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Poeta menino, amigo meu
...Desde menino sempre foi calado, quieto; do tipo que sentava na �ltima carteira da sala de aula. Aulas de matem�tica?...Nem pensar! Seus pensamentos vagavam distantes nestas horas. Geometria era um verdadeiro horror! O que ele gostava mesmo, era ver o velho professor de literatura entrar por aquela porta, da sala de aula. Num instante seu sorriso se abria. Sentava-se ereto na cadeira, como se preparado para um momento especial. Olhos atentos, e mente reflexiva, voltados para o velho mestre. E quando ele come�ava a falar... Nossa! N�o se continha em alegria.

Da �ltima carteira, apressava-se em passar para a primeira, e ai de quem estivesse ocupando aquele lugar! Todos j� sabiam: Na aula de literatura, aquele primeiro lugar pertencia ao menino-poeta, como era chamado por todos. O mestre falava e ele ouvia, como se as palavras tivessem algum tipo de m�gica e exercessem sobre ele um feiti�o inexplic�vel. O menino-poeta, logo se apressava em anotar tudo no seu pequeno caderno: cada palavra, cada frase. Nada passava desapercebido. Nem se dava conta do final da aula, ficava l� depois que todos saiam. S� mesmo quando algu�m gritava: "Vai dormir a� menino?" � que ele voltava de sua viagem do mundo da poesia...
Ir para casa era um desafio: Os olhos pregados em suas anota��es desviavam sua aten��o dos carros que passavam quase na mesma velocidade que seus pensamentos. Volta e meia algu�m gritava: "Quer morrer seu doido?" Com sorte chegava em casa! L�, como na escola, n�o tinha muitos amigos. Podia cont�-los nos dedos de uma de suas m�os, e ainda sobrariam alguns dedos acanhados. Poucos entendiam aquele menino solit�rio que s� "batia bola" com seus livros.

Seu grande prazer era quando sua m�e lhe dizia: "Escreve menino uma carta pra sua tia". O mundo das letras era estranho a seus pais , mal sabiam escrever seus nomes, e nestas horas, era o menino que pegava l�pis e papel, sentava-se em sua cadeira preferida e por sobre a velha c�moda, suas pequenas letras pareciam bailar. Que ningu�m lhe chamasse nestes momentos; nem que fosse para comer! Sequer ouvia. Ficava l� envolvido em seus pensamentos.

Tive a sorte de ser um desses seus amigos contados nos dedos de uma das suas m�os. Sempre fomos grandes amigos na inf�ncia. Gostava dele pelo seu modo diferente de ser, e de ser capaz de falar comigo at� pelo olhar. Eu tamb�m n�o era l� estas coisas que costumam chamar de "normal". Tinha l� meus parafusos a menos!

O fato � que nos tornamos grandes amigos e dos dedos de sua m�o, passei a fazer parte do seu cora��o e ele do meu. Crescemos juntos, assim como nossa amizade. Ficava impressionado como as meninas gostavam das coisas que ele escrevia. Era admira��o mesmo! �ramos t�o ligados que ficava triste nas suas dores e me alegrava quando o via sorrir.

O tempo  passou e o menino se fez homem. O cora��o do poeta batia mais forte, era inevit�vel um amor no meio do caminho.

Ele nunca quis me dizer o nome exato dela. A chamava de Ray. S� sei dizer que aquele amor transformou o meu amigo. Ficava impressionado com a forma que ele se referia a ela. Quase que eu mesmo me apaixonei, s� de ouvir ele falar dos seus olhos cor de mel, da forma do seu caminhar e do brilho que tinha nos seus olhos. Meu amigo estava mesmo apaixonado! �timo, pensei! Seriamos tr�s nessa nossa grande amizade. Foi engano meu, isso nunca aconteceu!

O mesmo menino que eu vi crescer, de pegar o l�pis na alegria menina de escrever, parecia ter chegado em uma rua sem sa�da.

Depois disso nos vimos poucas vezes. Creio que ele at� me evitava. Talvez vergonha do amor frustrado. Sei l�!...

Mudou-se sem nem mesmo se despedir de mim. Escrevi-lhe pedindo que mandasse not�cias, e a carta voltou: "destinat�rio n�o encontrado". Tempos depois, descobri que o poeta que nunca deixou de ser menino morava aqui dentro de mim...

                                                                                    Carlos Lucchesi
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