Uma luz. É uma tonalidade verde bem clara, e revela vir de uma floresta. Logo percebo que é um lugar mágico, pois é cheio de vida e de cores muito brilhantes. Há riachos, plantas exuberantes, árvores lindas, luminosidade em todo o lugar, transparecendo alegria e harmonia.

Tudo me parece tão grande, e percebo que sou bem pequenininha. Nã sou criança nem adulta, só pequenina do tamanho de uma florzinha. Nem sei se sou homem ou mulher. Alguém me pergunta onde moro, e lembro-me de uma folha grande que me serve de abrigo. Posso voar. Tenho asas pequenas e transparentes, com uma aparência frágil e delicada. Pedem-me que voe, o que adoro fazer. Minhas asas batem como as de um beija-flor, quase não são vistas quando estou voando.

Bebo o orvalho fresco e gostoso que está nas folhas e pétalas de flores, grossas gotas cristalinas pingando suavemente das plantas. Eu ajudo as plantas a crescerem, e falo com elas, cuidando delas se estão tristes e alegrando-me quando estão alegres. Às vezes faço crescer musgos e outras plantinhas nas pedras e rochas, que reclamam disso. É divertido quando as rochas se zangam, a voz grossa e martelante delas me faz rir.

No momento, há muita alegria na floresta, e eu também estou feliz, voando rapidamente por entre galhos e flores. Alguém me pergunta se eu me sinto sozinha. Quase rio da pergunta. Nessa floresta cheia de plantas e bichinhos, como posso me sentir sozinha com todos eles?

Ainda estou voando e percebo uma sombra silenciosa crescendo às minhas costas. Viro-me, e durante uma fração de segundo não ouço um único som. Tudo acontece tão rápid –

Cuidado! , grita uma voz para mim já no meio da confusão. Tarde demais.

Quando me dou por conta do que está acontecendo, percebo que estou presa. Não posso voar. Estou numa gaiola, e há grandes olhos me observando, uma criatura gigantesca que sorri macabramente e me fita com cobiça e maldade. Encosto no fundo oposto da jaulinha, quando os dedos grandes e grossos tentam me alcançar pelas barras pequenas que me prendem.

Estou em pânico, beirando a histeria. Tudo me parece tão irreal, e aquela criatura imensa, com um nariz redondo e gordo, não tira os olhos pretos imensos de mim. Não sinto apenas medo, mas terror puro. Debato-me inutilmente pela gaiola, minhas asas delicadas num ritmo tão acelerado que estão a ponto de se quebrar. Grito e choro de pavor, implorando ao gigante para me soltar. Ninguém vem me ajudar, e o terror aumenta. Imagino por um momento que ele queira me matar (ou que conseguirá isso, se não me deixar voar), ou tentar tomar algum poder que eu tenha.

Minha agitação dá lugar ao cansaço e à intuição para entender. Durante alguns minutos, fico a observá-lo curiosamente pelas grades, meus olhos analisando cada pequeno detalhe, a intuição apreendendo tudo o que dele emanava. Nesse breve instante, os papéis se invertem: a caça olha o seu caçador.

A criatura era um Homem. Ele é mau, pensei, pois me capturou sem nem saber o que eu sou. Está intrigado comigo. Diz coisas entre os dentes, coisas que não entendo. Tento lhe pedir que me deixe ir. Ele não entende o que falo, da mesma forma que não sei sua língua. Mas sei que ele quer me manter presa como uma espécie de prêmio, algo para ser exibido a outros gigantes como ele. Eu seria algum tipo de possessão valiosa, que lhe traria respeito ou poder.

Observo sua aura, seus sentimentos. Não vejo maldade nem energia malévola nele, só ignorância e falta de refinamento. Ele apenas não sabe, só isso. Não sabe o que eu sou, e não pode ou não quer aprender. Sinto pena dele. Isso me dói muito. O gigante-Homem não pode entender minhas palavras, mas eu posso sentir algumas de suas emoções.

Ainda assim, eu estava presa. Parecia ser um castelo de pedra, escuro e frio. Fico triste. Sinto saudades de voar, saudades da floresta. Estou só. Ninguém vem me ajudar. Ali não tinha o orvalho fresquinho. Estou muito triste. O Homem me traz uma água choca, me trata como se eu fosse um passarinho ou outro bichinho qualquer. Aquilo começa a me dar nos nervos. Começo a ficar com raiva.

Tento me controlar porque a raiva não pode ser. Não posso me entregar a ela, é impensável. Se eu ficar com raiva, vou me transformar. E aí as coisas só piorariam.

Luto contra a raiva. Mas o Homem fica me provocando. Dá tapas na gaiola, balançando-a para eu cair no fundo dela, ou ser obrigada a voar desajeitadamente. Ele me humilha. Quer que eu dê vôos pequenos e ridículos só para sua diversão. Sou um objeto para seu mero deleite. Aquilo me enfurece. Tento reprimir a raiva para o pior não acontecer. Mas é grande.

Sem qualquer aviso, tudo vira confusão de novo. Vejo flashes de algo que parece ser uma briga. E então me dou conta de que o pior aconteceu... Fico tão horrorizada com o que eu fiz que eu me desespero. Estou muito envergonhada.

A Revivo os acontecimentos. A raiva explode de maneira inexorável. Meu corpo ganha volume e tamanho imensos. A transformação despedaça a gaiolinha. Viro um monstro descomunal, de garras compridas e dentes afiados, com uma couraça áspera esverdeada e cinzenta. A imagem mais próxima conhecida seria a de um Tyranossaurus Rex, mas não era exatamente aquilo. Ensandecida, eu-T.Rex atiro-me barbaramente sobre meu captor, que mal tem tempo para entrar em pânico. Em questão de segundos, a selvageria toma conta da cena: minhas garras e presas afiadas estraçalham o Homem, que se transforma num amontoado disforme de pedaços de carne empapados numa enorme poça de sangue.

O horror me atinge como um raio carregado de remorso. Ao perceber o que fizera, fico tão envergonhada que fecho os olhos reptilianos. Culpa e dor me horrorizam de maneira extrema. Deixo meu corpanzil medido às toneladas cair de joelhos, agitada e desesperada. Eu não podia ter feito aquilo, repetia a mim mesa. Ele era pequeno e fraco, não tinha defesa. Ele só não sabia, e agora não iria aprender, nunca mais. Contudo, eu sabia, e ainda assim tinha me deixado dominar pela raiva. Obviamente, meu ato covarde não passaria impune.

Uma voz entra na minha cabeça e me informa que daquele momento em diante eu teria sempre aquela forma de T-Rex. Não voaria jamais de novo. A idéia me aterroriza. Nunca mais falaria com as plantinhas, não teria mais minha casa na folhinha, não seria mais feliz. Resisto ferozmente, o castigo me parece uma ferida mortal, e urro alto, o desespero de um gigante impotente. Sinto-me atingida num ponto nevrálgico, magoada por ter de ficar o resto de minha vida com aquela forma grande e grotesca e - o pior de tudo - incapaz de voar. "Não! Isso não! Tudo, menos isso!", grito em vão.

A voz continua a soar, agora emanando de um ser humanóide envolto em luz branca meio azulada. Ele flutua acima de minha cabeçorra. O dedo indicador da criatura está apontado diretamente em minha direção, e sua voz suave pronuncia gentilmente as palavras mais duras que eu poderia ouvir.

Diz-me que eu não poderia ter feito o que fiz, que toda fadinha sabia daquilo. Aproveitara-me da minha superioridade física. Orienta-me a aprender a ser tolerante com os mais fracos e mais ignorantes, a aprender com eles e a ensinar a eles. Não poderia ter perdido o controle sobre minha raiva. Nada justifica. Diante do inevitável, aceito minha pena, triste e conformada.

Em flashes, sinto a tristeza infinita de uma existência tão solitária que parece ser longa. Lembro-me da solidão, causada pelo medo que ele infunde às outras criaturas. Minha morte é apenas uma imagem: um urro gutural de dor e o estrondo da imensa cabeça do T-Rex golpeando o chão da caverna que ele habitava. Só, grande e disforme, ele morre sozinho, temido e ferido no coração de sangue quente.

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