Transnacionalidade e o discurso
da mídia nacional: brasileiros lá fora
No
título já deixei claro meu intuito de falar sobre brasileiros no exterior sob o
ponto de vista da mídia nacional, ou seja, estou me propondo a analisar as
imagens que essa mídia divulga sobre os nossos conterrâneos que mais
destemidamente decidiram se lançar pelas fronteiras desse mundo globalizado.
Este artigo, portanto, insere-se nas discussões acerca de um dos fenômenos
constitutivos da nossa modernidade, as migrações transnacionais. O termo transnacionalismo origina-se
do reconhecimento dos cientistas sociais de que relativamente poucos imigrantes
internacionais renunciam inteiramente á cultura e á sociedade de suas nações de
origem, mantendo com elas várias formas de vínculo (Mitchell,
2003). Tipos de conexão transnacional incluem: viagens periódicas entre a
sociedade de origem e as nações receptoras, comunicação por telefone, carta,
fita de áudio e vídeo, remessas de dinheiro e bens para as famílias, associação
ativa em organizações ou o empreendimento de negócios que abarcam fronteiras
internacionais e/ ou recepção de mensagens persuavisas
de organizações (incluindo governos) que desejam estimular relações trasnacionais.
Alguns
autores têm dedicado-se a análises sobre transnacionalidade,
embora não necessariamente sob este título. Dentro da lingüística van Dijk (1997, 2000) tem sido um
dos pioneiros. Ele aborda o tema a partir de como a mídia européia posiciona-se
sobre a questão dos imigrantes na Europa e outras minorias étnicas. O trabalho
do autor concentra-se basicamente na questão do racismo contra esses grupos e
na mediação dos meios de comunicação como um dos agentes dessa construção. Meu
objetivo aqui será usar o modelo de análise do autor para investigar como a transnacionalidade, localizando especificamente as
migrações de brasileiros, está sendo abordada em termos discursivos pela mídia
impressa nacional. Reconhecendo o poder estruturador do discurso nas práticas
sociais, e o papel dos meios de comunicação na definição e circulação de tipos
de discurso, vou examinar que imagens estão sendo construídas e repassadas
sobre nossos transmigrantes, como as identidades
sociais desses sujeitos são representadas e que recursos lingüísticos são usados
nessas representações.
A
fim de delimitar meu campo de análise, procurei escolher entre os
representantes da mídia impressa brasileira três referenciais específicos com
base na sua abrangência e respeitabilidade em nível nacional e regional. Assim,
minha opção foi pelo jornal Folha de São Paulo, a revista Veja e o jornal
regional goiano, O Popular. Este último entra em minha lista pelos interesses
acadêmicos pessoais que tenho com relação ao fenômeno da migração naquele
estado, que por sinal, está se tornando uma das principais regiões brasileiras
de onde partem nossos conterrâneos rumo ao exterior. Também fiz uma delimitação
quanto ao período das publicações e, decidi investigar o problema numa
perspectiva bem recente. Para isso fiz um recorte dos últimos seis meses de
publicações, entre janeiro e junho de 2004. Esses limites me deram um volume
total de 19 artigos. O modelo proposto por van Dijk prevê nove categorias de análise: apresentação,
freqüência, tamanho, temas, estrutura temática, papéis de ator, significado
local, estilo e perspectiva. Minhas análises procuram seguir a mesma seqüência,
sendo inicialmente introduzidas por uma descrição rápida sobre os contextos que
geraram as notícias.
Contextualização
3.1
Apresentação,
freqüência e tamanho
A apresentação diz respeito à estrutura da aparição e das propriedades visuais que influenciam em sua percepção, como situação da página, diagramação, tamanho dos títulos, fotos, desenhos, gráficos e o próprio tipo de texto midiático. Como já introduzi mais acima, a mídia nacional tem dedicado pouco espaço ao tema das migrações brasileiras nos últimos seis meses. O volume de notícias que pude detectar nos três meios investigados teve uma média de um a dois artigos por mês. Eles aparecem maciçamente no corpo interno dos periódicos e apenas quatro deles tiveram uma chamada na primeira página. O tamanho médio dos artigos, curiosamente, é acima de 400cm2, o que se aproxima a uma página como esta, com espaçamento e fonte menores. Parece que a imprensa compensa a pouca freqüência do tema com coberturas mais extensas, porém, esporádicas. Alguns artigos apresentam fotos, como é o caso dos brasileiros deportados dos EUA em fevereiro na revista Veja, onde aparecem de cabeça baixa, sentados, aguardando o desembaraço policial antes de embarcarem. Também aparecem num outro artigo da mesma revista na chegada ao Brasil, onde são recebidos calorosamente por seus familiares. Nos artigos de O Popular e da Folha de São Paulo há algumas fotos com rostos de imigrantes prestando depoimentos de suas experiências, sempre homens na faixa dos trinta anos, com um aspecto cansado ás vezes sofrido. Neste último jornal aparece também uma foto dos deportados na ocasião de chegada ao Brasil, também sendo recebidos por seus familiares.
3.2
Tema e
estrutura temática
van Dijk define os
temas como uma estrutura discursiva de nível global, uma macroestrutura
semântica, diferente do nível local, o das palavras ou frases. Os temas
expressam a informação mais importante do texto e formam uma estrutura temática
de hierarquias que reside no resumo do texto. O título e o primeiro parágrafo
dos artigos expressam esse resumo. Pesquisas mostram que a eficácia da
informação pode estar nessa organização entre título e início de artigo, as
pessoas tendem a se lembrar melhor da informação temática. Vou analisar os
temas mostrando primeiro alguns títulos:
Imigrante de Goiás morre ao entrar nos EUA
RAFAEL CARIELLO
Folha de S. Paulo. 10/06/2004.
Reino Unido lança campanha
sobre imigração
Folha
de S. Paulo. 19/04/2004.
THIAGO
GUIMARÃES
Folha
de S. Paulo. 01/02/2004
THIAGO
GUIMARÃES
Folha de S. Paulo. 28/01/2004.
Repatriados levam 7 horas
para prestar esclarecimentos à PF em MG
THIAGO GUIMARÃES
Folha de S. Paulo. 28/01/2004.
ANDRÉ
SOLIANI
Folha de S. Paulo.
10/01/2004
Brasileiros presos nos EUA
devem começar a retornar no fim do mês
Folha de S. Paulo.
09/01/2004.
O fim do sonho americano
A aventura e o sofrimento dos brasileiros
que tentam ingressar clandestinamente em
território americano
Emigração
Revista Veja. Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004
Revista Veja. Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004
Goiás é líder na migração
para os EUA
Carla Borges
O Popular. 02/02/2004
Brasileiros deportados dos
Estados Unidos chegam ao Brasil.
O
Popular. 03/03/2004.
Brasil e Portugal negociam
solução para questão de imigrantes ilegais
O
Popular. 13/02/2004
O
popular. 09/06/2004
EUA alerta sobre aumento de mortes de imigrantes ilegais
O
popular. 23/05/2004
Esses
títulos, como se pode constatar, destacam principalmente o tema da ilegalidade.
A deportação e o perigo de morte são também temas recorrentes, mas eles se
explicam melhor diante do que já falei mais acima, a questão de esses artigos
estarem diretamente ligados aos fatos que os geraram como notícia. Também é
visível um componente de desilusão associado ao “sonho americano”.
Os temas
sustentam estruturas temáticas que, segundo van Dijk, revelam abstrações e generalizações que nos induzem à
formação de conceitos e juízos sobre os sujeitos envolvidos, são formulações do
tipo: eles cometem delinqüência, se drogam, necessitam de ajuda, protestam
contra a política do governo. Por sua vez, essas mesmas abstrações podem ser
desmembradas em níveis ainda mais profundos: eles causam problemas, nunca estão
satisfeitas, as autoridades as ajudam etc. Vejamos que estruturas temáticas
puderam ser detectadas nos artigos, vou usar alguns trechos retirados dos
primeiros parágrafos de alguns textos para ilustrar minha análise:
A cena de uma balsa cheia de cubanos miseráveis flutuando em águas americanas é a imagem mais conhecida do descompasso entre pobres e ricos, entre a ilusão e o desespero. No sul dos Estados Unidos, explodiu no ano passado uma versão brasileira dessa migração. (Revista Veja, Emigração, 04/02/2004)
Os brasileiros estão entre os campeões em falsificação de documentos e em prisões de imigrantes que tentam entrar ilegalmente nos Estados Unidos pela fronteira do México, afirma o cônsul norte-americano em Brasília, Peter Kaestner. (Folha de São Paulo, Solani, 10/01/2004)
Mais um grupo de imigrantes brasileiros deportados dos Estados Unidos desembarcou no final da manhã desta quarta-feira no Aeroporto Internacional de Confins, em Belo Horizonte. São 251 imigrantes que estavam detidos nos presídios de Boston, Houston e em cidades da fronteira dos Estados Unidos com o México. Mais de 60% dos imigrantes são de Minas Gerais. (Jornal O Popular, 03/03/2004)
Essas pequenas amostras, envolvendo um mesmo tema, denunciam o tipo de construção que está sendo associada aos imigrantes: eles são pobres; a maioria de Minas; buscam cegamente, como num sonho, uma condição melhor de vida; os EUA são o seu alvo principal; para alcançarem esse objetivo transitam pelas vias da ilegalidade, falsificam documentos; arriscam suas vidas na fronteira do Mexico e EUA; tornam-se alvos de perseguição das autoridades estrangeiras e acabam presos e deportados. Em conformidade com os resultados de van Dijk, percebe-se aqui toda uma seqüência de associações negativas.
3.3
Atores e
papéis
Este
tópico trata basicamente de duas questões: quem são os representantes da
categoria de análise, neste caso os imigrantes brasileiros, e que papéis
desempenham junto com outros atores nas informações da mídia. O tópico anterior
já esboçou o perfil que a mídia vem traçando desses sujeitos, mas agora, neste
espaço, vou detalhar com mais propriedade todo um conjunto de relações que se
inserem, conforme Fairclough (2001), nas funções
relacional e de identidade da linguagem. O autor explica que essas funções
seriam um desdobramento da função interpessoal, estando ligadas às formas “como
as relações sociais são exercidas e as identidades sociais são manifestas no
discurso” (Fairclough, 2001, p.175). Para isso, vou
examinar primeiro como os meios de comunicação citam esses oradores ou se
referem a eles como pessoas que manifestam opiniões e atos. Em seguida, vou
levantar quem são os atores coadjuvantes desses indivíduos no discurso e como
são representadas as relações entre eles.
Respondendo
à primeira questão, os sujeitos dos discursos são sempre os jornalistas, que
falam sobre os imigrantes. Há alguns exemplos de narrativas, mas o narrador é o
jornalista que se autoriza a falar das experiências
de imigrantes, quase sempre a partir de seus depoimentos. Em apenas dois dos
textos examinados pode-se encontrar a fala desses sujeitos em recortes de
depoimentos, mas, de forma fragmentada e intercalada com a fala do jornalista,
sobre quem recai o poder de escolha dos trechos e de sua manipulação no artigo:
Bruno recebeu um colchonete, não podia tomar banho e as refeições se limitavam a três sanduíches por dia. Separados na prisão, os dois nunca mais se viram. Sueli foi liberada pela imigração. Ele, enviado a Florence, a 100 quilômetros de distância. "Tenho medo de entrar em depressão. Aqui na cadeia, nosso pensamento não anda, vai e volta para o mesmo lugar", diz. (Revista Veja, Emigração, 04/02/2004)
Para o representante comercial Renato Queiroz Bispo, 39, paulistano do bairro de Itaquera (zona leste), a aventura de tentar ganhar a vida nos Estados Unidos não se repetirá. "Não volto nunca mais para lá." (Folha de São Paulo, Guimarães, 28/01/2004)
A
atuação do jornalista é representada de forma neutra, ele não emite opinião
pessoal, não faz críticas diretas, é uma espécie de repetidor do fato. Uma
estratégia notada em alguns textos é a intercalação de vozes de estudiosos do
assunto, em um tipo de intertextualidade com o discurso acadêmico que reveste
as informações de conotações científicas, o que é um artifício de legitimação:
A saga de brasileiros que tentam entrar
ilegalmente nos EUA a partir do México começa em geral pela existência prévia
de redes de parentesco ou de amizade em território americano, diz a socióloga
Teresa Sales, 58, do Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de
Campinas. (Folha de São Paulo, Rondon, 01/02/2004)
Nos últimos três anos, Goiás consolidou-se como o Estado brasileiro do qual sai o maior contingente de migrantes ilegais para os Estados Unidos, seguido do Mato Grosso e Paraná. O crescimento no número de goianos em busca do sonho do eldorado americano ocorreu na mesma proporção em que caiu o número de mineiros nesta situação (Minas Gerais já foi líder nesse processo de migração). A conclusão é do professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e professor visitante da Universidade de Colúmbia, em Nova York, José Carlos Sebe Bom Meihy, que há cinco anos pesquisa o tema. O resultado da pesquisa chegará às bancas em março, com o lançamento do livro Brasil Fora de Si, pela Editora Parábola, de São Paulo.(O Popular, Borges, 02/02/2004)
Quanto
à segunda questão, sobre os atores nos textos da mídia, decidi listá-los
ordenadamente e esclarecer suas relações mútuas. Uma referência recorrente
quando o texto trata da entrada ilegal dos brasileiros nos EUA pelo México são
os “coiotes”, espécies de guias mexicanos que cobram para atravessá-los pela
fronteira. Eles são corruptos e inescrupulosos. A relação dos brasileiros e
esses atores é representada como um misto de cumplicidade e dependência, na
qual os imigrantes são quase sempre explorados e enganados.
Em alguns casos, incentivados por amigos e familiares nos EUA, entram em contato com representantes dos coiotes (traficantes de imigrantes), por telefone, no México, e são informados sobre o preço a ser pago (entre US$ 3.000 e US$ 10 mil) para a travessia. (Jornal O popular, Goiano, 09/06/2004)
Na tentativa de cruzar a fronteira pela cidade mexicana de Cananéia, o representante comercial relatou ter presenciado estupros praticados por "coiotes" (traficantes de imigrantes).(Fonha de São Paulo, Guimaães, 28/01/2004)
Alguns atores constituem uma categoria específica, como as autoridades. Basicamente eles são policiais, políticos ou funcionários do governo, mas agrupam-se por nacionalidade: autoridades brasileiras, mexicanas, americanas e européias, sendo estes últimos pouco referidos. Os recortes abaixo vão demonstrar as configurações em torno desses elementos:
Lá, Bruno foi preso pela imigração mexicana. Ficou detido com a mulher e só saiu depois que contratou um advogado. "Ser preso por um policial mexicano é muito pior do que pelos americanos. Os mexicanos são corruptos, humilham e maltratam a gente." (...) Em seu relatório de viagem, o senador Marcelo Crivella ressaltou ter encontrado brasileiras presas como criminosas comuns. Mas, felizmente, não é a regra. As cadeias para os imigrantes ilegais são confortáveis se comparadas com as prisões brasileiras. A de Florence, por exemplo, mesmo lotada, oferece cama a todos os detentos. Os presos recebem roupa limpa e sapatos, tomam banho e fazem pelo menos três refeições por dia. Podem ver TV, têm acesso a uma área de recreação com campo de futebol, mesas de pingue-pongue e aparelhos para musculação. A cadeia está sempre limpa e há atendimento psicológico, médico e dentário com equipamentos de primeira linha. (Revista Veja, Emigração, 04/02/2004)
Graham Leese, consultor do
Serviço de Imigração Britânico, visita o Brasil no lançamento da campanha
"Fique por Dentro, Não Fique de Fora", que alerta os brasileiros
sobre os perigos de permanecer ilegalmente no país. (Folha de São Paulo, Reino,19/04/2004)
Esses
trechos evidenciam que mexicanos são expressamente corruptos e violentos;
americanos são mais compreensivos e benevolentes; os brasileiros zelam
burocraticamente pela segurança dos imigrantes e o consultor britânico
limita-se a alertá-los sobre os perigos da migração. Essas são generalizações
simplistas, mas que insinuam os tipos de relações associadas a esses grupos.
Por
fim, um último grupo de atores é representado pela família. São esposos,
filhos, pais, irmãos ou outros parentes saudosos e preocupados com seus
familiares imigrantes ou com quem estes compartilham as mesmas vicissitudes da
jornada migratória.
3.4
Significado
local, estilo e perspectiva
Estas
últimas categorias dirigem-se á pergunta: como os temas fazem sua aparição
proeminente em nível local de significado e estilo? Nos trabalhos de Van Dijk ele detecta negatividade
com o uso freqüente de palavras que denotam conflito como ódio, briga, luta,
crise, seguidas de outras que indicam controle como corte, pára, proibição,
censura etc. Também há uma prevalência de palavras que denotam violência, como
assassino, matar, distúrbio, disparo, queimar, massacre. Finalmente,
detectam-se palavras que se associam a delinqüência e atos ilegais, prisão,
cárcere, polícia, detenção, entrada ilegal, roubo etc. Meu rol de palavras
levantadas aqui também vai testemunhar aquela associação negativa sobre a qual
já falei no início. Fiz uma pequena análise quantitativa desses dados para
melhor expô-los, assim, meu rol inclui em primeiro lugar a palavra ilegal e
seus derivados, ilegalidade, ilegalmente etc. Ao todo ela aparece 32 vezes. As
palavras preso, prisão, cárcere, cadeia, detido e associadas também são
freqüentes (vinte e cinco vezes). Em seguida, por volta de quinze vezes, vem a
palavra morte e derivados. Falso, falsificação aparecem associadas a documentos
e passaporte numa freqüência de seis vezes. Numa média de oito a dez aparições
seguem perigo, medo, expulso, deportado. Mais esporadicamente vêm agonia,
humilhação, constrangimento e sonho desfeito. Aqui encerra-se a lista lexical
que sustenta as imagens negativas dos nossos transmigrantes
reforçadas por todos os outros elementos analisados.
Refletindo sobre os
resultados
A
principal tarefa da Análise de Discurso Crítica é desvendar as questões
ideológicas e de poder que se embutem pelas vias discursivas e que servem a
interesses bem específicos. Uma das premissas dessa teoria é a implicação mútua
entre discurso e prática social, em uma relação de reciprocidade na qual tanto
a prática social determina um discurso quanto um discurso determina uma
prática. Direcionando esses conceitos ao meu objeto de estudo, quero argumentar
que o discurso sobre nossos imigrantes, vinculado pela mídia nacional, não
expressa, por um lado, uma verdade derivada da observação neutra daqueles que o
promovem, assim como também, por outro lado, não é uma construção totalmente
forjada nesses meios. Todos os fatos noticiados pela imprensa realmente
aconteceram, assim como muitas das construções temáticas fazem parte das narrativas
dos próprios imigrantes em outros contextos. Mas, é preciso atentar para o fato
de que a atenção da mídia é guiada por determinadas escolhas. Num trabalho
anterior (Freitas, 2003), no qual analiso textos de um jornal bilíngüe de
imigrantes brasileiros nos EUA, demonstro que há toda uma articulação dos
editores quanto às escolhas dos temas e sua aparição. Aspectos comumente
associados aos brasileiros nos EUA, como sensualidade e exuberância, não são
estimulados nesses jornais. Da mesma forma, não foram traduzidos os artigos
sobre o inquérito de Celso Pita, nem o brasileiro acusado de pena de morte nos
EUA, a falta de segurança na Internet no Brasil, etc. É como se esses assuntos
fizessem parte de um cenário doméstico mais íntimo sobre o qual o olhar dos
“outros”, logicamente “eles”, os norte-americanos, não devesse se voltar. A
escolha dos temas está diretamente relacionada com os perfis identitários que se quer propagar.
Ao
contrário de como os imigrantes são representados na grande imprensa, os jornais
de imigrantes preocupam-se com a difusão de conotações positivas, ao invés de
negativas. Seus textos enfatizam o compromisso dos brasileiros com os seus
deveres e obrigações como moradores locais e com seus empreendimentos. É
marcante a quantidade de artigos sobre o sucesso dos comerciantes brasileiros e
suas realizações junto à comunidade com os eventos que promovem. Esses jornais,
cujos editores são eles próprios imigrantes, têm feito escolhas de fatos
noticiáveis com base em outras tendências que não as da grande imprensa
mundial, incluindo aí os nossos meios nacionais. Assim, os jornais de
imigrantes brasileiros nos EUA têm representado a si mesmos sob um perfil de um
povo essencialmente trabalhador, ao invés de sofrido.
Esse
contraste, que tentei mostrar entre as formas de representação da realidade,
deixa claro que os engajamentos dos jornalistas com certos valores ideológicos
vão determinar suas escolhas na forma de representar a realidade. Assim, não é
totalmente por acaso que dividimos com a mídia internacional visões tão
aproximadas sobre esse aspecto da transnacionalidade,
mesmo quando ocupamos posições tão assimétricas no cenário mundial. Ao nos
posicionarmos frente a nossos imigrantes, vendo-os como figuras desajustadas,
compactuamos com a lógica desigual da globalização. Uma lógica na qual a
mobilidade de trânsito de mercadorias, informações e pessoas pelas fronteiras
“abertas” desse novo mundo submete-se a relações de poder que, na realidade,
controlam e cerceiam esses movimentos. Como afirma Santos (2004), existe, por
um lado, uma classe capitalista transnacional que efetivamente controla e
transforma o fluxo global a seu favor. Há, por outro lado, classes e grupos
subordinados, como os trabalhadores migrantes, que nas duas últimas décadas têm
efetuado movimentações transfronteiriças, mas que não
controlam com soberania esses cruzamentos transnacionais. O exame dos artigos
publicados nos últimos seis meses nos periódicos aqui analisados não se
articulam de forma a desmascarar tal realidade.
Referências:
FAIRCLOUGH, N. Discurso
e mudança social. Brasília: UNB.2001.
FREITAS, L. G. Tradução e formação de identidades: a relação
entre as traduções num jornal bilíngüe nos EUA e a formação de uma nova
identidade do imigrante brasileiro. In:
AGUIAR, O. B. (org.) Tradução: fragmentos de um diálogo.
Goiânia: SEGRAF-UFG. 2003. p. 105-126.
MITCHELL, C.
Perspectiva comparada sobre transnacionalismo entre
imigrantes brasileiros nos Estados Unidos. In: MARTES, A. M. B.; FLEISCHER, S. Fronteiras
cruzadas. Etnicidade, gênero e redes sociais. São
Paulo: Paz e Terra. 2003. p. 33-50.
SANTOS, B. S. As
tensões da modernidade. Antroposmoderno. Disponível em: http://antroposmoderno.com/textos/astensoes.shtml
. Acesso em maio de 2004.
VAN DIJK, T. A. Racismo mediatizado. El papel
de los medios de comunicacíon en la reproduccíon del racismo. In: ________, Racismo y análisis crítico de los medios. Barcelona:
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VAN DIJK, T. A. On
the analysis of parliamentary debates on immigration. In: REISIGL, M.; WODAK, R.
(Eds.) The semiotics of racism. Approaches to critical discourse
analysis. Vienna: Passagen Verlag,
2000, p. 85-103.