Estou agachada no chão, batendo com os braços no solo. Sinto raiva, pois fui abandonada. Estou numa estrada empoeirada, num vale desértico, rodeada por rochas altas ao anoitecer, e vejo as duas figuras se afastando ao longe, indiferentes aos meus gritos e palavrões. Meu cabelo longo e cacheado balança no ritmo dos meus golpes no solo.

Deixaram-me para morrer. Não posso andar, há algo errado com minhas pernas. Não são deformadas, apenas sujeitas a algum tipo de paralisia. Abandonaram-me porque não lhes sirvo para coisa alguma. Não posso trabalhar nem gerar filhos. Embora seja jovem, em idade de casar, não posso aumentar o número de guerreiros. Sou apenas um estorvo. Sozinha, tenho medo de morrer. Mas a raiva me dá vontade de sobreviver a qualquer custo. Arrasto-me para perto das pedras enquanto o sol se põe, disposta a encontrar alguma fonte de água. Decido ficar ali, sozinha, o resto de minha vida, se for preciso.

Mato um animal pequeno para beber-lhe o sangue e aproveito o pouco de umidade de algumas folhas rasteiras. Já é dia quando, de uma pedra alta, localizo uma poça lamacenta na parte baixa da ravina. Mas antes que eu me aproxime da água, alguns cavaleiros surgem no local, bloqueando minha passagem até a água. Resolvo procurar uma sombra para esperar que eles saiam dali.

Arrastar-se em cima de pedras não é uma atividade das mais silenciosas, e o barulho imediatamente chama a atenção dos homens. Como eles têm pernas que funcionam, logo me localizam no alto do penhasco, tentando escapar. Apavorada, sou cercada e alvo de brincadeiras dos guerreiros, que parecem se divertir muito, especialmente com minha incapacidade de andar. Correm ao meu redor, atiram-me pedras, puxando meu vestido, ameaçando me espetar com suas lanças, enquanto agito os braços para me defender. Peço que parem com aquilo, inutilmente. Resisto, mas não por muito tempo, pois logo dominam-me os braços e conseguem segurar pelos meus cabelos para que não os morda mais. Rapidamente sou feita prisioneira e levada à poça de água.

Sou amarrada com as mãos às costas e jogada de barriga para baixo num dos cavalos. Cavalgamos o dia inteiro. A dor nas minhas costelas é insuportável, e meu medo aumenta, pois não sei o que querem fazer comigo. Quando o sol cai, dão me um pouco da água e deixam que eu caia do cavalo para se divertir um pouco mais, enquanto comem, à beira da fogueira. Puxam-me o cabelo, jogam-me de mão em mão, e meu medo aumenta ainda mais, achando que vão me matar. Mas isso não acontece.

Mais um dia de cavalgada e uma noite de descanso se passam. Fico pensando, lembrando. Da primeira vez que havia sido feita prisioneira (pelos que me abandonaram para morrer), havia resistido e me bateram tanto que depois não pude andar. Não sabia o que queriam de mim naquela época e não sei agora, com esses outros, cuja língua também não falo. Minha tribo estava longe que eu jamais conseguiria me arrastar até lá.

No terceiro dia, chegamos ao local da tribo deles. O local é estranho: eles têm umas cabanas estranhas, que parecem ser feitas de tecido. Há um grande alvoroço com a chegada do grupo, mulheres e crianças gritam e vêm a nós. Imagino que agora vão me matar.

Atiram-me para fora do cavalo e me arrastam pelos ombros até uma grande cabana. Fico de frente com um homem grande, o mais claro deles, com uma enorme barba amarela, largo e alto como uma árvore. Ao ver a cor dos pêlos e da pele dele, percebo que sou negra. Os dois que me carregam estão atrás, armados, e há mais dois dentro da cabana. Esses claros são diferentes dos outros. Não entendo porque me queriam viva, se nem para escrava eu sirvo. Mas, repentinamente, entendo. E meu medo aumenta.

Fico apavorada que aqueles claros estranhos descubram sobre mim, sobre meu pai - o chefe da minha tribo. Se descobrirem quem eu sou, eles certamente irão até lá e vão aprisionar todos. Se descobrirem a marca no meu ombro...

O grandão fala algo e, num movimento rápido, um dos homens rasga meu vestido e mostra a marca de nascença dos nobres de meu povo, enquanto eu grito, aterrorizada. O grandão sorri, acompanhados por todos. Imediatamente me dou conta de que pretendem me usar para atacar minha tribo de forma indefensável. Vão conseguir. Derrotada, jogo-me ao chão, chorando.

Logo estão todos envolvidos nos preparativos para a batalha e me esquecem na tenda. Sinto-me horrivelmente culpada. Não sobraria um da minha tribo para contar as histórias nas fogueiras, para dançar e cantar sobre nosso povo. Traíra meu povo ao não morrer no deserto. Insistira em viver, e agora eles pagariam por minha teimosia estúpida e egoísta.

Olho ao lado. A parede da tenda está solta e dá direto num precipício. A idéia vem com força ao notar que os claros estão ocupados demais com a batalha. Ninguém presta atenção em mim. É a minha chance de evitar o massacre.

Hesito. Sei que devo me atirar ao precipício, derrotando meus inimigos e evitando a chacina de meu povo. Mas eu não quero morrer. Vejo que eles continuam distraídos. Não vai durar muito tempo, e eu tenho que tomar uma decisão rapidamente. Fico dividida, mas o senso de urgência vence.

Sem pensar, arrasto-me com todas as minhas forças por baixo dos panos e meu corpo falseia, caindo pela rocha escaparda, resvalando nas saliências até encontrar uma enorme pedra plana, uns 10 metros ribanceira abaixo. Não consigo evitar os gritos quando cabeça, tronco e membros sentem duramente a ação da gravidade contra as imperfeições da rocha.

Se antes não podia mexer as pernas, agora todo o corpo está imóvel, esparramado assimetricamente sobre a rocha. Abro olhos com dificuldade. No topo do precipício, vejo diversos claros agitados, apontando para mim. Sorrio por dentro, uma fraca sensação de vitória, logo substituída pela dor e pela raiva de saber que morria rapidamente. Meu corpo está todo ferido: braços e pernas ensangüentados, uma costela aponta inaturalmente para fora do meu tronco e recebe o sol.

Não consigo respirar direito, e minha visão, fixa no povo claro, se enevoa com o sangue que escorre da minha testa. O pulmão perfurado expulsa uma golfada de sangue para minha boca. Com o gosto acre na garganta, morro.

Por um momento, não sei que posso deixar o corpo já sem vida na ravina. Demora algum tempo até que eu me dê conta de que isso é possível.

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