, ela se fixa na boca do estômago, na altura do diafragma. Parece se remexer o tempo todo, histérica, caótica, descontrolada. Sons agudos ressoam nos meus ouvidos, não como um lamento, mas entrecortados, como gritos altos ou uivos.
Sinto ânsias de destruir a primeira coisa que encontrar minhas mãos, de esmagar e cortar, mas minhas mãos não têm garras ou força para isso. Estou apavorada com a perspectiva de deixar aquilo livre em mim. E a coisa continua se revolvendo histericamente, batendo-se, girando, jogando-se contra os limites que a cercam, como um furacão profundamente negro, gritando. Não posso deixar aquilo livre, não quero aquilo usando meu corpo.
A coisa sai de mim. É um lugar escuro e o monstro está preso numa cela com grades. Muda de forma constantemente, embora jamais pareça ser sólido. É como uma nuvem preta que grita alto e jamais fica parada. Tenho muito medo dela. E lembro que a conheço há muito tempo.
Onde foi que eu a conheci?
Vou para um lugar muito plano e aberto. Não vejo montanhas ao fundo, mas está quente e uma aldeia de algumas poucas casas se espalha por um chão claro, absolutamente desprovido de qualquer vegetação. São habitações simples de um povo simples sob as duas luzes no céu de cor esquisita. Sei que é muito longe, não é aqui.
E então a coisa chega naquele lugar. Às vezes um violento redemoinho negro que destrói as casas e aterroriza o povo, às vezes um manto de um negrume indescritível que cobre algumas casas e enlouquece os moradores. Pais matando mulher e filhos, esposas trucidando toda sua família, pessoas destruindo as próprias casas e pertences, ou a família dos demais, a casa dos outros. Caos absoluto. Quando a coisa não destrói, faz destruir.
Alguns dos homens resolvem subir a montanha para falar com o velho que mora lá em cima. Ele é velho, sábio; deve saber o que podemos fazer. Estou no meio deles: um rapazola, o menos importante de todos, apavorado como qualquer um. O velho diz que já esperava por isso. E que só há uma coisa que podemos fazer: a coisa pode ser trancada dentro de coração de vidro e de lá nunca mais poderá sair. Fico mudo, apavorado.
É que sei que, de todos da aldeia, só eu possuo o tal coração no meio do corpo. Nem sei se tento argumentar; o velho disse que não havia outro jeito. Se eu não fizer isso, toda a aldeia vai ser destruída, sem sobrar um sequer. E então eu recebo o monstro no meu coração, sabendo também que quando ele entra no meu corpo tenho que deixar a aldeia para nunca mais voltar. Saio muito triste, sem querer o fardo nem a solidão, mas sem saber o que fazer para evitar ambos, impostos de uma só vez.
Viramos um só, companheiros de maneira estranha.