Vejo-me dentro de uma igreja. Ainda estou meio perdida, não reconheço o lugar. Há vitrais coloridos que deixam entrar uma luz fraca. Vejo-me uma menina de 15 anos, ou menos, magra, descalça, cabelos lisos ensebados pela sujeira, coberta por trapos rústicos e suja de lama. A princípio, não sei bem quem é ela, exceto que já fui eu. Talvez, se alguém a vir, possa dizer quem ela (eu) é (sou). Mas ninguém aparece. É estranho. Deveria haver um vigário, um pároco, ao menos. Olho em volta, procurando alguém. Mas ninguém vem. Na abóbada, a imagem do teto da Capela Sistina. Mas aquele vitral da esquerda, ao lado do altar de vários andares... já vi aquilo antes.
Sou uma menina. Não me lembro de estar com fome, mas sim com frio - frio na alma, alma carente de calor. Procuro calor, calor humano.
Lembro-me das velas. Elas podem esquentar o ambiente, em enormes candelabro, mas o vigário me protege. Ele também me alimenta e cuida de mim. É lá, na igreja, que fujo da rua, da humilhação. Meu pensamento é quente: Oh, vigário... És uma alma tão boa...
Pedras atiradas contra mim, pessoas zombando e rindo de mim, uma garota suja e maltrapilha encolhida e sentada na rua de pedra fria e úmida. Jogam lama e coisas em mim, me xingam. Não resisto, não atiro as coisas de volta e tento me proteger com os braços sujos e feridos. Gostaria que parassem. Na igreja estou segura. Mas eu já fui educada, porque conheço Deus e as histórias da Bíblia, mesmo que não saiba ler. E acredito em Deus.
Outra imagem surge. É a lembrança do dia em que fui arrancada de minha casa, uma casa nobre. Havia muita confusão, correria, gritos, e eu chorava muito, estava tão assustada.
Eu era possivelmente um bebê, pois a imagem que vejo é de um braço esticado, uma voz feminina gritando, um timbre agudo de horror, sobressaindo de ruídos sobrepostos: "Leve o bebê daqui!". Eu, a bebezinha, chorei alto por não saber falar, mas minha mente soltou um urro: "Mãe!!!". Ainda posso ouvi-lo.
As imagens se sucedem rapidamente, não posso distingui-las. Paredes de pedra, muita aflição. E a próxima cena é estática. Uma mulher gorda, de touca nos cabelos, toda vestida de branco, me carrega (uma bebezinha de talvez um ano ou menos). É minha nanny - minha babá. Ela me salvou, tenho certeza. Um pergunta angustiada aparece: o que será de mim?
A explicação: meus pais eram católicos apostólicos romanos. E não gostaram que Sua Majestade negasse a Santa Igreja Católica e fundasse uma nova, uma sua, a Anglicana. Lembro-me da expressão "a Igreja Sangrenta da Inglaterra". Foram perseguidos, seus bens, confiscados. No dia em que Nanny e eu fugimos, os cavaleiros do rei atacaram nossa casa. Creio que meu pai e seus homens tentaram resistir. Mas meus pais foram presos e levados às masmorras. Não sei o que foi feito deles.
Tampouco sei o que foi feito de Nanny, ou quando nos separamos. Há um intervalo em branco desde aquele dia em que Nanny me tomou nos braços e escapamos da fúria do rei até a igreja, para onde retorno.
Sei que me queimaram na fogueira. Era mais velha, talvez 25 anos, mais ou menos.
Vejo o cativeiro - meus trapos balançam quando me debato, agarrada por duas pessoas enquanto outras, encapuzadas, me acusam de ser uma bruxa. Aos prantos, digo que não sou e que não entendo por que fazem aquilo comigo. Pergunto se é por causa de meu pai, não me respondem. Não me dizem coisa alguma, e eu afirmo que meu Pai está no céu. Grito minha crença em Deus inutilmente. Acho que é a Inquisição.
Não entendo por que me acusam de feitiçaria, ou o motivo de estar naquela cela de pedra, escura, as tochas tremeluzindo, impedindo-me de ver meus algozes. Não quero agredi-los, não sinto ódio deles. Nem penso em me revoltar, pois eles são muito poderosos. Só quero entender o motivo de tudo aquilo, que me parece tão absurdo e irreal.
Procuro me lembrar se fiz alguma coisa que pudesse ser considerada bruxaria. Nada me vem à mente. Lembro-me do terror e de rezar, rezar muito. Pedi ao Pai, alto no céu, que olhasse para mim. Eu sei que o vigário não vai aparecer. Não sei o motivo, mas sei que não vai me ajudar. E eu me sinto cansada, com o corpo formigando.
Vejo o momento de minha morte. Estou amarrada a um poste, os gravetos e troncos secos começam a queimar em labaredas tímidas. Estou em praça pública, numa tarde clara e há uma pequena multidão de aldeões brandindo pedaços de pau e foices, em delírio. Na histeria coletiva, gritam desordenadamente.
Antes zombavam de mim, jocosamente gritando o título que eu teria, se meus pais não tivessem sido perseguidos: "Milady! Milady!" Agora gritam por um assassinato cruel, exigem meu sangue. Distingo apenas uma frase no vozerio enfurecido das dezenas de pessoas enlouquecidas: "Queimem a bruxa!".
Meu choro é apenas de pura humilhação e de dor por sentir tanta injustiça contra mim. Não há ódio, nem revolta. Eu nada fiz, estou certa. Por que vão me matar? As chamas estão altas, acho que já me envolvem por completo mas eu não sinto o calor. Volto meu olhos para o céu e pergunto, num satori: "Pai, alto no céu, será que foi assim que Teu Filho se sentiu quando O mataram?".
Expiro, minha cabeça pende. A multidão entra em delírio.