Sinto grande tristeza. Estou ajoelhada no chão, curvada para a frente, esfregando o assoalho. É uma ambiente escuro e apertado, pobremente iluminado por tochas e uma fogueira. Atrás de mim, um homem enorme, horrível, de longa barba loira, grita comigo, enraivecido. Tenho muito medo dele - ele vai me bater.
Ele grita que eu devo trabalhar mais e mais depressa. Quando, assustada, apresso-me a obedecer, ele se ri de mim, dizendo a outros que eu fui feita para o trabalho, para receber ordens. Sinto-me muito triste, imaginando por que deixo que ele faça aquilo comigo. Ele não é meu pai, irmão ou marido, e ainda assim sei que não posso retrucar. Sinto-me uma escrava.
Então ele me bate nas costas com um chicote ou um pedaço de pau grande. Como sempre, sem motivo ou aviso. Minhas costas doem, eu grito e corro para um grande caldeirão fervente para cozinhar. Os homens ficam todos na mesa, no canto da pequena cabana. Ainda tenho medo. Penso que, depois de comerem, podem decidir me pegar.
Não consigo dizer exatamente como eles fazem isso. É doloroso demais. Não posso me lembrar. Luto arduamente para não me lembrar - foi tão difícil esquecer... Não quero lembrar o abuso, a humilhação e a dor.
Preciso escapar dali e me dou conta que aquela é uma boa hora.
Enquanto eles comem, eu escapo pela porta sem que me vejam. No escuro da noite, vou em direção à paliçada, arrasto a barriga no chão, de olho no guarda com alcança na porta. De novo, escapo sem ser vista e ganho a floresta.
Está preto feito breu e estou terrivelmente assustada na floresta escura. Há tantos animais perigosos e estou sem uma única arma sequer. Consigo chegar a uma caverna perto de um rio. Ela é pequena e quente. Sinto-me segura lá dentro.
Devo sentir toda a proteção e calor da caverna, entrando em contato comigo. Instantaneamente, vejo uma imagem breve e fantasmagórica de mim mesma chorando, consolada em frente a uma fogueira dentro da caverna por minha mãe, que me abraça com carinho e acaricia meus longos cabelos, compartilhando toda a minha dor: "Pobre criança..."
Sinto medo só de pensar na possibilidade de sair. Medo de que as pessoas nunca me aceitarão, de que todos saberiam, só de olhar para mim, de tudo que me fizeram. Medo de ter tanto medo que não poderia ser capaz de me matar (como deveria), se meus captores me encontrassem e me forçassem a fazer o que eles quisessem de mim. Mas ainda que não me encontrassem, a marca do que eles fizeram sempre estaria em mim, como que escrita no meu rosto. Eu jamais seria uma pessoa normal, marcada e sentenciada à dor e à solidão.
Sento-me perto do fogo em sofrimento, sozinha e triste.