Vejo arcos de colunas. Lentamente, o local fica iluminado de um amarelo avermelhado pálido. Posso ver um amplo salão. O salão tem poucos móveis, sem cortinas, há linhas no chão polido de pedra clara e nas paredes lustrosas. É bem iluminado e arejado, e está quente. Enxergo alguns nichos e semicolunas perto das paredes, com vasos e esculturas. Reconheço sua origem ou procedência. São objetos ricamente decorados com gravuras de eventos antigos, mas uma inscrição imensa numa das paredes do fundo do local, atrás de uma cadeira postada num pequeno platô um degrau acima do chão, indica hieróglifos. É o Egito na Antiguidade.
Estou no centro do salão, numa roupa cerimonial muito vistosa e rica. É uma túnica longa de linho, a parte de cima amarrada a um colarinho largo decorado com jóias e bordados. Estou de sandálias baixas, e uso muitas jóias nos braços e nos dedos. Minha cabeça ostenta uma tiara de ouro com pedras pretas, meu cabelo é preto e curto, liso até a altura do pescoço, a maquiagem que uso é pesada e impecável, o kajal realça meus olhos negros grandes, redondos e brilhantes.
Posso me sentir muito poderosa. Vejo as pessoas beijarem minhas mãos e ajoelharem-se diante de mim. Sinto desprezo por eles, seres inferiores. Sou a Alta Sacerdotisa do Palácio do faraó. E quero ter ainda mais poder.
Estou sempre maquinando planos e esquemas, engendrando maneiras de obter mais e mais poder. Ele é o que me move. Por ele, eu uso as pessoas como bem entendo, ao meu bel-prazer, pois desprezo-as todas.
Posso me ver cega de ambição, um coração gelado que baba de satisfação com delírios de poder, na expectativa de expandir meus domínios sobre as pessoas - até sobre o próprio faraó. Tenho um esquema paralelo de poder. E quero mais.
Responso que me sinto sozinha, pois não sou amada, e sim temida. É muito doído saber disso. Sinto-me tão só... Tenho amantes - quantos eu queira - mas eles não me amam. Eles têm medo de mim. Eu os desprezo. Desprezo suas fraquezas e me divirto jogando-os aos crocodilos, quando me canso deles.
Uma imagem diferente me intriga. Por que estou de véu, apenas os olhos pretos e grandes descobertos, espreitando à volta? Estou disfarçada na rua, ouvindo as pessoas falarem a meu respeito. Uma velha gorda, pobre, faz fofocas com outra (horrorizada) as barbáries que faço, censurando-me. Eles me odeiam, ainda que tenham medo de mim. Mas o que estou fazendo ali?
A resposta está no Palácio. Lá estou, tramando novas maneiras de ganhar mais poder. E meu objetivo é alto: o trono. Mas há um obstáculo - a filha do faraó.
Eu a chamo de pestinha. Logo ela fará aniversário, e vai ganhar idade se tornar herdeira do trono. Eu não estou disposta a deixar isso acontecer. A única maneira seria casar-me com o faraó. Mas ele me conhece bem demais e não se deixa cair nas minhas armadilhas de sedução, ou em qualquer dos meus truques. Todos os meus esquemas falham. E em breve, a pestinha completaria a maioridade e seria declarada futura rainha.
Enfureço-me com a mera perspectiva. Grito: "Ela não será, eu prometo! Aquela pestinha não subirá ao trono jamais! Eu prometo, por Ápis, que desta vez Osiris não voltará dos reinos dos mortos!". O faraó era adorador de Osíris, e consagrou sua filha a Ísis. Eu conto com a ajuda de Set, a quem venero secretamente.
O tempo me pressiona. As festividades pelo aniversário da filha do faraó já haviam começado. Eu a invejo. Ela seria rainha, e eu não, se não fizesse algo rápido. Pensando ser o único modo de evitar que a menina subisse ao trono, eu a mato, envenenando-a.
Fujo do Palácio numa montaria, em direção a Mênfis. Meu plano estava todo traçado: eu fugiria para um reino próximo (penso em Tassalônia, Numídia ou Macedônia), esperando que as coisas se acalmassem e a segunda parte do meu plano se concretizasse. E isso seria o assassinato do próprio faraó. Eles precisariam da Alta Sacerdotisa para preparar a sucessão (eu deveria fazer sortilégios e traçar profecias). Só que eu voltaria e me coroaria. Fundaria minha própria dinastia. Seria o fim dos Ptolomeus.
Mas os guardas do faraó me perseguem em Mênfis. Eu bato nas portas, imploro para que me deixem entrar, mas ninguém me atende. Eles me reconhecem. Sabem quem eu sou. Como podem saber, aqueles ignorantes e estúpidos?! Minhas roupas, os ricos e finos tecidos me denunciam. Eu corro, mas logo sou cercada pelos guardas. Eles estão em suas montarias (parecem cavalos, não camelos) e eu estou a pé e cercada. Tenho medo. Sei que vão me matar.
Há dor no meu corpo e ódio no meu coração. Sou torturada cruelmente na prisão, acorrentada, surrada. Mantenho o meu orgulho, o ódio me dá forças para não implorar perdão nem me humilhar. Posso ver o faraó espiando por um buraco no alto da minha cela subterrânea, odiando-me silenciosamente, deliciando-se com minha dor. Não lhe dou o gostinho. Amaldiçôo a ele e todas as suas gerações, em nome de Set.
Fui devorada pelos crocodilos, lentamente, durante dias a fio, enquanto amaldiçoava cada um dos meus inimigos. Morro sem ter sequer um corpo físico. Nem isso eles me deixaram. Flutuo para o alto da cidade e deixo-me ficar lá por um tempo, contemplando a cidade e, ao longe, o Palácio - ele nunca mais seria meu. Estou triste ao olhar para todo o esplendor que eu jamais teria, as coisas que eu poderia ter e não tive. Jamais pensei nas pessoas a quem magoei.