Primeiro, vou com o instinto. Sinto-me estranha num lugar estranho, com medo de ser atacada. É um sentimento que se retrai diante da sensação de não existir lugar seguro, de estar eternamente em alerta, sempre em guarda... E uma visão surge da escuridão, uma imagem emoldurada nas trevas que contornam as silhuetas de folhas - estou no alto de uma árvore, olhando para o "acampamento".
Meu corpo é felinóide. De dentro de mim, posso ver meu pêlo, que parece preto na escuridão, minhas longas garras, minha cauda grossa e orelhas pontudas. Pareço estar apenas olhando, guardando. Estou dividido em dois sentimentos: medo da morte iminente e raiva por estar condenado a ficar para sempre de guarda, sem jamais ser capaz de me dar ao luxo de relaxar.
Há um outro de fora: acima, uma estranha pessoa que não vejo, apenas sinto. Não parece fazer mal, mas parece ser muito diferente de mim - e está como se estivesse dentro de mim. Está me observando, quer que eu me comunique. E tento expressar meus sentimentos pela fala.
Para minha surpresa, não consigo emitir um único som na primeira vez. <
Aparato vocal errado, soa um alarme dentro de mim. Órgãos pertinentes à fala não permitem expressão completa na língua natal.> Percebo que não serei capaz de falar ao outro em minha própria língua. <Não vai entender! O outro precisa entender!> Entro em pânico, cego de fúria e medo. Não vai dar certo!, grito em mim. Começo a rugir alto dentro de mim (embora ouça um som baixo), sentido-me frustrado, furioso e temeroso. Talvez uma outra forma...Cheiro antecipação e impaciência no outro, mas pode ser a minha própria. A cegueira por não poder me comunicar parece tomar conta de mim por um instante. Então percebo que não poderei me comunicar com meu próprio corpo, não poderei ver totalmente com meu próprios olhos e falar com o outro ao mesmo tempo. Tenho que sair e usar um outro corpo para me comunicar - só assim o rugido pôde sair, mesmo que fraco, tímido e impotente como o de um filhote. Não é o que eu quero, mas é o que tenho que fazer. O outro precisa ouvir.
Saio do meu corpo relutantemente, para me ver ainda no galho alto. Estar em dois lugares ao mesmo tempo é algo novo para mim. Fico imaginando qual deles serei eu, qual dos dois cheiros é o meu. Não quero isso, quero usar o meu próprio corpo! Mas tenho que fazer isso para me comunicar, como rugi antes - um rugido que não era o meu, que não fazia a terra por onde andava tremer pelo som de meu rugido.
Percebo que se não conseguir usar o outro corpo - o de um animal estranho, pelado e sem garras -, posso ficar furioso. E meu cheiro de fúria pode se combinar com o cheiro da impaciência do outro, resultando inevitavelmente no clarão do ataque em meus olhos. Mal penso, meus olhos se inflam de luz, minha cauda já está contraída para o ataque e minhas garras já estão abertas, prontas a agarrar a presa, enquanto minhas presas se projetam para fora. <
Não! Não pode atacar o outro!> Eu rosno, presas, cauda e garras se retraem. Vejo-me novamente, ainda no galho.Meus olhos se movem para examinar totalmente o acampamento de meu bando. Estou longe deles. Não me deixam entrar. Tenho medo e raiva. Se qualquer outro animal detectar o cheiro de um de nós... Sozinho, eu não sobreviverei. Não tenho bando, não terei consorte.
Tento entender por que fui exilado. Eu era do tipo brigão, mas quem não mostra suas presas de vez em quando?
Então o bando sente o meu cheiro. Eles abrem as garras e rosnam para mim, olhando para cima, para o galho onde estou. Num reflexo, rosno de volta, mostrando as presas. Mas não posso combater toda a manada. Ninguém pode. Tenho que sair.
Sumo entre os galhos, para depois descer das árvores, minhas orelhas baixadas, minha cauda arrastando. Emito um cheiro de tristeza e rejeição. Não me deixariam voltar. Quero muito estar de volta ao bando.
Encontro uma boa corrente de água e caço um coelho. Está tão gostoso que me lembro de ser filhote e brincar entre as árvores. Satisfeito, lambo meu pêlo, sempre no sentido contrário, para me manter aquecido - outra lição de infância. É hora de pensar em descanso. Já é noite alta.
Olhando para cima, à procura de um galho alto, meu nariz está erguido quando algo o alcança. Minha cauda se ergue, minhas orelhas levantam e o cheiro põe o resto de meus sentidos em alerta. É o cheiro mais estranho que já senti, obviamente de um animal que eu jamais vi. Parece cheirar a caçador, e se é tão estranho, talvez pense que eu seja a caça. Meus ouvidos garantem que estão se aproximando. São três.
Galgo rapidamente um galho baixo, protegido por folhas, quando eles aparecem perto da água. Minhas orelhas se erguem ainda mais. Nunca vi animais daquele tipo: altos, ficam em dois pés ao invés de quatro (o que demonstra que não são muito inteligentes), parecem ter pelo liso e malhado como as folhas e galhos, e as mãos carregam uma cauda curta, mas tão dura que duvido que possa se mexer. Tenho um impacto tão grande que meu cheiro muda para medo. Acho que eles sentiram o cheiro, porque ficam olhando para os lados. Mas não me vêem.
Estou com tanto medo de morrer que fico com raiva do bando, com vergonha de cheirar medo (uma pessoa deste tamanho!), com medo de meu ódio e ainda assim furioso o bastante para me comportar como um adulto com cria quando se defronta com um combate. A luz atinge meus olhos, me retraio todo para me esticar por completo (pernas, garras, presas, cauda) ao pular sobre um deles.
Agarro o bicho bem na barriga desprotegida (Isso vai ensiná-lo a ficar em pé em quatro patas como qualquer um, bicho pelado estúpido!, penso, triunfante) e rasgo-a com minha mão, derrubando-o no chão instantaneamente. Ele solta sangue, o cheiro me inebria ainda mais, ele empurra minhas mãos para trás, usando as dele (estranhas mãos que agarram sem arranhar) e enrola-se em mim, fazendo-nos rolar pelo chão.
Quando tento cravar minhas presas naquela pele pelada e pálida, um dos outros bichos crava algo pequeno e doloroso no fundo das minhas costas (Que tipo de garras eles têm?). Solto um rugido, ainda sem fazer a terra tremer, e viro minha cabeça, mostrando-lhe minhas presas. O bicho ao qual estou preso rasga minha barriga e eu o solto, enquanto outra daquelas garras minúsculas e dolorosas me atinge nas costas, sempre fundo. Avanço rapidamente para a água, deixando grossos rastros de sangue na terra.
Sinto outra perfuração, agora na perna, e paro abruptamente na beira d'água. Fico olhando para a corrente, formando pequenas ondas. Estou aterrorizado. Água! O pavor de qualquer pessoa, desde filhote! Não posso pular! Olho para trás. Os bichos estão correndo atrás de mim, cheirando cada vez mais a vitória e a caçada. Solto um rugido de ódio e medo, cabeça erguida.
E pulo na água.
Frio! Medo! Não posso rugir. Sinto minha cauda enrolada, meu pêlo enlameado. Bato as patas furiosamente na água, como se a golpeasse, tentando manter a cabeça erguida para poder respirar.
Durante minutos intermináveis que parecem horas, fico me debatendo na água, sendo levado pela correnteza forte cada vez mais e mais para baixo, as imagens ficam embaçadas. Meu corpo inteiro estremece com a água que bebo sem ter sede, minhas patas batem com menos força. Logo deixam de bater. Estou morto.
Vejo-me de dentro de mim. O outro me diz para me erguer, flutuar para cima. E vejo os caçadores lá embaixo, inclinados sobre a margem da corrente, tentando me ver, caudas duras apontadas para a água. Não posso resistir em tentar rasgá-los com minhas garras. Mas minhas patas passam direto por eles, como se não fossem sólidos e sangráveis. Só então me dou conta, espantado, que estou mesmo morto.
Olho para o campo do bando mais uma vez. Estou furioso. Morto e furioso. Quero atacá-los.
O outro me pergunta o que posso fazer agora. Frustrado, concordo que não é muito. Elevo-me, ouvindo o outro, e danço pelo ar, vendo minha cauda fazer um laço, maravilhada.