Vejo-me acorrentada, meus pulsos unidos na frente. Um homem parecido a um centurião romano me chicoteia as costas sujas e ensangüentadas. As algemas estão unidas a uma outra corrente, e sou puxada numa longa fila de pessoas mais ou menos no mesmo estado que eu: sujos, machucados, roupas em trapos, cabelos ensebados e desarrumados. É dia claro e está quente como uma fornalha. Andamos numa terra árida, de cascalho seco. Meus pés são duas grandes feridas.

Talvez por sede, fome, cansaço ou perda de sangue, caio de joelhos no chão. A fila pára. Minha posição é ideal para que eu seja chicoteado com ainda mais violência. Os guardas também me espetam com suas lanças nos braços e nas pernas - de leve, como se brincassem de me machucar. Sei que sou um estrangeiro.

Depois que o centurião se divertiu bastante em me bater, desiste. Sequer penso em reagir. Não tenho força física ou vontade, muito menos idade. Sou muito velho, de barbas muito longas. Ainda temos muito que andar. Sei que estamos indo para a prisão.

Instantaneamente estou sentado no canto de uma cela escura, forrada por alguma espécie de palha, de grandes grades. Estou livre das algemas. Não há mais correntes. Há outras pessoas comigo, talvez umas 15, mas eu sequer tomo conhecimento delas, preso em meu próprio sofrimento. As feridas pelo meu corpo me doem terrivelmente. Elas se afastam de mim, viram seus rostos. Não me importo.

Dois guardas me arrastam para fora da cela pelos braços, as pernas se arranham ainda mais no chão de pedra. Sou levado a um cubículo escuro. Uns três guardas se juntam para me espancar e me chicotear sem dó. Não querem que eu morra, para que possam se divertir. Sou chutado, espetado e chicoteado por um tempo que me parece infinitamente longo. Mas minha falta de resistência os cansa logo - não me consideram mais diversão e me jogam de volta na cela.

Fico caído no fundo da cela, o pescoço num ângulo anataomicamente incomum, quase impossível, sem poder me mexer, tamanho é o abuso contra o meu corpo. As pessoas olham para mim, sem se aproximarem. Acho que algumas delas me desprezam, mas isso não me importa. Não os censuro por se afastarem de mim. Provavelmente eu faria o mesmo, e assim pouparia outros, já que eu não tenho chance de sobreviver,. "Talvez eu morra agora. Será que a morte pode aliviar a dor?", fico imaginando, sem esperar resposta.

A dor de minhas feridas é tão grande que pareço ter criado uma certa insensibilidade a ela. Um de meus olhos está muito machucado, talvez tenha saído da órbita. Respiro muito mal, as costelas quebradas certamente perfuraram os pulmões. Sinto sede. As pessoas não se aproximam de mim. Têm medo que eu morra e que outro seja escolhido para "divertir" os centuriões e decuriões. Estou agonizando. Mas eu poderia mesmo usar um copo de água. Queria muito ter um.

Uma idéia que não me ocorre é pedir para outros prisioneiros. Mas tento fazer isso. Nem um único deles sequer se mexe para me ajudar. Ninguém quer me ajudar. Isso não me surpreende.

"Como você se sente morrendo nesta prisão, sozinho?".

Um tipo de satori repentino me acomete como um raio. Só então me dou conta de que estou morrendo e absolutamente só. Nada nem ninguém virá me ajudar. Fico horrorizado ao pensamento de morrer sem que ninguém me dê sequer uma mão. Queria muito que alguém segurasse a minha mão para eu poder dar meu último suspiro com uma migalha de calor, de conforto. Não queria partir tão só. Mas nada. É inútil.

Aquilo me dói profundamente. Consideram-me indigno até de morrer como um ser humano. Será que eu não valho nem isso? Nem na hora de minha morte? Por uns míseros segundos? Que vida é essa que permite que uma pessoa deixe essa vida sem alguém do seu lado, com todos lhe virando o rosto? É para isso que estou morrendo? Para deixar viver, por mais algumas horas, gente como vocês?, pergunto aos meus companheiros de cela.

Ainda fico agonizando e nessa dor ainda por algum tempo. Finalmente morro. Não pela primeira vez, é um alívio.

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