À minha frente surge uma cortina bordô drapeada. Levanto a pesada cortina e espio para ver o que há atrás dela.
Na penumbra, vejo um teatro empoeirado e antigo. Antes que pudesse iluminar o local com luz branca, uma pequena criaturinha das sombras aparece repentinamente, assustando-me. Ao ver minha reação, sai rindo alto de sua própria peraltice, esvanecendo-se com grande habilidade e rapidez espantosa no meio das sombras.
Muita luz branca ilumina e desinfeta o teatro. Olho ao redor do ambiente, agora claro e limpo: não é uma grande casa de espetáculos, do tipo que pode ser encontrado em qualquer lugar do mundo. Não me traz recordação especial de nenhuma espécie. Estou sozinha no teatro, em pé no corredor entre a seção central de cadeiras e a ala esquerda, mais ou menos na altura da terceira ou quarta fila. Estou em Paris.
Um homem vestido de terno verde, estilo europeu ocidental final do século 19, entra no palco, vindo dos bastidores. Imediatamente sei que o conheço. Ele sequer olha para mim, caminhando em diagonal, rumo à saída oposta do palco. Irada, projeto-me para interceptá-lo antes que deixe o palco. Tenho desejo de bater nele com as duas mãos, esmurrar seus braços. Tento dar uns bons golpes nele. Eu tento, mas não consigo. Ele é meu amante, cafetão ou gigolô. Sou uma dançarina quase prostituta naquele teatro que para a época é um inferninho dos mais mal-afamados. Mas eu o amo.
Estou furiosa com ele por me trair daquela maneira (aparentemente não era a primeira vez que o fazia). Um de meus golpes o acerta. Contudo, ele não deixa que um segundo golpe o atinja: segura-me o braço com tamanha força que quase me levanta do solo. Diz que eu não sou nada sem ele, e mostra todo o seu desprezo por mim. Ele sabe que eu não sou capaz de largá-lo, por mais que me machuque, e dispõe de mim como bem entende.
Derrotada por suas palavras, ponho-me a chorar, humilhada. Ele larga meu braço doído e meu corpo desaba no chão do palco. Lá fico, aos prantos. Minha reação o diverte e ele diz saber que eu sempre voltarei para ele, rastejando, no chão, como estava agora. Dá-me as costas, caminhando em direção à outra saída pelos bastidores.
Estou caída no chão, chorando, ferida, sobretudo por saber que ele está coberto de razão. Eu não sou coisa alguma, por isso ele me subjuga daquela maneira, me humilha e me despreza. Não consigo reagir àquilo. Eu sequer mereço existir...