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Bruna Lombardi | |||
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Cora Coralina | |||
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Clarice Lispector | |||
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Cec�lia Meireles | |||
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Elisa Lucinda | |||
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Helena Monteiro | |||
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Rachel de Queiroz | |||
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Florbela Espanca | |||
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Silvia Schmidt | |||
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Virg�nia Schall |
Uma mulher
(Bruna Lombardi)
Uma mulher caminha nua pelo quarto
� lenta como a luz daquela estrela
� t�o secreta uma mulher que ao v�-la
nua no quarto pouco se sabe dela
a cor da pele, dos p�los, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne � mais branca
uma mulher � feita de mist�rios
tudo se esconde:
os sonhos, as axilas, a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela est� agora
o homem que descobre uma mulher
ser� sempre o primeiro a ver a aurora.
N�o sei...
(Cora Coralina)
N�o sei... se a vida � curta ou longa demais para n�s.
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se n�o tocarmos o cora��o das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
bra�o que envolve,
palavra que conforta,
sil�ncio que respeita,
alegria que contagia,
l�grima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.
E isso n�o � coisa de outro mundo:
� o que d� sentido � vida.
� o que faz com que ela n�o seja nem curta, nem longa demais,
mas que seja intensa, verdadeira e pura...
enquanto durar.
A Lucidez Perigosa
(Clarice Lispector)
Estou sentindo uma clareza t�o grande
que me anula como pessoa atual e comum:
� uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um c�lculo matem�tico perfeito
do qual, no entanto, n�o se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e n�o me alcan�o.
Al�m do que:
que fa�o dessa lucidez?
Sei tamb�m que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- j� me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa di�ria
e permanente acomoda��o
resignada � irrealidade -
essa clareza de realidade
� um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela n�o me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos poss�veis.
Eu consisto,
eu consisto,
am�m.
Motivo
(Cec�lia Meireles)
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida est� completa.
N�o sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irm�o das coisas fugidias,
n�o sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permane�o ou me desfa�o,
� n�o sei, n�o sei. N�o sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a can��o � tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
� mais nada.
Aviso da Lua que
Menstrua
(Elisa Lucinda)
Mo�o, cuidado com ela!
H� que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira �s avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, mo�o
�s vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade leg�vel, metade sereia
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que � o mesmo lugar
mas � outro lugar, a� � que est�:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita...
Sua boca maldita n�o sabe que cada palavra � ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
T� acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no pr�ximo m�s.
Cuidado mo�o, quando c� pensa que escapou
� que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
� que t� falando na "vera"
conhe�o cada uma, al�m de ser uma delas.
Voc� que saiu da fresta dela
delicada for�a quando voltar a ela.
N�o v� sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos...
�s vezes pela ponte de um beijo
j� se alcan�a a "cidade secreta"
a Atl�ntida perdida.
Outras vezes v�rias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, mo�o, por voc� ter uma cobra entre as pernas
cai na condi��o de ser displicente
diante da pr�pria serpente.
Ela � uma cobra de avental.
N�o despreze a medita��o dom�stica.
� da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofia
cozinhando, costurando
e voc� chega com a m�o no bolso
julgando a arte do almo�o: Eca!...
Voc� que n�o sabe onde est� sua cueca?
Ah, meu c�o desejado
t�o preocupado em rosnar, ladrar e latir
ent�o esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E a� quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
S�o duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que voc� tem pra falar de vaca?
O que voc� tem eu vou dizer e n�o se queixe:
VACA � sua m�e. De leite.
Vaca e galinha...
ora, n�o ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
�vulo, ovo e leite
pensando que est� agredindo
que t� falando palavr�o imundo.
T�, n�o, homem.
T� citando o princ�pio do mundo!
Ao Mestre
(Helena Monteiro)
(apenas e sempre Fernando Pessoa)
eu...
qual eu?
como eu se n�o existo?
sou um �tomo apenas
uma conjuga��o de factores
agregadores
eu?
onde?
na outra ou em mim?
eu plenipotenci�ria
de mim mesma
criadora e n�o autora
contudo, sonhadora
vision�ria
n�o do V Imp�rio
mas do mist�rio
que h� em mim e na outra.
Telha de Vidro
(Rachel de Queiroz)
Quando a mo�a da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
T�o velha!
Quem fez aquela casa foi o bisav�...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, t�o escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua �nica portinha...
A mo�a n�o disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...
Agora,
o quarto onde ela mora
� o quarto mais alegre da fazenda,
t�o claro que, ao meio-dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que � coitados � t�o velhos
s� hoje � que conhecem a luz do dia...
A luz branca e fria
tamb�m se mete �s vezes pelo clar�o
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a mo�a se penteia.
Que linda camarinha! Era t�o feia!
� Voc� me disse um dia
que sua vida era toda escurid�o
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clar�o...
Por que voc� n�o experimenta?
A mo�a foi t�o bem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!
Ser Poeta
(Florbela Espanca)
Ser poeta � ser mais alto, � ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
� ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aqu�m e de Al�m Dor!
� ter de mil desejos o esplendor
E n�o saber sequer que se deseja!
� ter c� dentro um astro que flameja,
� ter garras e asas de condor!
� ter fome, � ter sede de Infinito!
P�r elmo, as manh�s de oiro e de cetim...
� condensar o mundo num s� grito!
E � amar-te, assim, perdidamente...
� seres alma, e sangue, e vida em mim
E diz�-lo cantando a toda a gente!
Voc� N�o Percebeu?
(Silvia Schmidt)
Voc�, que sempre esteve t�o por perto,
Buscando decifrar meus sentimentos,
Tentando adivinhar meus pensamentos,
Sondando sutilmente o meu deserto...
Voc�, parto de dores, de tormentos,
Que tanto assediou do jeito incerto
Um mundo que julgava estar aberto
Aos seus ruidosos e invasores ventos...
N�o percebeu que eu vinha de outra terra,
Sem espa�o algum para quem berra
Palavras ado�adas com veneno?
Siga o seu rumo... o meu � diferente...
V� sob o sol, caminhe com sua gente...
Perten�o � noite... deixe-me ao sereno...
Poema Por Um Amor
(Virg�nia Schall)
Pouso meu olhar
v�o rasante
sobre a noite
e oferto meu ser
�s estrelas
a brisa t�nue
toca minha face
ef�mera
e colhe c�lida
o meu amor
eterno
Sou inteira flor
meus l�bios
p�talas
desabrocham beijos
na imagem ausente
de tua boca
terna
meu desejo
perfume
exala em orgasmo
a mem�ria
de teu corpo
enluarado
Calo meu olhar
e guardo a noite
por dentro
sonho:
enfim te encontro