O GRITO MAIS URGENTE NA AGENDA DA NAÇÃO!
Cosete Ramos (adaptação)
O filho comete uma, duas,
três pequenas faltas.
O Pai sabe. A mãe e os
filhos, também.
A família se cala. A família
consente
O aluno comete um, dois, três
pequenos deslizes.
Os colegas sabem. Os
professores e a direção também.
A escola se cala. A escola
consente.
E lá se vão os valores
educacionais...
O jovem cidadão comete uma,
duas, três infrações menores.
Os membros da sociedade
sabem.
A sociedade se cala. A
sociedade consente.
E lá se vão os valores
sociais.
Afinal, quais são os
limites? Tudo é permitido? “É proibido proibir?”
Até onde é possível ir?
Vamos experimentar novas emoções?
Que tal beber “quentão” na
festa Junina da escola? Que sensação!
Tudo bem podemos ir em
frente.
Nada aconteceu
E agora? Como vamos
aprontar? Qual a próxima emoção?
Apostar uma “pegadinha” no
carro do papai?
Que liberdade!
(Nas conversas em família e
com amigos todos comentamos as peripécias do adolescente: um verdadeiro ás no
volante.)
Tudo bem. Podemos continuar.
Nada aconteceu.
E hoje? Qual a emoção do
dia? O que fazer para passar o tempo?
Jogar ovo nos transeuntes?
Que massa!
Mostrar o “bumbum” pela
janela do carro?
Que massa!
Pichar as paredes do bloco?
Que sacanagem com os vizinhos!
Puxar um “baseado”? Que
êxtase!
Quebrar os “orelhões da
Telebrasília?”
Bom também!
Dar tiros nas placas de
trânsito?
Melhor ainda!
Tudo bem. Podemos avançar
mais. Nada aconteceu.
E nesta madrugada? É preciso
uma emoção diferente, a maior de todas!
Qual? Olha ali, um mendigo
deitado, dormindo na parada de ônibus!
Vamos comprar álcool e fazer
uma pequena fogueirinha?
Só quero ver o pulo que o
cara vai dar.
Um fala. Os outros calam.
Todos consentem!
Um ser humano vira tocha
para despertar novas emoções nunca vividas.
Experimentadas, por cinco
jovens da classe média de Brasília, jovens que tudo têm, em um país no qual a
maioria não tem!
Um ser humano vira tocha
para iluminar e tornar público o rosto de jovens que há muito tempo haviam
perdido a capacidade de amar.
Ou, quem sabe, jovens que
nunca haviam aprendido a amar verdadeiramente.
E, não sendo capazes de amar
a si próprios, como ensina Cristo, também não são capazes de amar a seu
próximo, não importando credo, cor, raça, ou, muito menos ainda, condição
social!
A família estava calada. A
família consentiu.
A escola estava calada. A
escola consentiu.
A igreja estava calada. A
igreja consentiu.
O governo estava calado. O
governo consentiu.
A sociedade estava calada. A
sociedade consentiu.
O momento do martírio
acordou todos os que dormiam.
Até quando nos manteremos
calados?
Estamos sendo “firmes” com
nosso filhos?
Estamos vivendo a frase do
“é proibido proibir”?
Estamos satisfazendo todas
as vontades de nossos filhos? O que ele vai desejar amanhã? Será que seremos
capazes de alcançar?
Nossos filhos nos ouvem ou
apenas nós os ouvimos?
Eles sabem lidar com a
frustração?
Será que sabem sair em busca
de seus objetivos ou estão sempre nos esperando?
Será que isto é educar?
“Na primeira noite eles se
aproximam e colhem uma flor de nosso jardim e não dizemos nada. Na segunda
noite, já não se escondem. Pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos
nada. Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos
a lua e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não
dissemos nada, já não podemos dizer nada”.
Maiakovski