Profa. Lúcia Gonçalves de Freitas (UEG-
Jaraguá)
Resumo:
Análise do papel que as traduções nos jornais bilingües podem desempenhar na formação de uma nova identidade entre os imigrantes brasileiros nos EUA.
Abstract:
This article deals with the role that
translation in bilingual newspapers can play in the construction of a Brazilian
immigrants’ new identity in the USA.
A visit to land of THEM [1]
All good people agree,
And all good people say,
All nice people, like Us,
are We,
And Everybody else is They:
But if you cross over the
sea,
Instead of over the way,
You may end by (think of
it!) looking on We
As only a sort of They
Louise Damen.
Ao
longo da história, foram muitos os legados deixados pela tradução.
Contraditoriamente, o reconhecimento de seu importante papel, nas mais
diferentes áreas da atuação humana, só há pouco tempo veio à tona, tomando
impulso nos crescentes estudos da área e na ampliação do campo de pesquisa.
Essa recente ascensão do status da
disciplina teve, na década de 1950, um marco inicial, quando o aperfeiçoamento
dos computadores, aliado ao desenvolvimento das gramáticas universais, fez
surgir uma teoria geral da tradução com a finalidade de concretizar o sonho da
máquina de traduzir (Aguiar, 2000 p.12). Todavia, é somente na década de 1980
que a disciplina passa a ter um caráter autônomo e substancial nas academias.
Foi nessa época que o pós-modernismo e o questionamento da originalidade dos
textos e da autoria trouxeram uma nova fase para a tradução. A partir daí,
correntes de pensamento bastante específicas se sobrepõem, revezando-se no campo
dos estudos e ampliando o espaço de pesquisa.
O que prevaleceu antes dessa fase próspera, no entanto, foram tempos de generalizado preconceito cultivado na cultura ocidental. Com a exceção das personalidades que praticavam a tradução, ou que dela se utilizavam, pairou uma visão marginal dos tradutores como meros transportadores neutros, mas de alto risco, de significados de uma língua para outra. Tal acepção deve sua origem a uma arraigada tradição logocêntrica, baseada na crença do significado inerente ao texto, anterior a qualquer interpretação e contexto, que é intencionalmente depositado por um autor dentro de um revestimento seguro, a letra, resistente ao tempo e a tudo, e que será plenamente resgatado por um leitor atento. Pela ótica logocêntrica o texto carregaria incondicionalmente um significado latente, independente e exterior ao sujeito que o lê, para o qual seria reservada apenas a missão de decodificar imparcialmente as idéias preestabelecidas pelo autor. Sendo assim, ao tradutor caberia a tarefa secundária de verter as palavras de um idioma fonte para um idioma-alvo, de modo a manter inalterado o significado, ou seja, a proposta do autor original na língua receptora. É interessante notar a contradição do papel inferior do tradutor, como mero transportador de palavras e idéias alheias, e a altíssima eficiência esperada de sua tradução, nas palavras de Rosemary Arrojo, algo quase sobre-humano:
um ato de magia não muito bem definido que pudesse neutralizar diferenças lingüísticas, culturais e históricas, ao mesmo tempo em que idealiza o chamado texto original pressupondo-se capaz de se manter o mesmo apesar das diferenças inevitáveis. (1993 p.28)
Tal
perspectiva tornava o trabalho dos tradutores extremamente arriscado, altamente
passível de adulteração e corrupção dos “verdadeiros” significados presentes no
texto original. Essa acepção se explicitava em expressões como “tradutores –
traidores” e as “belas infiéis”, ambas
referindo-se à infidelidade ou à traição ao texto fonte.
Essa
visão teve um certo arrefecimento nos últimos anos com o advento das constantes
modificações nas concepções teóricas sobre tradução. A evolução da Lingüística
e dos outros domínios do conhecimento possibilitou noções inteiramente novas
sobre traduzibilidade, literalidade, equivalência e autoria. Dentre as
correntes teóricas que mais implicações tiveram na redenção da inferioridade do
tradutor, a desconstrução foi, sem dúvida, a mais expressiva. E o foi
justamente pelo caráter “desconstrutor” das bases logocêntricas. Ao revelar que
no processo de tradução, a estabilidade e a independência dos significados no
jogo lingüístico são inviáveis, pois se baseiam no princípio da arbitrariedade
e da diferença, a desconstrução questiona o caráter intocável, através dos tempos,
do significado depositado num suposto texto original por um determinado autor.
Ela ainda vai além desses pressupostos, colocando em xeque a própria noção de
autoria, ao defender a posição de que qualquer obra não é fruto das inspirações
espontâneas de um autor, cujo trabalho na realidade consiste na representação
dos sistemas institucionais vigentes em sua época dentro de um determinado
contexto. Essa visão ameniza a condição de superioridade que um autor tem em
relação a seu tradutor, na medida em que o trabalho do próprio autor original
já se constitui numa espécie de tradução de certos valores, concepções e
tendências de seu momento histórico. Além disso, segundo Lefevre, “o texto se
torna um original somente quando foi traduzido, sem tradução ele é apenas um
texto” (citado por Aguiar, 2000 p. 42). Nessas bases a tradução é elevada á
categoria de definidora na relação de dependência entre tradução e texto
original, sendo mesmo uma grande responsável pela sobrevivência deste, conforme
pregam Walter benjamin e Jaques Derrida:
Este
(o texto original) conteria sempre uma estrutura incompleta, uma forma
invisível, um desejo de sobrevivência, independentemente de a tradução se
efetuar. O original se entrega ao se transformar; ele sobrevive em virtude
dessa mutação; ele se engrandece, ao ser preenchida (mas não saturada) a sua
estrutura aberta. Nesse processo de rejuvenescimento, o original se modifica e
essa renovação não atinge só os textos, mas também as línguas. (Aguiar, 2000
p.48)
Essas
novas abordagens anulam a visão tradicional da tradução como mera reprodução ou
cópia. Papéis como o de estender fronteiras, revelando as afinidades e as
diferenças existentes entre as línguas e seus povos, e mediadora do processo de
intercâmbio cultural, passam a dar uma conotação de prestígio à tradução.
Também cresce a acepção de que o trabalho dos tradutores inclui e induz a
transformações e manipulações inevitáveis. Ao entrarem em contato com os
valores culturais de diferentes sociedades, distantes no tempo ou no espaço, os
tradutores não apenas exploram um território desconhecido. Por meio do
reconhecimento do Outro, eles mudam as perspectivas e os valores de sua própria
comunidade social (Delisle, 1995). Assim, é cada vez maior o reconhecimento da
herança deixada à humanidade pelo esforço de inúmeros tradutores em todos os
tempos. E não foram poucos, nem restritos, os benefícios trazidos pelo trabalho
desses profissionais. Sabe-se do papel fundamental que as traduções
desempenharam na formação da linguagem escrita de muitos povos da Antigüidade
(Milton, 1993); da sua influência na fixação de certos gêneros literários e na
evolução estilo-formal de muitas literaturas modernas; na difusão e formação de
identidades religiosas, etc.
É
dentro desse novo contexto, em que a tradução tem um caráter extremamente
dinâmico, que este trabalho se insere. A relação que aqui será traçada entre o
papel das traduções nos jornais bilingües (português-inglês) dos imigrantes
brasileiros nos EUA e a formação de uma nova identidade desse grupo, tem como
pressuposto a visão da tradução que as recentes teorias na área postulam. Uma
visão na qual a tradução não se limita a transmitir valores de uma
cultura-fonte a uma receptora pelo seu repasse de uma língua para outra. Mas
sim, uma concepção de tradução com potencial de produção de efeitos sociais
extensos.
Para
facilitar o desenvolvimento do tema, este trabalho foi dividido em três partes.
Os dois primeiros tópicos compreendem toda a fundamentação teórica deste estudo
e irão emabasar as argumentações feitas na análise das traduções. Dessa forma, este
artigo ficou assim dividido: a primeira parte aborda a questão da identidade
através do prisma das teorias pós-estruturalistas e a relação tradução-formação
de identidades. A segunda aborda a construção de uma nova identidade dos
imigrantes brasileiros nos EUA, esclarecendo também pontos sobre essa
comunidade. A terceira dá um rápido panorama da imprensa brasileira nos EUA e
analisa as traduções de um jornal bilingüe (português-inglês), relacionando-as
à formação da nova identidade da comunidade local, com base, como já se disse,
nos levantamentos teóricos abordados nos dois tópicos anteriores.
1.
O conceito
de identidade e a relação tradução-formação de identidades
O conceito de identidade é marca constante na reflexão filosófica. Nela ele figura desde os tempos mais remotos como parte indissociável da atividade do pensar humano, sendo mesmo um dos primeiros princípios ou lei fundamental do pensamento do homem. Desde Parménides, o Ser constitui a formulação-paradigma do princípio de identidade (Polis, 1985), muito embora as concepções por trás desse paradigma tenham estado em constate deslocamento ao longo da história. Chnaiderman (1998) nos dá uma definição geral de identidade pertinente com a essência do tema desde a Antigüidade. Segundo a autora:
O termo identidade se define como
algo que tem a conotação tanto de uma igualdade permanente dentro de si próprio
quanto da partilha persistente de algum tipo de caráter essencial com os
outros. (Chnaiderman, 1988 p.52)
A definição de Chnaiderman introduz noções antagônicas, igualdade e alteridade, constituintes fundamentais do conceito de identidade. De fato, a relação indissociável entre o que é próprio e o que é alheio, a singularização do eu por oposição aos outros, tem tradicionalmente sido aceita como fator de estabelecimento da identidade pessoal. No século XVIII, com o surgimento dos conceitos sobre o indivíduo e a individualidade e à luz da autoconsciência cartesiana, a noção de identidade passou a ser vista de forma bastante essencialista, em que o indivíduo era constituído de forma única. Com base nessa tradição, prevaleceu nos últimos séculos uma visão de identidade pessoal correlativa da personalidade, isolacionista e individualizante, estável e total que, uma vez consolidada na vida adulta do indivíduo, se tornaria fixa e praticamente imutável. Essa perspectiva autoriza certos construtos, com base na história das relações do sujeito com seu mundo social, seus valores, normas de comportamentos e convivência interpessoal, língua, crenças, cultura, etc., que resultam em determinadas categorias identitárias. Assim, é possível falar-se da identidade cultural do “brasileiro”, dos traços culturais particulares que distinguem “o americano” do “chinês”, do “indiano”, do “alemão”, etc. A formação de determinados estereótipos é conseqüência quase direta dessas construções idealistas. É como se buscássemos o nativo verdadeiro e sua autenticidade plena.
A Lingüística no seu aparecimento como ciência adotou um conceito de identidade tanto para uma língua, como para o sujeito falante de uma língua, baseado em noções essencialistas (Rajagopalan, 1998). Chomsky, por exemplo, elege o critério de naturalidade para o conhecimento e domínio perfeito de uma língua, ou seja, sabe-se uma língua quando se é um nativo nesse idioma. Ainda na lingüística estrutural, o falante nativo já era tido como a autoridade suprema nos assuntos de sua língua. Esse posicionamento denuncia uma atitude pacífica com relação à identidade tanto do falante como da própria língua. Mais uma vez evidencia-se a busca do verdadeiro “nativo” dentro de uma visão idealista.
É cada dia mais crescente a reivindicação, no âmbito da lingüística, da revisão do conceito tradicional de identidade. Com o advento das correntes de estudo pós-estruturalistas (Derrida, Lacan, Kristeva, Althusser, Foucault, Cherryholmes, Giroux, Simon, etc.), as concepções humanistas do indivíduo como um ser dotado de uma essência única e fixa não encontram mais respaldo. Ao contrário, os pós-estruturalistas descrevem o indivíduo como essencialmente contraditório, dinâmico, múltiplo ao invés de unitário, descentralizado ao invés de centralizado (Weedon, citado por Peirce, 1995). A partir dessa nova visão, edifica-se uma série de posições quanto ao termo identidade. Nelas não há espaço para concepções pacíficas. O que prevalece é uma noção de identidade como um constante processo de construção, centrada na luta contínua do sujeito nas suas relações com os outros indivíduos, grupos e comunidades, que afetam e transformam sua vida num dado espaço e tempo. É a crença numa identidade social múltipla, contraditória e mutável.
Tais concepções de identidade têm na língua uma posição central. É nela que as formas possíveis de organização social e política são definidas ou contestadas, na qual a nossa subjetividade é construída. Assim, é procedente a acepção de que a identidade de um sujeito é construída na língua e através dela. Isso significa que, como afirma Rajagopalan (1998 p.42):
O indivíduo não tem uma identidade
fixa, anterior e fora da língua. Além disso, a construção da identidade de um
indivíduo na língua e através dela depende do fato de a própria língua em si
ser uma atividade em evolução e vice-versa. Em outras palavras, as identidades
da língua e do indivíduo têm implicações mútuas.
Esses
fundamentos são importantes para as considerações a que este artigo se propõe,
a questão da formação de uma nova identidade dos imigrantes brasileiros nos EUA
e o papel que as traduções em jornais bilíngües podem desempenhar nesse
processo. Por se tratar de um contexto em que as relações sociais envolvem
grupos culturalmente distintos e línguas diversas, o tema identidade encontra
aqui um terreno fértil. O jogo indissociável entre língua, relação social e
identidade, que se tem tentado traçar até o momento, liga-se à compreensão dos
efeitos decorrentes do crescente amálgama étnico, cultural e religioso do atual
mundo em globalização, marcado, entre outros aspectos, por elevadas taxas de
migração. A identidade individual como algo total e estável já não tem nenhuma
utilidade prática num mundo assim constituído (Rajagopalan, 1998). O contato
constante entre os povos, suas culturas e línguas tem promovido uma certa
contaminação mútua. Embora seja declarado que o jogo de poder implícito nessas
relações determine a prevalência de certos valores de grupos privilegiados em
desproveito de outros menos favorecidos, ainda assim, essa interação dinâmica
entre povos e culturas com estatutos diferentes tem resultado em possibilidades
radicalmente novas e produzido identidades diversas. No caso específico deste
trabalho, a convivência entre os muitos grupos de imigrantes nos EUA, uns com
os outros e com os próprios americanos, tem acarretado uma alteração dos
valores e normas originais desses povos. Assim, nas palavras de Rocha-Trindade
(1995, p.100):
um italiano torna-se um italo-americano, um alemão um germano-americano, e assim sucessivamente. Por outro lado, cada um destes grupos distingue-se, não só entre si, como em relação ao grupo de que originalmente descende, de tal foram que um sino-americano se distingue de um chinês, um italo-americano de um italiano, etc.
Esse
caráter mutável da identidade é o principal ponto de apoio deste trabalho, cujo
pressuposto é que está em curso um gradativo processo de formação de uma nova
identidade sociocultural entre os imigrantes brasileiros nos EUA. A pretensão
de tecer considerações sobre as implicações da atividade tradutora, nesse
processo, baseia-se na crença do papel dinâmico e poderoso da tradução, como se
expôs no tópico anterior, passível de intervir amplamente nos diversos setores
da atividade humana. Dessa forma, as idéias sobre tradução que vão nortear este
artigo apoiam-se no potencial que elas têm na formação de identidades
culturais, através de uma qualidade que é ao processo tradutor inerente, a
construção de representações domésticas.
O que aqui se estabelece por uma representação doméstica é a reescritura de um texto estrangeiro de modo compreensível e familiar na cultura receptora. Essa concepção é extensamente detalhada por Venuti (1998) e será resumidamente exposta neste tópico, a fim de fundamentar o que se está pretendendo defender neste artigo. Em linhas gerais, o autor coloca que um dos principais objetivos do tradutor é o de comunicar um texto estrangeiro de modo a torná-lo compreensível de uma forma caracteristicamente doméstica. Esse processo se realiza na adoção de uma estratégia de tradução que reescreve o texto estrangeiro em dialetos e discursos domésticos, o que é sempre uma escolha de certos valores domésticos em detrimento de outros. O autor segue argumentando que a tradução pode criar, para os países estrangeiros, estereótipos que refletem os valores políticos e culturais domésticos, colaborando para a formação de atitudes domésticas em relação a países estrangeiros. Nessa medida, a tradução constrói também um próprio sujeito doméstico, “uma posição de inteligibilidade que também é uma posição ideológica, delineada pelos códigos e cânones, interesses e pautas de certos grupos sociais domésticos” (Venuti, 1998, p.175).
Diante do exposto, ao pensarmos no
caso das traduções em jornais bilingües, somos levados a tecer algumas
reflexões. Como assegura Melo (1999), uma situação de bilingüismo só se
justifica quando as línguas em contato possuem, cada uma, uma função específica
diferente da outra, de modo que o falante bilíngüe alterna sua fala nos dois
idiomas para atender a essas devidas funções. Assim, cria-se a noção de
domínios lingüísticos, uma abstração teórica que se refere a uma situação
particular na qual ocorre uma determinada interação verbal, como por exemplo,
uma interação entre pessoas de uma mesma família pertence ao domínio familiar,
assim como uma interação entre professores e alunos pertence ao domínio escolar
e assim por diante. Se as línguas têm os mesmos usos e funções em todos os
domínios, conseqüentemente não há razão
para a manutenção do bilingüismo, uma vez que as línguas do mundo são todas
equiparavelmente plenas de recursos comunicativos. Sendo assim, qual seria a
razão pela qual esses jornais disponibilizam um mesmo artigo em dois idiomas?
Algumas
são as hipóteses, e elas serão mais propriamente abordadas nos tópicos
seguintes. Todavia, uma das premissas deste trabalho é a de que eles estão
possivelmente tentando dirigir-se a pelo menos duas comunidades de fala ao
mesmo tempo, a de falantes de português no caso, a comunidade brasileira e
portuguesa, e a dos falantes de inglês, obviamente os americanos e talvez os
demais grupos de imigrantes que já dominam o idioma. Neste caso, as traduções
estarão desempenhando um papel de intercâmbio entre esses grupos, tornando-os
visíveis um para o outro. Nesse processo de visibilidade mútua proporcionada
pelas traduções e, tendo em vista as colocações de Venuti sobre a representação
de sujeitos domésticos, é evidente que por trás das traduções nesses jornais,
estarão subjacentes determinados valores ideológicos. Ao projetarem-se uma para
a outra, cada uma dessas comunidades projeta também seus perfis identitários.
No caso dos imigrantes brasileiros, em processo de formação de uma nova
identidade, como já se argumentou, essas traduções constituem um dos elementos
essenciais pois, como afirma Venuti:
A tradução forma identidades culturais particulares e as mantém com um grau relativo de coerência e homogeneidade, mas também cria possibilidades de mudança, inovação e resistência cultural em qualquer momento histórico. ( 1998, p.176).
A seguir será mais extensamente
esclarecida a questão da construção de uma nova identidade dos imigrantes
brasileiros nos EUA, com base nas principais pesquisas sobre o tema na área das
ciências sociais, assim como algumas considerações sobre a própria comunidade.
Depois, proceder-se-á à analise das traduções de um jornal bilingüe de brasileiros
nos EUA.
2.
A questão
da identidade dos “brazileiros” nos EUA
Os
estudos sobre identidade têm nos cenários das relações interétnicas um terreno
produtivo. É nesses espaços, de acentuada convivência entre vários “outros”,
que se impõe mais declaradamente a questão da alteridade. Nos vários países com
concentração elevada de imigrantes, os diversos grupos estrangeiros vivem
inseridos em uma estrutura de segmentação étnica, em razão tanto das relações
internas ao seu segmento quanto das relações estabelecidas com outros segmentos
étnicos (Ribeiro, 1999 p. 45). Os decorrentes jogos de imagens mutuas são
fontes de uma forte ambivalência cultural e identitária, em que determinados
estereótipos são fixados do tipo, “como os... (americanos, brasileiros, argentinos,
mexicanos, etc.) são”, “o que os... pensam sobre os...”, e assim por diante.
Os
imigrantes brasileiros nos EUA têm sua vivência marcada por esses jogos
identitários. Em princípio, como argumenta Ribeiro (1999), a própria população
de imigrantes brasileiros já é uma abstração. Ela é, na realidade, composta por
uma diversidade de elementos diferenciados por classe social, status, gênero, origem regional e raça.
Nesse contexto:
A identidade nacional, ela mesma uma construção que se direciona para uma homogeneização instrumental de uma determinada população, se transforma, também instrumentalmente, em uma identidade étnica, isto é, em uma identidade contrastiva internamente em âmbito de um outro Estado nacional onde as diferenças são marcadas por distinções lingüísticas e culturais, acima de qualquer coisa. (Ribeiro, 1999 p 70)
Os
estudiosos da área (Ana Martes, Elisa Sasaki, Margolis Maxine, Gláucia Assis,
Gustavo Ribeiro, Adriana Oliveira, Valéria Scudeler, Weber Soares, Rossana Reis
e Teresa Sales) afirmam que os brasileiros têm alimentado essa diferenciação
étnica pela preservação de sua cultura e seus vínculos com o Brasil: pela
manutenção de uma série de hábitos considerados típicos, como a culinária, a
música, a dança; pela valorização da estética brasileira, que dita o padrão de
vestimenta, corte de cabelo; pela preferência aos produtos brasileiros e,
principalmente, pelo emprego de sua língua no cotidiano norte-americano.
Pode-se falar português numa série de lojas, empresas de turismo, em hospitais
e serviços de atendimento. Uma infinidade de igrejas celebra seus cultos nesta
língua. Os brasileiros freqüentam boates, bares, restaurantes e festas
brasileiras. Nas regiões com grande concentração de brasileiros, há programas
de rádio e televisão, jornais, revistas, editados em português (Freitas, 2000).
Segundo
Kramsch (1998), nossa identidade social é determinada pela nossa participação
como membros de uma comunidade, na qual nos definimos como os de “dentro”
contra os demais, os de “fora”. Ribeiro (1999) alega que os brasileiros se
projetam tanto para si mesmos como para os “de fora”, mediante uma série de
cenários e rituais de afirmação de sua identidade nos EUA. As festas privadas,
as juninas com todas as suas comidas, danças e músicas típicas, os constantes shows de artistas brasileiros, são
alguns desses cenários de afirmação da identidade dos brasileiros voltados mais
para si mesmos. Outros são a televisão, com transmissão direta da programação
do Brasil, as rádios e a Igreja, apontada como um dos principais locais de
reprodução da identidade do migrante brasileiro. Elas são o âmbito público em
que, em alguns casos, mais de uma centena de brasileiros se reúne, sentindo-se
parte de uma comunidade étnica distinta.
Esses
são o locus da projeção interna da
identidade étnica brasileira. A projeção para os “outros” é feita em momentos
mais esporádicos. Um desses momentos muito representativo foi a comemoração da
vitória brasileira na Copa do Mundo em 1994, quando milhares de torcedores
saíram às ruas num evento que constituiu um momento único de difusão das
imagens do Brasil e dos brasileiros, amplamente noticiado pela imprensa
americana. O futebol é um orgulho brasileiro e contribui de forma pragmática
para a imagem dos nossos migrantes. Da mesma forma, os desfiles carnavalescos
realizados em diversos estados americanos são um grande destaque, quando um
número considerável de brasileiros se mostra publicamente. O samba é tido como
uma manifestação cultural de grande evidência em todo o mundo, representativa
do povo brasileiro. O Carnaval Parade
em São Francisco é considerado o maior festival multicultural da Costa Oeste,
faz parte do próprio calendário cultural de São Francisco. Em Nova York, também
tem destaque a festa de carnaval dos brasileiros na região conhecida como Little Brazil. Nesses eventos os
brasileiros tornam-se visíveis para os outros grupos étnicos e principalmente
para os norte-americanos.
É durante esses acontecimentos que se fixam muitos dos estereótipos sobre os brasileiros. O clima de festividade desses eventos, embalados pelas tradicionais batucadas, a dança considerada sensual, pela exposição do corpo, atribui uma visão dos brasileiros como um povo enérgico, sensual e exuberante. Esses rótulos são motivo de muita controvérsia, porque, para muitos eles implicam numa visão extremamente reducionista da cultura brasileira, prejudicial a sua imagem.
Segundo Sales (1999), o processo de construção da identidade étnica passa por etapas diferenciadas, em que o contato com “outro” diferente é importante para a definição do “nós” próprios. Por isso, à medida que o imigrante aumenta sua expectativa de permanência nos EUA, prolongando-a por períodos mais extensos, ele gradativamente volta-se para sua vida naquele país e passa então a preocupa-se mais explicitamente com sua auto-imagem.
Para os brasileiros sua identificação étnica pelos americanos é um fator muito problemático. Eles se perdem no meio a tantas levas de imigrantes de todo o mundo e se diluem entre os provenientes dos países sul e centro-americanos, designados genericamente de hispânicos, em alusão à língua. A confusão com os hispânicos gera irritação por parte dos brasileiros que não abrem mão de uma diferenciação. Apesar de ser um país sul-americano e latino, o fato de se falar português, entre outras especificidades, de certa forma isola o Brasil dos demais vizinhos também sul-americanos. Nas palavras de Darcy Ribeiro, “o Brasil e a América hispânica estão divididos em dois mundos, um de costas para o outro” (citado por Margolis, 1993). Muitos são os estereótipos que recaem sobre os ditos hispânicos. Segundo Sales (1999), os mais comumente citados pelos imigrantes brasileiros são os de que eles não trabalham, vivem do welfare (os benefícios financeiros auferidos por quem está desempregado) americano e vendem drogas. Num estudo anterior ao presente (Freitas, 2000), sobre imigrantes goianos concentrados numa pequena cidade no estado de Connecticut, oriundos de Jaraguá, um entrevistado deu o seguinte depoimento:
Eu tinha uns amigos hispânicos. A gente falava em português e
eles falavam em espanhol e a gente se entendia. Eles falam inglês muito pior do
que a gente. O sotaque deles é péssimo, muito pior que o nosso. Os americanos
não entendem o que eles falam. Americano não confunde a gente com latino, eles
são todos iguais, baixinho, narigudo, feio demais. (Élio, imigrante jaragüense,
julho de 2000).
Os julgamentos de valores, quanto à superioridade dos brasileiros em relação aos hispânicos, demonstram sua necessidade de se diferenciar e se impor etnicamente. Muitas das imagens identitárias referentes aos hispânicos já eram preexistentes na sociedade americana. Rajagopalan (1998) afirma que a construção de identidades é uma operação totalmente ideológica. Assim, os brasileiros se valem desses estereótipos como uma espécie de muleta de apoio a sua auto-afirmação. Por causa do estigma atrelado aos hispânicos como um povo que não gosta de trabalhar, os brasileiros fazem questão de se diferenciar deles através de seu reconhecimento como um povo trabalhador (Sales, 1999), como já ocorrera aqui em relação anteriormente em relação ao imigrante estrangeiro:
Ao afirmar sua marca identitária como povo trabalhador, o
imigrante brasileiro de certo modo reproduz lá fora o que, um século atrás, era
aqui no Brasil imputado como marca também do imigrante estrangeiro (o italiano,
o japonês, etc.). (Sales, 1999, p.41).
A associação brasileiro-povo-trabalhador forjou-se nas peculiaridades do fluxo migratório para os EUA, marcado caracteristicamente como uma migração de mão-de-obra no setor de serviços de baixa qualificação, submetida a longas jornadas de trabalho. Um dos entrevistados de Sales (1999) contou que, pelo fato de não falar inglês, o imigrante brasileiro no início preferia preencher todos os seus dias com trabalho. Isso foi nos primeiros anos de imigração, quando a rede de apoio à identificação étnica brasileira ainda não havia sido plenamente constituída pelos vários veículos, como as igrejas, os clubes, as rádios, a televisão, os jornais, etc. Dentre estes meios, a imprensa, identificada como uma imprensa étnica por alguns estudiosos (Sales, 1999), constitui atualmente um elemento essencial na afirmação da etnicidade dos imigrantes brasileiros, tanto em relação a si próprios como para os demais. Nesse sentido, o que será argumentado no próximo tópico diz respeito às contribuições dos jornais bilingües nesse processo de construção de identidade e de seu poder, por intermédio das traduções, de atuar poderosamente no jogo de projeção dos “de dentro” para “os de fora”.
3. A imprensa “brazuca”, os jornais
bilingües e as traduções
A
imprensa brasileira nos Estados Unidos é considerada, pelos estudiosos das
ciências sociais, um elemento essencial na etnicidade do grupo imigrante
brasileiro naquele país. Ela é uma imprensa étnica, conhecida como “imprensa
brazuca”, termo também usado para designar os imigrantes brasileiros de um modo
geral[2].
Segundo Ribeiro (1999), Sales (1999) e Freitas (2000), entre os principais
jornais dessa imprensa constam as seguintes publicações: Balcão USA, Brazilian Press,
Portugal Brasil News Inc., Samba Newsletter, The Brazilians, Brazil in Review,
Brazilian Times, Jornal dos Sports, Florida Review, Green Card, Brazil Today,
News from Brazil, Brazzil_International Monthly Magazine in English, Jornal
Brasileiro do Vale, Brazilian Voice,
Diário do Brasil, States News, O Imigrante e o TribunaCT. Todos jornais que circulam pelos estados com grande
concentração de brasileiros, mas que figuram apenas num levantamento parcial, é
possível que muitos outros títulos estejam em circulação. O principal aspecto
dessa imprensa, segundo Scudeler (citado por Sales, 1999), seria o seu caráter
provinciano de representação da identidade étnica de seus leitores. Suas
notícias concentram-se, sobretudo, na vivência comunitária, expressa nas
colunas sociais, nos informes religiosos, nos depoimentos de experiências
particulares.
Grande
parte desses periódicos é bilíngüe. Embora uma de suas pretensões, como
explicita o lema do Brazil Today (committed to keeping the Portuguese language
alive in the USA), seja o compromisso de manter a língua portuguesa viva
nos EUA, os próprios títulos e manchetes em inglês dos jornais já atestam uma
certa ambivalência com relação a esse interesse. O que normalmente se tem percebido
é que há uma prevalência de artigos em português e uma alternância de artigos
menores e anúncios em inglês e, em alguns jornais, em espanhol.
Para
este trabalho foram consultados cinco jornais, o The Brazilians, Brazil Today, O Imigrante, Brazilian Times e Tribuna CT. Todos trazem artigos em
português e inglês, sendo que O Imigrante
é em português e espanhol. Neles os temas relacionados à vivência diária nos
EUA, como notícias, entrevistas e pronunciamentos de autoridades e
acontecimentos locais, são em inglês. Os assuntos relacionados à comunidade
brasileira nos EUA são em português e abordam temas como as festas
comunitárias, visitas de artistas brasileiros e shows, informes religiosos,
notícias sobre as atividades dos grupos representativos de entidades
brasileiras locais, etc. Já as notícias sobre peculiaridades nacionais,
aspectos culturais do Brasil, vêm, na maioria dos casos, em português e são
traduzidas ou resumidas em inglês. Dessa amostra, somente o TribunaCT, que circula no estado de
Connecticut, traz a tradução em inglês de praticamente todos os artigos em
português e vice-versa. Para este artigo foram analisadas onze edições
consecutivas desse jornal, do número 13 ao 23, no período entre agosto e
dezembro de 2000.
O TribunaCT é uma publicação da cidade de Danbury, no estado de
Connecticut, dirigido à comunidade imigrante brasileira nessa cidade e às
vizinhas, Ridgefield, Bridgeport, Waterbuy, Naugatuck, Stamford e outras. Além
da comunidade brasileira, estimada em torno de 30.000 pessoas só nesta região,
os imigrantes portugueses também são alvo em potencial dos editores, que
colocam anúncios e artigos voltados para esse público. Ele foi criado no final
de 1999 e sai a cada duas semanas. Como praticamente todos os jornais de
imigrantes brasileiros nos EUA, é gratuito e distribuído em estabelecimentos
comerciais, agências de turismo e nos bares e restaurantes brasileiros.
À
semelhança de muitos jornais bilingües da comunidade hispânica, o TribunaCT tem a peculiaridade de
disponibilizar praticamente quase todos os seus artigos em dois idiomas, no
caso o inglês e o português. Ele é composto de uma parte que cobre quase 80% do
jornal de artigos nas duas línguas e o restante, sob a indicação no canto das
páginas, portuguese only, é em
português apenas. Essa seção em português é reservada para os assuntos do
Brasil no Brasil (intitulada Brasil em foco), como informações da política
local, artistas, personalidades pouco conhecidas nos EUA e, maciçamente, sobre
o esporte. Já a seção maior, a que é bilingüe, traz colunas com pronunciamentos
e entrevistas com autoridades americanas, opiniões de leitores, informações de
interesse geral sobre a cidade, saúde, dicas da polícia para a população, uma
agenda dos principais acontecimentos culturais da cidade como apresentações
teatrais, música, dança, exposições, mostras de cinema, programações especiais
nos parques, etc.
É
nessa seção bilingüe que americanos e brasileiros tornam-se mais visíveis um
para o outro. A coluna de cartas, por exemplo, publica pontos de vista e
opiniões de americanos sobre artigos passados ou assuntos de interesse geral.
Dessa forma, essa seção viabiliza, para os brasileiros que ainda não dominam
bem o inglês, a fala das autoridades locais, como o prefeito, o chefe de
polícia, os deputados e mesmo o cidadão norte-americano comum. Do mesmo modo,
os brasileiros podem, através das traduções para o inglês, expressar para os
americanos suas idéias sobre os diversos temas de interesse geral, suas
opiniões, visões particulares, enfim, sua própria fala. Nas palavras da própria
editora chefe do jornal, este espaço tem como objetivo principal a troca de
informações e cultura entre brasileiros e americanos:
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Compreendendo as diferenças culturais Desde o princípio meu objetivo era favorecer a integração das duas culturas através de um jornal que falasse duas línguas. A comunidade americana seria beneficiada com o conhecimento dos nossos valores, costumes e riquezas culturais, e os brasileiros além de assimilarem parte da cultura norte-americana, teriam oportunidade de adquirirem mais conhecimento sobre o país onde residem sentindo-se mais seguros para integrarem-se a esta cultura e lutarem por seus objetivos sem perderem suas raízes” (pronunciamento da editora chefa, No 21, 8 nov. 2000, p.4). |
Comprehending
cultural differences From the biginning my goal was to benefit the integration of two cultures through a newspaper that would speak two languages. The American community would be favoured with knowledge of our values, customs and cultural treasures. The Brazilians, besides assimilating part of the Western culture, they would have the opportunity to learn about the country where they reside feeling more confident to integrate themselves into this culture and to pursue their dreams without loosing their roots. (tradução do pronunciamento da editora chefe, No 21, 8 nov. 2000, p.4). |
Ao
tentar declaradamente dar acesso à “cultura” e aos “valores” brasileiros, os
artigos desse jornal estão produzindo representações do que sejam tais valores.
Essas representações nunca são totalmente ingênuas nem perfeitamente
conscientes, elas são, às vezes, construções incompletas, presentes no
imaginário de determinados grupos sociais, influenciadas por certas posições
ideológicas. Embora os textos possam não ter a noção explícita da posição
ideológica que vinculam, ela estará neles sempre latente, afetando o processo de formação de identidade
e a reprodução social que serão repassados através das traduções.
Como
se argumentou no tópico anterior, existe uma certa representação com base no
estereótipo do povo brasileiro, expressa pelo trinômio “exuberância, alegria e
sensualidade”. O que se observa nos textos do TribunaCT, no entanto, é o compromisso dos brasileiros com os seus
deveres e obrigações como moradores locais e com seus empreendimentos. É
marcante a quantidade de artigos sobre o sucesso dos comerciantes brasileiros e
suas realizações junto à comunidade com os eventos que promovem, desfiles de
moda, festas beneficentes, festivais de comida típica, comemoração de datas
oficiais no Brasil, como o Dia da Independência, uma reunião solene realizada
na sede da prefeitura. O caráter do brasileiro como um povo alegre pode ser
reforçado pelo número de festas noticiadas. No entanto, a grande maioria delas
está associada a atividades sérias, relacionadas a entidades comerciais,
escolas, agremiações de serviço comunitário e beneficente. São constantes os
artigos enaltecendo o papel dos empresários brasileiros no crescimento da
economia norte-americana. O número de anúncios de serviços e dos diversos
produtos oferecidos pelas lojas brasileiras também reforça a imagem da forte
atuação dos brasileiros no setor econômico. Por esses e outros aspectos fica
evidente o perfil do brasileiro como um povo trabalhador, atributo que já foi
detectado em outros estudos como constitutivo da identidade do imigrante
brasileiro nos EUA.
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Tributo
especial ao Brasil Dia 8 de Setembro parecia mais um dia na rotina da cidade de Danbury, porém, para os mais de 10.000 brasileiros que vivem na região, foi uma data de grande importância. Em frente à prefeitura de Denbury acontecia o hasteamento da bandeira brasileira... Nesta ocasião, os brasileiros de nossa comunidade sentiram o orgulho de ouvir as autoridades americanas e brasileiras falarem sobre como o povo brasileiro tem contribuído para o crescimento de Denbury, com um comércio próspero e pessoas batalhadoras e de muita fé. (editorial , No 13, 13 set. 2000) |
Special Tribute to Brazil September 8th was just like any other day in the life of the City of Danbury, but for over 10,000 Brazilians that reside in the area, it was a very significant date. At the main entrance of the Danbury City Hall the Brazilian flag was raised... On the occasion, Brazilians from our community were proud to hear American and Brazilian authorities speaking about the great contribution of the Brazilian community in the growth of Danbuery with a prosperous commerce, hard working and faith of the Brazilian people. (tradução do editorial , No 13, 13 set. 2000) |
É
interessante notar que os aspectos quanto à suposta sensualidade e exuberância
brasileira, tão aclamados como suas qualidades mais visíveis, não são
estimulados pelas traduções nos jornais. Os artigos sobre a escolha da
Miss-Brasil-USA, por exemplo, ficaram restritos às páginas Portuguese only, como se este tipo de evento não fosse do interesse
dos americanos. Da mesma forma, não foram traduzidos os artigos sobre a
organização do Rock in Rio, as cirurgias plásticas de aumento de seios com
silicone das atrizes globais, o inquérito de Celso Pita, o brasileiro acusado
de pena de morte nos EUA, a falta de segurança na Internet no Brasil, etc. É
como se esses assuntos fizessem parte de um cenário doméstico mais íntimo sobre
o qual o olhar dos “outros”, logicamente “eles”, os norte-americanos, não
devesse se voltar. Desse modo, fica claro como a própria escolha dos textos a
serem traduzidos já se reveste de uma conotação ideológica.
Uma
seleção, na qual se estabelece o que vai ou não vai ser traduzido,
provavelmente se ampara numa concepção, mesmo que não muito bem definida, de um
perfil identitário reconhecido como recomendável para exposição. Da mesma
forma, como afirma Venuti (1998), a própria tradução já tem a capacidade de
conferir, aos sujeitos domésticos, uma qualificação ideológica que lhes é
necessária para assumirem um papel ou desempenharem uma função em uma
instituição determinada. Assim, ao traduzirem assuntos que mostram o
envolvimento dos brasileiros na lida diária na sua comunidade, onde lutam junto
com os norte-americanos e os demais estrangeiros contra os mesmos inimigos, a
violência urbana, a poluição, os problemas econômicos, etc. os brasileiros
projetam-se como um grupo que divide, com esses outros, certos traços comuns.
Portanto, criam para si uma imagem que os aproxima dos demais, resguardando-os
contra preconceitos e discriminações. As manchetes abaixo, que abordam temas de
interesse da comunidade de Danbury em geral, indicam a situação de nossos
conterrâneos como parte de um grupo maior, formado por todos os residentes da
região, cujos problemas anteriormente citados, afetam a todos os seus membros
indistintamente:
|
Incluir manchetes |
Essas
traduções, ao mesmo tempo em que projetam uma imagem do brasileiro como mais um
entre os membros de uma mesma sociedade, também o traçam com certos atributos
que o tornam distinto. Além do perfil trabalhador que se percebe como um desses
atributos, um forte caráter religioso também parece estar atrelado à imagem do
brasileiro. Os artigos sobre eventos religiosos são uma constância nesses
jornais, assim como a menção dos redatores à fé em Deus e à confiança na Igreja.
São artigos sobre cultos, missas, visitas, chegadas e despedidas de padres e
pastores, em que o comparecimento dos brasileiros atingiu marcas de até 500
participantes. A religiosidade se manifesta com freqüência até mesmo nos
artigos que não abordam o tema diretamente, como se pode perceber nos trechos
de alguns exemplares:
cada um de nós devemos nos vigiar para contermos esse tipo de violência... devemos pedir a Deus que ilumine nossas decisões para que jamais usemos nossas mãos para tirar a vida de alguém (do artigo “Mãos gerando violência”, No 13, 19-30 de julho de 2000, p. 4).
O grande número de igrejas brasileiras em Danbury reflete uma peculiaridade do povo brasileiro_ o fato de ser movido pela religião... é na fé que o brasileiro busca força para enfrentar seus obstáculos do dia-a-dia e encontra esperança para viver (editorial, No 24, 10-24 de outubro de 2000, p-4).
Outro aspecto identitário, promovido
pelas traduções, diz respeito a nossa cultura pela divulgação da música e da
culinária brasileira. Há constantemente artigos que procuram informar sobre as
delícias da comida nacional e de seu destaque nas feiras gastronômicas
internacionais nos EUA. Há até uma seção de culinária em que receitas de pratos
típicos de diversas regiões do Brasil são divulgadas. Nesse ponto, cabe um
comentário sobre o próprio procedimento de tradução utilizado para os nomes
desses pratos, com base nos seus ingredientes principais, como shrimp with mandioc cream (Bobó de
Camarão), a delicious coconut dessert
(Manjar Branco) ou preservando-os em português mesmo como em tropeiro beans (Feijão Tropeiro) e caipirinha. Homogeneizadas sob o título
de culinária nacional, as marcas identitárias regionais desaparecem nas
traduções e o bobó de camarão, reconhecido no Brasil como típico da cozinha
baiana, passa a figurar, lado a lado, ao feijão tropeiro de Minas. Da mesma
forma, são também destaque os cantores brasileiros em visita aos EUA e os
artigos que informam com mais detalhes sobre os seus estilos musicais.
Portento, a identidade do imigrante
brasileiro, vinculada nas traduções desse jornal, apontam-no como um povo
trabalhador, religioso, alegre sim, mas comprometido com seus deveres e
obrigações para com a sociedade local, possuidor de uma rica bagagem cultural,
que se evidencia nos seus momentos festivos por meio de sua boa e variada
comida e musicalidade. Divididos entre o desejo de se integrar a sua nova terra
e ao mesmo tempo pertencer ao Brasil, os imigrantes talvez não percebam a
ambigüidade de sua afirmação identitária. Julgam-se ainda pertencentes a seu
país de origem, mesmo quando o que os move já não são propriamente os mesmos
interesses da grande maioria dos brasileiros. Assim, parafraseando Kramsch
(1998), lutam por manter relações com os membros de uma nação que os vê como os
“de fora”. Mesmo estando no mínimo geograficamente afastados do Brasil,
identificam-se como seus membros “de dentro”. Esperam manter-se parte de “Nós”,
sem perceber o quanto já estão absorvendo o que é próprio “Deles”. Esse jogo de
palavras entre Nós e Eles, que se liga tão bem à condição ambivalente do
imigrante brasileiro, talvez não só nos EUA, e, também, talvez não só dos
brasileiros, é poeticamente transmitida nos versos que abriram este artigo e
que agora, no final, após todas as considerações traçadas, podem ser mais
claramente compreendidos:
Uma
visita a terra DELES
Todas
as boas pessoas concordam,
E
todas as boas pessoas dizem,
Todas
as pessoas boas como Nós, são Nós
E
todos os outros são Eles:
Mas
se os mares cruzares
Sem
no caminho te deteres,
Acabas
(imagina!) vendo a Nós,
Apenas como uma parte Deles.
(Tradução minha)
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[1] Por falta de uma tradução já publicada desses versos, eu mesma os traduzi, precariamente, e em desproveito de suas rimas e métrica, quase literalmente, apenas para que o leitor que não falasse inglês pudesse ter acesso ao seu sentido mais geral. Minha tradução deve ser vista no final deste artigo.
[2] Segundo a pesquisadora Teresa Sales, este termo é usado às vezes, com conotações pejorativas. Todavia, a mesma autora achou sugestiva a expressão para o tratamento da imprensa brasileira fora do país e decidiu manter o termo em sua pesquisa. Por isso ele é mencionado neste estudo da mesma maneira como o foi na fonte original