Numa outra dimensão, uma coisa me cobre, uma coisa preta como um manto. Mas é uma criatura. Ela cobre os olhos da luz e se escolhe. Vejo as asas, os pequenos chifres, a cor vermelha pronunciada. É um demônio, sem dúvida. nome dele me vem à mente, mas esqueço. Ele se alimenta do meu medo.

Vejo-me numa espécie de cela de pedra, sem teto. É escuro e úmido, e eu me sinto só e desesperada. Estou trancada dentro do meu medo e gostaria de estar presa naquela cela, completamente só, para não poder ver qualquer criatura inteligente. Eu não sofreria tanto se não os visse. Sofro ao vê-los fazerem e terem coisas que eu não posso. Eles têm essa capacidade e eu não. Todos e qualquer um, menos eu. Não há inveja nesse sentimento - apenas a dor, a amargura.

Ainda estou nessa cela, e me pergunto há quanto tempo tenho estado só. Respondo que tem sido toda a minha vida, todas as minhas vidas. Eternamente, perene. Sinto uma condenação, um destino, uma sentença perpétua. Não é meramente um longo tempo linear, é todo o tempo que houve, há ou haverá.

Recuo para o começo dessa solidão. Foi há muitas eras, argumento.

- Mil anos? Quatro mil anos? Vinte mil anos?

Com um suspiro, explico:

- Antes desse planeta.

Vou até lá.

Estou em frente a uma espécie de banca ou tribunal, acima quase um metro da minha cabeça. Três criaturas compõem a banca, todas de branco levemente azulado. Embora apenas os três estejam iluminados, sei que mais deles estão nas laterais, para onde não ouso olhar, mantendo a cabeça baixa. E sei que mais como eu estão atrás de mim. Na banca estão Mestres, ou Senhores. Apenas um (o do meio) se dirige a mim, e me aponta o dedo, ordenando-me para ir e sofrer, em solidão, todas as minhas existências. Era um comando, uma ordem.

Só então eu me dei conta de que eu sequer era uma criatura. Mesmo imaterial, eu fiz uma reverência respeitosa e subserviente ao Mestre que falava, acatando a ordem - pois, afinal, não havia mais nada que eu pudesse fazer. E não senti que aquilo fosse algo ruim, nem nele, um carrasco.

Eu sentia mais respeito do que medo dos Mestres, porque eu era inferior, como seu servo. A maior parte do meu medo era de não ser capaz de cumprir o que me exigiam. Fico confusa, já começo a duvidar se aquilo era uma condenação ou uma tarefa árdua que me fora confiada.

Devo me concentrar no motivo de meu sofrimento e solidão. A primeira palavra que aparece é conhecimento. Eu deveria aprender a sofrer sem me revoltar. E não há maneira de eu obter o conhecimento sem o sofrimento e a solidão. Quanto tempo? Até que eu consiga purgar as coisas ruins das pessoas. Meu coração sente todo o peso do mundo ao constatar que eu sofro por todos.

Para eu cumprir o que me foi determinado, eles me dão um conhecimento superior ao dos demais. E a simpatia dos outros, as pessoas gostam de mim. Amarga, digo que é como obter a simpatia das paredes, ou de pedras. Eles não sabem o quanto eu sofro, não sabem o que eu sei, e não podem ficar comigo. Concluo; é uma simpatia ou solidariedade que não vão me servir de coisa alguma. Ao menos não piora, porque o sofrimento não vem deles.

Poderia ser pior, há lugares ruins e situações terríveis - embora sejam mais breves, e, de qualquer modo, finitas.

No meu caso, porém, é um círculo. Trago conhecimento que, posto para fora e aplicado, serve para me trazer ainda mais conhecimento. Mas os Mestres não me deixam lembrar muito. Eu tenho que viver no conhecimento e no sentimento - de sofrimento e solidão. Saber disso não é suficiente - não mitiga. Sinto-me como um alvo parado, um destes patos de madeira usados para atrair patos selvagens, e cega como um morcego. A mais completa impotência.

Não posso ter raiva. Além de ser uma desobediência direta às ordens recebidas -, não só era inútil como poderia trazer conseqüências desastrosas. Como, intuitivamante, eu percebia já terem ocorrido. Uma delas foi ter me rendido ao desespero e ter me suicidado, uma fuga sem ousadia, rendição desonrosa, nada de nobre nela.

Alguém insiste que não há o sofrimento pelo sofrimento em si, e sempre existe o reverso da medalha, e me lembra de que eu possuo esse conhecimento. Concordo que eu tenha, mas machuca-me saber também que só esse conhecimento não me serve de consolo. É estranho, pois ele deveria). O motivo: eu não consigo ver, nem intuitivamente, o tal reverso.

 

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