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| Uma agulha no meio do caminho | ||||||||||||||
| Quando eu era ainda bem menino, gostava de rodear meu av� e ouvir suas hist�rias. E eram t�o s�bias, que fazia isto sempre que o visitava, naquela velha casa, no interior de Minas Gerais. Sent�vamos a beira do fog�o de lenha e, enquanto a lenha ardia no fogo, ele fazia seu costumeiro cigarro de palha e come�ava a narrar:... - "Certa vez, dois amigos estavam muito desanimados com as coisas da vida e souberam que andava pelas redondezas um velho s�bio, que ningu�m sabia sua origem. Assim, decidiram ir at� ele e ouvir os seus conselhos... O s�bio os ouviu com aten��o e, ap�s alguns momentos de reflex�o, disse-lhes que colocaria uma agulha naquela estrada de terra de quarenta quil�metros no meio da mata, que come�ava logo ali adiante, e que teriam a tarefa de encontr�-la. Saiu assim para realizar o que havia proposto... O primeiro amigo era um homem sensato, com os p�s no ch�o e logo entendeu que seria uma tarefa imposs�vel de realizar e n�o pensou muito para recusar a proposta do velho s�bio; n�o perderia seu precioso tempo � procura de uma agulha em lugar t�o remoto. O segundo homem, vendo a decis�o do amigo, hesitou a princ�pio, mas era um sonhador, duvidava do imposs�vel, acreditava nos seus sonhos e decidiu se por a caminho em busca da tal agulha... Procurou por todo lado; perguntou as pessoas que passavam se haviam visto a tal agulha e caminhou dias seguidos nesta busca... Alguns lhe ofereceram pousada, outros ajudaram a procurar, tomou o caf� da manh� com muitos. Brincou de roda e pique-esconde com algumas crian�as que encontrou pelo caminho e chegou mesmo a empinar o papagaio que o menino tentava sem �xito. Quando a tarde ca�a, banhava-se nas cachoeiras que encontrava a beira da estrada... E nada da agulha!... Acordava bem cedo, a tempo de ver o boiadeiro tanger o gado e andou na garupa de um deles, que lhe ensinou a tocar o berrante e, neste caminho, gostava de ouvir o som estridente do abrir das porteiras para passar a boiada. Ouviu o canto dos p�ssaros e conheceu alguns que jamais pensou que existissem, de tanta beleza. Maravilhou-se com tudo que viu e descobriu o prazer de viver. Contudo, chegou ao final da estrada, sem conseguir encontrar a tal agulha, e retornou ao s�bio para dar not�cia disso... Surpreendeu-se quando o s�bio lhe disse que, na verdade, jamais havia colocado agulha alguma no tal caminho e que, mais importante que as coisas que buscamos, s�o as experi�ncias que vivemos, no caminho que percorremos para encontr�-las". E, concluiu meu av� que, o segundo amigo havia passado pela vida e o primeiro, a vida havia passado por ele...Hoje, possso entender melhor o verdadeiro significado das suas palavras! Carlos Lucchesi *Dedico este texto �s pessoas sensatas com os p�s no chao, que procuram por asas em dias de vento. |
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