A vista de uma pequena baía extremamente piscosa e selvagem. Estou num extremo, e, no oposto, há uma passagem estreita entre duas pequenas colinas. No sonho, nado velozmente toda a extensão da costa (de 800 a 1.000 metros), fugindo de um perseguidor desconhecido. Meus braços e pernas se movem entre os peixes, batendo neles, e temo que eles me mordam - talvez o tenham feito.
Vencida a água, continuo a fugir e galgo a estreita passagem de terra, que descortina uma espécie de planície aberta, um campo com uma vegetação de altura média, de cor semelhante a trigo maduro. Adiante, a cerca de um quilômetro ou mais, há um grupo de árvores que poderiam me fornecer abrigo seguro contra meu perseguidor.
Mas estão longe demais, e eu estaria exposta, em campo aberto, por um tempo infinitamente longo até alcançar um refúgio. O mato era minha única saída. Não hesito em abrir os braços e atirar-me no ar, planando suavemente até aterrissar no meio do campo dourado. Lá fiquei deitada, coberta pelas plantas, perfeitamente escondida.
Gostaria apenas que meu perseguidor não me descobrisse e fosse embora, deixando-me em paz. Eu sei o que aquele ser quer de mim - uma criatura com múltiplas habilidades, capaz de mudar de forma, voar e demonstrar agilidade. Ele pretende se apropriar de meu segredo, o que infelizmente é impossível. O que trago comigo faz parte da minha natureza: é uma herança. Não pode ser dado, por isso minha impossibilidade de fazer alguma outra coisa que não seja simplesmente fugir.
Chamo a criatura de quem herdei minhas habilidades. Ele chega, sob forma de uma aparição. É uma figura humana masculina de idade indecifrável, usando um manto comprido, envolta numa brilhante bolha translúcida azul-escura. Ele é ou foi meu pai. Sinto a emoção de sua presença, e sua preocupação. Ao falar-lhe, minhas únicas palavras procuram traduzir a alegria de vê-lo. Mas ele se comunica mentalmente.
Falamos sobre a criatura que me persegue. Em pensamento, que eu capto claramente, meu pai diz que isso acontece de vez em quando. São forças inferiores, que querem se apropriar de meus poderes. Alerta-me para o perigo que corro, por não estar treinada. Eles querem o que eu trago comigo. Se descobrirem que não podem tê-lo, vão me destruir. Afirma que eu só tenho duas opções no momento: fugir para sobreviver ou desistir de existir, para que eles não possam conseguir obter o meu poder. Intrigada, pergunto mentalmente: "Eles poderiam obter?". Meu pai suspira pesadamente.
Ele então me conta que falhou, há muito tempo, ao tentar ajudar aqueles seres. Mesmo totalmente treinado e mais forte do que eles, foi derrotado pela superioridade numérica deles, que concentrou e canalizou a energia destrutiva. Seu poder foi absorvido e eles se tornaram mais fortes. Imaginei que meu pai tivesse sido, então, destruído, mas ele ficou mentalmente mudo à minha sugestão. Preferiu me dizer que temia por meu destino, e que não havia muito que pudesse fazer por mim. Mas pude ver, em sua mente, que ele instruíra ou sabia de alguém capaz de me ajudar - um mestre ou tutor.
Meu pai desaparece gradualmente, e me dou conta de que ainda estou no mato dourado. Chamo uma presença que me auxilie, já sabendo que meu Mestre deverá surgir. É ele quem pode me ajudar.
Ninguém aparece. E experimento dois acontecimentos simultâneos: recebo o entendimento de que o Mestre não pode se mostrar enquanto a coisa ainda estiver ali e transformo-me numa brilhante bola do fogo amarela. Instantaneamente, a vegetação seca se incendeia a velocidades inacreditáveis, as chamas impulsionadas como raios compactos devastando tudo que encontravam. Horrorizada, a criatura foge com um grito agudo, tomando o rumo das árvores adiante. Mas, certamente, a coisa não ficou lá, pois em seguida meu Mestre do Ar apareceu, sob forma humana. Também voltando a ser humana, aproximo-me dele.
O Mestre fala que eu não devo mais ficar ali. Faço aparecer um portal dimensional. Quando aparece, eu resisto a atravessá-lo. É o lugar das criaturas inferiores, um lugar macabro e sinistro em forma de espessa floresta pantanosa, sob denso nevoeiro. Recebo a antevisão de que lá está o desafio, o perigo, o meu destino. Será uma jornada longa e difícil. E, mais do que ser destruída, temo falhar - como meu pai.
Sou impelida, primeiro, a partilhar da energia de meu Mestre, ganhando perseverança, pois eu devia sobreviver; e, em seguida, a ligar-me a ele através de um cordão invisível. E antes mesmo que eu perceba, já estou dentro daquele lugar, cercada pelas imensas árvores secas e retorcidas, a atmosfera densa do fog deixando o ambiente ainda mais pesado e dando a todo o lugar uma umidade quase viscosa.
Meu Mestre está em meu ombro, sob a aparência de uma coruja. Estamos envoltos sob um único escudo protetor invisível.
Estamos prontos para seguir. E mal faço essa constatação mental, dezenas daqueles seres inferiores nos cercam, desta vez aparecendo claramente, não em vultos esgueirando-se por trevas. Mostram-se criaturinhas que batem na altura da minha cintura, agitadas, excitados. Não consigo entender se é um ato de agressão ou mera brincadeira, tamanho o alvoroço que fazem. Só o que sei é que não sinto medo ao me ver completamente cercada por eles, e até experimento um certo sentimento de perplexidade diante do inusitado. Mentalmente, sinto-os como apenas crianças, fazendo a algazarra típica de garotos na hora do recreio, brincando de roda comigo - ou, talvez, o tipo de recepção reservado a adultos que trazem presentes.
Prossigo, com o Mestre-coruja, a jornada no terreno pantanoso e inóspito. O chão escorregadio e irregular está coberto pela névoa espessa. Pelos flancos, vindos das árvores, diversos estímulos nos abordam, em flashes. Explico que são provocações, todas com intenções agressivas. Sinto que "nós" é o pronome mais correto no momento, pois que o Mestre e eu nos transformamos numa espécie de consciência única desde que partilhamos o mesmo escudo protetor.
Primeiro, lanças são atiradas contra nós; depois, espadas surgem à nossa frente; a seguir, bestas ferozes rugem contra nós. E então uma prostituta se oferece. Grito, alto: "Parada!" Obviamente, não é uma ordem - pois não é verbo, e sim um substantivo.
Estaco de súbito, e percebo que tenho uma forma humana masculina (antes eu era uma mulher). E então entro numa nova realidade, um lugar pinçado do continuum espaço-tempo, em que uma série de conceitos puros e abstratos surgem, sólidos, diante de mim. Sou obrigada a me abstrair de tudo que não seja daquela realidade, pois minha mente está buscando a resposta.
Posso sentir o impulso elétrico num único neurônio, agora mais assemelhado a um míssil teleguiado que voa mecanicamente por aquele labirinto de conceitos para cumprir a missão à qual foi programado: encontrar a resposta. Como um raio, ele passa em velocidades maiores que a luz pelas diversas opções, estas mais parecidas com artigos numa vitrine: sexo, procriação, perpetuação, maternidade, macho, fêmea, ambos, opção sexual, androginia.
Viro-me para o Mestre, sem esconder minha decepção e revolta: "É só isso?". Na pergunta, estava embutida quase uma ponta de traição. E no ar, as palavras não-ditas: "Tudo isso só para me revelar o que eu já sei? Que eu preciso aprender a lidar melhor com o sexo e as emoções que ele me suscita, todas péssimas e (auto) destrutivas? Você pode fazer melhor que isso!".
A coruja adquire feições imperscrutáveis, e uma palavra me faz parar de projetar essas emoções: "Paciência, criança". E os seres daquele lugar, mesmo guardando uma distância - respeitosamente, estão a espiar-nos, intrigados ao me ver totalmente alheia a todo o exterior, discutindo dura e silenciosamente com aquela coruja escura. É um breve momento que tenho a percepção do pântano que me cerca. A nova realidade volta com um apelo interior inexorável.
Num nonagésimo de segundo, o míssil se transforma numa câmera cujo olho passeia por meus conceitos subjetivos daqueles mesmos conceitos: a profunda rejeição à maternidade salta em primeiro plano, como fator de limitação. Em espiral, viajo nos labirintos e nada parece trazer a minha resposta.
Continuamos a caminhada que me devolveu ao pântano. Só que eu não vou longe: as criaturinhas do lugar me cercam novamente, no mesmo ritmo alucinado de pular à minha volta. E, fiat lux, a compreensão aparece. Elas eram crianças, afinal. Mais do que isso, havia ou haveria de haver as minhas crianças.
Eu deveria ser pai, mãe e professora de toda uma geração. Eu era única de uma espécie, como se fosse uma última sobrevivente de uma raça em extinção. Teria que cuidar de todas as minhas crianças. Minha vida e meu destino não mais me pertenciam, mas a meu povo, de quem seria matriarca, patriarca e mestre. (Nesse momento, tenho a consciência de que meu corpo físico passa por momentos de desconforto, pois a voz é arrastada, sou acometida de tonturas e o equilíbrio me falha. A cabeça pende para trás dolorosamente.)
Seriam minhas crianças, toda a geração futura. Deveria gerá-los, pari-los, nutri-los, criá-los e ensiná-los. "Ensine-os com sentimento", orienta o Mestre. "Claro", respondo, "são minhas crianças". E sorrio maternalmente para as criaturinhas, projetando a antevisão de quando seria cercada por meus próprios pequenos. O Mestre sentencia: "O sobrevivente deve sobreviver - e vencer".
Aumenta a desarmonia no meu corpo físico. Devemos deixar e criar um novo portal dimensional. Surge uma abertura oval de luz azul-clara através da qual o Mestre e eu passamos. A diferença de densidade é notável, e traz alívio inenarrável. O Mestre voa longe e alto, sentindo-se livre de novo.
Vejo-me ofegante, sorrindo ante à constatação de que ele está mais aliviado do que eu, e contemplo seus graciosos vôos circulares no céu costumeiramente chamado "de brigadeiro".
Compartilhamos do alívio e da energia, desfrutando da sensação de leveza e alegria. Ele pousa e adquire forma humana, pressentindo ser hora das despedidas. Vejo na sua mente como ele me vê, de maneira bondosa e compreensiva, como uma criança impaciente. Peço orientação ou conselho. "Ouça bastante música; eu viajo através dela", é a resposta. Instintivamente, uma melodia soa na minha cabeça. E, sem surpresa, é uma música azul-clara.