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688 Paradouro
Segunda-feira � um dia complicado; ningu�m tem d�vida disso! Talvez o mais sensato fosse come�ar a semana numa ter�a, pra n�o cruzar com tantos rostos mal-humorados...

Era assim que eu estava naquela segunda-feira, na volta do trabalho, sentado no primeiro banco do �nibus 688 M�ier / Pavuna - Paradouro.

Estava t�o cansado pelas farras do  final de semana, que quando aquela velhinha passou pela roleta logo a minha frente, fingi estar dormindo, s� pra n�o ter que levantar e ceder o meu lugar.
Assim continuei, at� que um vendedor de bugigangas do Paraguai me acertou uma panelada na altura do joelho. E por sorte, n�o foi pouco mais acima, pois com certeza, meu mal-humor aumentaria, e em vez do Paraguai,
teria mandado ele para os quintos.

No ponto seguinte, o motorista freiou com tanta brutalidade que decidi mand�-lo para o referido  lugar, na frente do paneleiro.

- "Barbeiro", gritaram todos...Que nada! Logo entendi o motivo do descontrole do motorista. Eu devia mesmo estar dormindo e sonhando! Foi o que pensei ao ver aquela mulher maravilhosa subir os degraus do �nibus. Foi ali que entendi o verdadeiro conceito de "Mulher Avi�o": Todo mundo foi �s nuvens... Era um avi�o, dentro de um lota��o!  At� as comadres fofoqueiras silenciaram.

Dif�cil descrever aquela mulher! Corri os olhos da ponta dos seus p�s at� os fios dos seus cabelos dourados, e que cabelos! Pareciam os movimentos das ondas do mar. Os olhos, nossa! Verdes, sensuais, meio orientais, inexplic�vel mesmo; coisa de hipnotizar at� o Mandrake. Os l�bios, vermelhos feito morangos e de uma sensualidade provocante...
Um vestido t�o justo que fosse eu pintor de nudez, nem precisaria que ela tirasse a roupa!... Tudo aquilo em uma s� mulher!

Era um verdadeiro tesouro na linha 688 M�ier / Pavuna - Paradouro.

Quando ela passou pela roleta, pensei: Isso � mulher pra muitas roletadas! Mesmo com todo cansa�o que eu estava, n�o podia deixar aquele monumento de mulher de p� ali ao meu  lado...
- Quer sentar, arrisquei!
- "Obrigada", disse ela, e sentou...

Mas n�o foi uma sentadinha qualquer, n�o senhor! Sentou-se com o mesmo destaque e presen�a com que o  Queen Elizabeth atraca num porto.
Quando ela cruzou as pernas, teve gente que ia descer no meio do caminho e deixou para saltar no ponto final.

O 688 seguia, e eu tamb�m, com os olhos pregados naquela mulher.
Ela podia saltar a qualquer momento e eu tinha que arriscar uma investida qualquer; nem que fosse uma velha cantada. J� teria feito, n�o fosse esta minha incorrig�vel timidez. Mesmo assim, arrisquei:
- T� quente hoje, n�? ( a minha reputa��o foi para o espa�o depois dessa     cantada!) Ela apenas balan�ou a cabe�a, sem dizer nenhuma palavra.

Quando o motorista freiou bruscamente e tombei levemente sobre ela, quase que me arrependi de ter mandado ele para os quintos, na vez anterior.
Que pele macia! Sem falar no perfume, que me fazia esquecer os odores contr�rios quem vinham de outros passageiros,

Ficava torcendo para o motorista dirigir devagar s� pra ter mais tempo de reiniciar o di�logo... Tinha que me decidir, pois a qualquer momento ela saltaria e a linha 688 ficaria sem aquele monumento.

Para minha tristeza, foi o que aconteceu: Dois pontos ap�s, ela puxou o sinal e para desespero de todos, desceu. Sentei no mesmo lugar, ainda quente pelo calor do seu corpo. N�o podia ter deixado que ela se fosse assim...

Quando de tristeza baixei a cabe�a, notei que naquele banco que eu cedi o lugar, ela havia deixado escrito o n�mero do seu celular.

J� teria ligado, n�o fosse essa minha incorrig�vel e inexplic�vel timidez...


                                                                                          Carlos Lucchesi
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