(1.11.1993)

Quando os dragões começaram a chegar ao reino, o povo todo ficou em pânico. O rei também não gostou, e mandou todos os seus homens atrás dos dragões. Eles atiraram flechas e lanças, mas não os alcançavam em vôo ou penetravam a couraça. Os dragões espantavam os homens do rei, lançando fogo por suas bocas.

Cada dragão tinha uma cor diferente. E jogavam, cada um a sua cor, na luz do reino, trazendo boas energias para todos, embora o povo não pudesse ver, pois não tinha olhos de magia. Eles não se aproximavam das casas dos homens, e se abrigavam na floresta. Mas na maioria das vezes estavam no céu, espargindo as diferentes cores da energia.

O rei estava à beira de ataque de cólera. Há pouco tempo, saíra vitorioso de uma batalha com o reino vizinho, e agora tinha outra, pois via seu próprio país infestado de dragões. Chamou o chefe da guarda e encarregou-o de combater as feras. A ordem foi bem-recebida.

O chefe da guarda tomou um solene juramento de matar todos os dragões que aterrorizavam o reino. Como o Capitão Ahab, louco e cego atrás do inimigo, via e cada dragão sua Moby Dick particular, em diferentes cores. Prometeu-se matá-los todos - ou morrer tentando.

Pegou seu melhor cavalo e dirigiu-se à floresta com os guerreiros mais valorosos do reino. Após longa cavalgada, acharam o lugar onde os dragões se abrigavam. Esconderam-se entra os arbustos para ver melhor o inimigo.

Parecia ser hora do almoço, porque todas as feras alimentavam-se de folhas e frutos próximos. Aparentavam tranqüilidade. O chefe da guarda sorriu e deu o sinal para o ataque-surpresa.

Homens e cavalos voaram das folhas e arbustos, catapultando lanças e flechas sobre o grupo em refeição. Ágeis, os dragões levantaram vôo, cuspindo fogo sobre os assaltantes e sumiram dentro da floresta. O chefe da guarda reagrupou os homens, e, verificando que não havia um único ferido, rumou para as profundezas da mata.

Andaram muito, os cavalos cansaram. Enfim, detectaram o bando de feras aladas, que continuava a refeição placidamente. Desta vez o chefe da guarda posicionou seus melhores arqueiros nas árvores e ordenou-lhes que atirassem apenas nas asas grandes e escamosas.

Das árvores choveram flechas, e onde caíam chovia sangue em diferentes cores. Aos urros, as feras correram a pé para o coração da floresta, os passos estremecendo o chão. Os homens do rei as seguiram, brandindo lanças. No caminho, encontraram os inimigos do reino vizinho - tinham adentrado suas terras. Mas os inimigos se juntaram a eles na caçada aos dragões.

Agora sem poder voar, as criaturas foram logo encurraladas numa clareira junto à montanha que beirava o mar. E massacre começou. Homens de dois reinos caíram em cima de suas presas, numa carnificina sem limites.

Satifeito, o chefe da guarda sorria saciava seu ódio com estocadas implacáveis nos couros grossos e cheios de escamas. mas seu sorriso caiu ao notar uma imensa sombra no chão. Olhou para cima e seu sangue ferveu: um dragão ferido conseguira levantar vôo e agora ia para o alto da montanha.

Cego de ódio ao notar a presa lhe escapando, o chefe da guarda pegou seu cavalo e chicoteou-o, e esporeou-o, e gritou, e urrou até que o animal conseguisse chegar ao topo do monte. Seus homens, e muitos guerreiros do outro reino também, seguiram-no na escalada..

No vasto platô junto ao mar, o chefe da guarda viu, adiante de si, junto ao precipício, o dragão. E era o maior do bando todo. Púrpura, um imenso corpanzil, ostentava uma espécie de grande e magnífico penacho no alto da cabeçorra. Estava no chão - talvez não pudesse mais voar. Agora tentava se arrastar rumo ao abismo.

Aquilo o chefe da guarda não iria permitir. Eram as suas narinas que ofegaram, esporeando o cavalo para que fosse até a fera. A montaria resistiu e foi esporeada com vigor redobrado. Os homens alertaram o chefe para o risco que corria de cair no mar, pediram-lhe que não fosse. O nobre cavaleiro não lhes deu ouvidos e foi atodo galope rumo à besta, a lança em riste.

Subitamente, o dragão abriu as asas e levantou vôo, deixando um pequeno rastro púrpura de sangue. Assustado, o cavalo estacou de pronto - atirando o chefe da guarda direto no precipício. Mas ele era um guerreiro muito ágil e se agarrou nas rochas, ficando pendurado, o mar bravio abaixo de seus pés.

Ouviu alguém lhe gritar que ia puxá-lo por uma corda. Logo viu-se içado, e praguejou:

- Maldita fera! Vou matá-lo e acabar com seus dias de criatura do Mal!

- Do Mal, meu senhor? - indagou a voz de quem o içava - A mim não me parece o caso. Ele não fez menção de atacar, não comeu pessoas (ao contrário do que o povo dizia), e até conseguiu fazê-lo lutar ombro a ombro com seus inimigos mais odiados. Como uma criatura que alcança esses feitos pode ser do Mal?

O chefe da guarda irritou-se, em pleno ar:

- Que está dizendo, homem?! Aquele monstro não é uma criatura de Deus!

A voz ficou bem mais grave e lembrou:

- Deus criou todas as coisas do universo, meu senhor, mesmo que não compreendamos algumas delas. Se não entendeis isso, devo voltar à corda, pois não mereceis viver. E a propósito: eu não sou um homem.

O chefe da guarda ergueu os olhos arregalados e encontrou outro par deles, púrpuras, cheios de amor e de dor, ficando menores e menores, à medida que caía inexoravelmente no precipício.

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