É uma floresta tropical exuberante. Palmeiras se misturam a diversas árvores, folhagens e arbustos de diversas tonalidades de verde. É dia claro e olho em volta. Sou um homem alto, forte, vestido apenas com penas. Estou assustado. Conheço bem pouco aquele lugar.

Ando cautelosamente entre as folhas, procurando alguma presa e escondendo-me dos outros. Tenho medo de gente. Eles passam pelas mata densa que me protege de ser visto. Por entre as árvores, espio de longe. As folhas que se mexem quando não tem vento me avisam que eles vêm vindo. Não sabem que estou lá.

De cima de uma árvore alta, olho para o lugar onde moram. Não são muitos. Fico observando uma mulher sentada de cócoras, batendo algo numa tigela para fazer comida quente. Há crianças pequenas. Fico surpreso de saber que eles não são sozinhos. Têm uns ao outros. Falam entre si, riem entre si.

Só então me dou conta de como sou sozinho e de como isso é triste. Sinto dor, abandono. Gostaria também de ter gente. Mas tenho medo de que não me deixem ficar lá com eles. Podem não me aceitar. E eu nunca fiquei com gente. Não sei bater na tigela. Podem ficar bravos se eu fizer alguma coisa que não gostem. Sinto que aquilo é proibido para mim. Mas eu quero ir, ficar junto deles.

Sou instruído a chegar mais perto, avançar o quanto puder. Hesitante, após muita indecisão, fico dois galhos mais perto. O medo aumenta. Tenho medo de que me deixem chegar perto deles e depois me abandonem. Não vou saber se não tentar.

O medo aumenta, o sofrimento também. Tenho muito medo. Fico angustiado. Sinto-me imobilizado. A aflição produz uma dor horrível na boca do estômago. É como se tivesse um buraco na barriga. Sinto que ela está preta por dentro. Sofro muito. O impasse parece aumentar. Não posso ir até eles, mas quero muito. Gostaria de que me tirassem dali. Quero sair dali. Não agüento mais. De repente, posso ir.

Vou para um ambiente escuro e apertado. Inicialmente sinto um alívio intenso, a dor na barriga se vai. Estou só, deitada num ovo. Está mesmo muito escuro. Tenho medo. Não dá para ver o que tem lá fora.

O invólucro do ovo se rompe. Por entre as bordas, vejo que ainda está escuro. Recebo permissão para ficar lá o quanto quiser. Sinto que não tenho vontade alguma de sair e poderia ficar ali eternamente. Lá fora me parece mesmo assustador. Sei que lá fora não vou encontrar calor nem carinho. Ninguém está me esperando. E fico quieta em meu mundo-ovo.

O lugar vai se iluminando gradualmente. Uma luz desmaiada e pálida vai tomando conta de todo o ambiente. Vejo que o ovo está cercado de pessoas estranhas, sem braços, de cabeças muito redondas e olhos ameaçadores. As pessoas me encaram de maneira hostil, acusações mudas em seus semblantes me atingem e me assustam, e me encolho no meu ovo. Elas não me querem ali. Sinto que querem me matar.

E é precisamente o que fazem. Braços surgem repentinamente e vejo meu pescocinho fino cortado. Só quando me vejo sangrando constato que sou um filhote recém-nascido de ave, com aquela plumagem feia típica dos filhotes de ave, com grandes olhos assustados, agora mortos.

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