Num lugar aberto, posso me ver de espada em riste, encarando muitos homens também armados. Estou cercado. Vejo-me vestindo couro e metal no meu peito, peles no meu chapéu e nas minhas botas. Meu tipo fisico é extremamente oriental, usando um bigode muito fino e barba rala, cabelos bem pretos e olhos puxados também negros, talvez tajique, Mongólia, Sibéria ou alguma parte da China. Estava em guerra, frente a frente com meus inimigos.
Cercado por aqueles homens com lanças, não desisto de lutar. Sozinho, logo sou vencido, arrastado dali e torturado. Bem devagar, meus inimigos se divertem dilacerando meu corpo, as lanças dedilhando minha pele, arrancando pedaços de meu corpo. Meus olhos são arrancados, sai muito sangue. Meus dedos também são arrancados de minhas mãos e de meus pés. Eles me batem e me chutam muito. Sou castra do. Aquilo prossegue por horas.
Sinto ódio e medo, desejo ardentemente morrer. Estou revoltado com meus agressores. Não fazemos essas coisas com prisioneiros. Nunca havia acreditado que as estórias terríveis sobre eles fossem verdade. Que maneira dolorosa de descobrir que eram...
A dor me faz falar. Eles sabem fazer as perguntas certas, na hora certa. Digo-lhes o que querem saber - onde está meu povo, quantos guerreiros temos, nossos planos de ataque. Não falo para viver ou para ser libertado, só para eles pararem com aquilo e me deixarem morrer de uma vez.
Mas eles não deixam.
Ao invés disso, eles me põem num cavalo e me soltam no chão. É alvorada. Semimorto, espancado e fraco, não consigo andar. Arrasto-me em direção a minha tribo, ouço-lhes os sons no nosso acampamento nômade, sentido o solo seco e árido, gritando aos de minha espécie para encontrarem abrigo, pois o ataque é iminente. Alguns correm na minha direção, imaginando que grito por socorro. E o ataque começa. Menos que um ataque, mais como um massacre.
Eles se atiram sobre homens, mulheres e crianças sem distinção. Jogado no chão, posso apenas ficar ali, ouvindo os gritos das pessoas atacadas, agonizando como eu. Horrorizado, cheiro os odores horríveis, tentando inutilmente tapar meus ouvidos para não escutar o horror. Sem olhos, eu posso apenas imaginar com os olhos de minha mente.
Mortificado, reconheço que a carnificina de meu povo é minha culpa. Ouço alguns de minha tribo me culpando, acusando-me de traição e covardia. E em meio ao meu desespero, um som conhecido atrai minha atenção.
Os gritos de minha amada esposa se distinguem nos meus ouvidos entre a confusão da batalha e os sons de horror e barbárie. Digo o nome dela. Eu sei que está está sendo estuprada e espancada. Desesperado, tento chegar ao lugar de onde o som está vindo. Tarde demais. Ela está morta. E se ela não escapou, tampouco nosso filhinho, nossa maior alegria. Mortos. Meus únicos e maiores tesouros... Eu não tenho nada.
Enlouquecido, começo a gritar e a atacar tudo que chega perto de mim. Os adversários se divertem com aquilo e logo me cercam, batendo com força, machucando-me pelo prazer de me ver mais machucado do que estava, apostando em quanto tempo mais eu ficaria vivo. Batem em mim com força, chutam-me as canelas e as costelas (posso senti-las quebrando, perfurando o pulmão) atravessam-me com suas lanças, desfigurando-me.
Virtualmente todos os ossos do meu corpo estão quebrados, não há um centímetro quadrado de pele sem hematoma ou sangue. Finalmente eu morro. Mas o espancamento prossegue. Saio do meu corpo e fico ao lado, observando horrorizado enquanto eles espancam um pedaço de carne inerte e ensangüentado.