PORTUGUÊS E
INGLÊS COMO LÍNGUAS
EM CONTATO.
Comportamento lingüístico
de imigrantes brasileiros
nos EUA.
Prof. Lúcia Gonçalves de
Freitas. (UEG-Jaraguá)
Resumo
O
presente artigo pretendeu levantar algumas questões com relação a um fenômeno
bastante recente: a emigração brasileira para os Estados Unidos. As fontes de
pesquisa foram alguns estudos da área de ciências sociais e política baseados
em relatos, entrevistas e cartas de imigrantes brasileiros, juntamente com
algumas entrevistas por mim realizadas com emigrantes da cidade de Jaraguá-GO, a qual está se tornando um
polo de emigração para aquele país. O enfoque específico deste artigo são
pontos concernentes ao comportamento e atitudes lingüísticas dos emigrantes
resultantes do contato entre o português e o inglês e sua ligação a fatores
como identidade étnica, cultura, motivação entre outros.
Abstract
This article intended to raise
topics related to a very recent phenomenon: Brazilian migration to the USA.
Data was provided by social science and politic researches based on interviews,
observation and letters from Brazilian immigrants in the USA, as well as some
interviews I did myself with a group of immigrants in the city of Jaraguá-GO,
which is becoming a strong pole of migration to America. The article’s specific
view are topics concerning the Brazilian immigrants’ language behaviour and
attitudes derived from the contact between Portuguese and English in relation
to factors such as ethnic identity, culture and motivation.
[i]I pity the poor immigrant
Who wishes he would’ve stayed home
Who uses all his power to do evil
But in the end is always left so alone
(Trechos da música de Bob Dylan : I pity the poor
immigrant)
|
1. Introdução O levantamento dos dados O objetivo do trabalho 2. Português
e Inglês em contato Língua e cultura Extinção e Preservação das línguas A rede de apoio à manutenção do
português
A imprensa A televisão As igrejas Língua e identidade étnica Brasileiro não é hispânico Português, espanhol e inglês em
contato Português? Quem fala português? Identidade étnica e Aquisição de linguagem As atitudes X Aquisição As atitudes dos ex-imigrantes jaragüenses Inglês não é tão importante assim Motivação Posição social e Nível de proficiência Os domínios lingüísticos Empréstimos e Mudança de código Mecanismo de aquisição 3. Reflexão
final |
Os trechos da canção acima
transcritos demonstram a percepção poética
do artista para um fenômeno que se manifesta intensamente nos EUA há
pelo menos dois séculos: a imigração.
A grande concentração de povos oriundos das mais diferentes regiões do
globo faz dos Estados Unidos um dos países com maior diversidade de línguas.
Como os próprios americanos costumam dizer, eles são um verdadeiro [ii]“melting
pot”. Há inúmeros estudos sobre grupos de
imigrantes de um modo geral,
principalmente sob o aspecto sócio-político, mas há também muitos
trabalhos na área da lingüística, como aquisição de linguagem, por exemplo.
Todavia, não há registros de estudos específicos sobre língua portuguesa e
suas relações em contato com o inglês, a despeito do idioma compor o cenário multilíngüe
americano há algum tempo, através dos grupos de imigrantes portugueses,
açorianos, cabo-verdianos e, nas últimas duas décadas, por brasileiros. Segundo Margolis (1993), até mesmo
estudos sociológicos sobre a comunidade brasileira não haviam sido
registrados antes dos anos noventa. De lá para cá alguns pesquisadores,
principalmente da USP e UNICAMP, como Teresa Sales (In: Reis1999), Rossana
Rocha Reis (1999), Gláucia Assis (In: Reis, 1999), Gustavo Lins Ribeiro (In:
Reis,1999), Ana Cristina Martes (In: Reis, 1999) e Margolis Maxine (1993),
produziram estudos relacionados aos [iii]emigrantes
brasileiros, sem enfocar, todavia, aspectos lingüísticos especificamente. Este artigo procurou levantar
alguns dados nesta área, tomando como base os trabalhos dos pesquisadores
acima mencionados. Foram extraídas todas as referências e fragmentos de
entrevistas, relatos, observações e cartas dos imigrantes brasileiros por
eles publicados que continham aspectos de linguagem, mas que não tiveram um
tratamento formal sob o ponto de vista da ciência lingüística. Para
complementar as considerações levantadas sobre os imigrantes brasileiros de
um modo geral, foram feitas algumas entrevistas com quatro sujeitos[iv]
residentes da cidade de Jaraguá-GO[v],
a qual é atualmente um grande pólo de emigração no estado de Goiás. O
objetivo do trabalho foi traçar algumas considerações mais gerais sobre os
fatores resultantes do contato entre o português (dos brasileiros) e o inglês
nos EUA, apoiando-se em outras pesquisas com imigrantes e teorias na área da
lingüística. O enfoque são questões como preservação ou extinção do
português, mudanças léxicas, aquisição de linguagem relacionada a atitudes,
motivação e identidade étnico-cultural dos falantes, domínios lingüísticos, empréstimos
e mudança de código. Os resultados são apenas um roll preliminar de evidências sem um aprofundamento maior, mas
que constituem verdadeiros temas de pesquisa e que num futuro próximo merecem
ser mais adequadamente investigadas. A princípio o português foi levado
para os Estados Unidos pelos imigrantes portugueses, açorianos e
cabo-verdianos. Em meados da década de
oitenta imigrantes brasileiros passaram também a compor o cenário dos
falantes de português na América. Segundo Margolis (1993), atualmente, embora
não se tenha um número preciso sobre o total de imigrantes brasileiros nos
EUA, estima-se algo em torno de [vi]330
mil pessoas. Um contigente dessas proporções
suscita a questão de como estariam os brasileiros relacionando-se com uma
nova língua e uma cultura tão diferentes? As palavras e o ritmo melancólico
da canção de Bob Dylan que abre este artigo,
denunciam um sentimento implícito de angústia talvez comum a
imigrantes de todos os tempos. Um sentimento que é um misto de emoções
intensas _alegria, temor, decepção_ resultantes do impacto da diferença
(Assis, In: Reis, 1999 p.135). Diferença entre a idealização utópica composta
no imaginário do imigrante e o encontro com uma realidade adversa. Diferença
entre a cultura, os hábitos, os valores sociais. Diferença entre as línguas.
Segundo Cláudia Assis (In: Reis,1999), entre os fatores mais citados por
imigrantes brasileiros como definitivos no desmoronamento da idealização da
América como a “Terra da Oportunidade” estão o encontro com uma outra cultura
e o desconhecimento da língua. Estes dois aspectos aparecem em inúmeros
relatos de imigrantes: [vii]“Quando cheguei achei tudo maravilhoso e tudo para
mim foi festa, mas depois, quando você conhece bem, vê que as coisas são
muito difíceis, falta o inglês...” (Maria Cristina - carta para a pesquisadora, dez. 1993) “As coisas são difíceis para
quem não fala inglês ..., sonhos de altos salários só para quem fala
inglês...( José Júlio, carta à esposa. 1992) Por trás deste “as coisas são
difíceis” muitos aspectos além do problema com a língua se escondem, aspectos
culturais de um modo geral. A relação entre língua e cultura é muito
estreita, porque quando nos comunicamos expressamos um conhecimento de mundo
que só é decodificável pelo grupo que o divide. A língua, por si só, já
representa uma parte fundamental desse conhecimento. A outra parte são as
atitudes comuns, os hábitos, as crenças, os valores. Segundo Sales (In: Reis,
1999 p. 22), os brasileiros têm preservado sua cultura e seus vínculos com o
Brasil através da manutenção de uma série de hábitos considerados típicos,
como a culinária, a música, a dança, a
valorização da estética brasileira, que dita o padrão de vestimenta, corte de
cabelo, a valorização dos produtos brasileiros e, principalmente, pela
preservação de sua língua no cotidiano americano. Os depoimentos dos imigrantes pioneiros atestam que no início, os brasileiros, ao chegarem aos Estados Unidos, se aproximaram dos portugueses para terem a chance de falar a mesma língua. Com a intensificação do número de brasileiros nos Estados Unidos, a exemplo do espanhol, o português foi aos poucos se impondo como mais uma língua. “O português foi sendo usado não apenas na educação
básica das escolas, mas nos negócios e nos serviços básicos de atendimento. O
que, por sua vez, abriu todo um novo campo de trabalho para os brasileiros,
como tradutores nos hospitais, como funcionários nos bancos, nos serviços
específicos de atendimento às populações de baixa renda” (Ibid., p. 23). A atitude dos brasileiros de preservar sua língua e cultura não é isolada. O mesmo foi observado no início da imigração de outros grupos. Nas regiões com grandes números de falantes estrangeiros, a vida social, os negócios, os assuntos religiosos não eram conduzidos em inglês. Jornais, revistas, programas de rádio, eventos sociais afloraram nas mais diversas línguas. Com o tempo, contudo, na medida em que foram se dispersando os antigos membros dos bairros de imigrantes, esses jornais em língua estrangeira começaram a ter artigos tanto na língua de origem como em inglês, passando a ser impressos totalmente nesta última língua ou gradativamente saindo de circulação. Da mesma forma foram declinando os cultos, os programas de rádio e os eventos sociais. Uma das explicações para
este fenômeno é o fato de que, na maioria das vezes, quando duas línguas
entram em contato, uma batalha é travada entre elas para a manutenção de uma
e a extinção da outra. Muitos, complexos e, às vezes não muito claros, são os
fatores que influenciam tal fenômeno (Mello, 2000, p. 3). Todavia, é notório
que as línguas estrangeiras sobrevivem melhor onde há uma população grande o
bastante para que as atividades sociais do dia-a-dia aconteçam nessa língua.
Quanto mais próximo de si estiverem os falantes, maiores as chances de
preservação de sua língua materna. A população de brasileiros nos
Estados Unidos concentra-se basicamente na região compreendida entre os
estados de Massachusetts e Nova York, na Flórida e, mais a oeste, na
Califórnia na cidade de São Francisco. Nestas áreas o contingente brasileiro
é tão grande que é comum ouvirmos comentários do tipo “parece até que a gente
está no Brasil”. A exemplo do que aconteceu com a primeira geração de outros
grandes grupos de imigrantes, os brasileiros também têm construído toda uma
rede de apoio à manutenção da sua língua. Pode-se falar português numa série
de lojas, empresas de turismo e, como já foi dito, em hospitais e serviços de
atendimento. Uma infinidade de igrejas celebram seus cultos nesta língua Os
brasileiros freqüentam boates, bares, restaurantes e festas brasileiras. Nas
regiões com grande concentração de brasileiros, há programas de rádio e
televisão, jornais, revistas, editados em português. Das instituições
citadas, três foram escolhidas para uma exemplificação melhor. São elas a
imprensa, a televisão e a igreja. A imprensa brasileira nos Estados
Unidos é conhecida como “imprensa brazuca”, termo também usado para designar
os imigrantes brasileiros de um modo geral[viii].
Segundo Sales e Ribeiro (In: Reis, 1999, p. 25), dentre os principais
periódicos que a compõe estão o Brazilian
Times, Brazilian Voice, Diário do Brasil, State News, Jornal de Sports,
Impacto, Green Card, Shalom, Brazil
Today, todos jornais, e duas revistas, Brazilian People e Alternativa.
Um dos informantes de Jaraguá mencionou também O Imigrante, que segundo seu depoimento, circula em Danbury e “é chegar e acabar”. Scudeler (citado por Sales. In: Reis,
1999) fez um relatório detalhado sobre a imprensa brazuca, cujos principais
aspectos, segundo o autor, seriam o seu caráter provinciano de representação
da identidade étnica de seus leitores; suas notícias, concentradas sobretudo
na vivência comunitária expressa nas colunas sociais, nos informes
religiosos, nos depoimentos de experiências particulares; na cobertura das
necessidades básicas através da propaganda dos serviços dos imigrantes,
alguns deles valorizados explicitamente por serem brasileiros e falarem
português, como é o caso dos serviços de advocacia; pelas notícias sobre brasileiros
bem-sucedidos, brasileiros que estão inaugurando seus negócios, o surgimento
de novos templos e igrejas, festas, aniversários, casamentos, nascimentos,
batizados, artistas brasileiros visitando a comunidade para um show, etc. Outro meio de comunicação em
português que apoia a manutenção do idioma
é a televisão. “não
dominado o idioma local, o brasileiro não podia nem se distrair vendo
televisão, pois não entendia nada daqueles programas em inglês. Achava melhor
então, preencher todos os seus dias com trabalho...” (Sales. In: Reis,1999
p.38) Foi
assim nos primeiros anos da imigração, todavia por volta de 1993 teve início
a venda e locação de fitas gravadas que vinham do Brasil com “pacotes” de
novelas globais, Fantástico e
noticiários. Atualmente a própria Rede Globo está disponibilizando a
assinatura de seus programas via antena parabólica com programação simultânea
entre o Brasil e os Estados Unidos. O hábito de ver a programação global é
fato tão corriqueiro entre os imigrantes que eles comentam os últimos
capítulos das novelas e as notícias do Fantástico como um fato comum. Nas
entrevistas com os imigrantes jaragüenses, ao serem perguntados sobre o que
assistiam na televisão, as respostas incluíram nomes de programas como o Sai
de Baixo e várias novelas. Além dos jornais, revistas e da
televisão outra grande instituição que preserva a língua portuguesa é a
igreja. Ela, aliás, mantém não apenas o idioma mas, principalmente, a cultura
religiosa do Brasil. As instituições religiosas brasileiras nos Estados
Unidos são representadas por inúmeras igrejas católicas e evangélicas. Estas
últimas se dividem em uma lista entre Presbiteriana, Batista, Assembléia de
Deus, Evangélica Brasileira, Evangelho Quadrangular, Comunidade Cristã,
Cristã Brasileira, Batista Shalom, Maranatha, Batista Missionária, Evangélica
Boas Novas, Metodista, só para citar as referidas na pesquisa de Ana Cristina
Martes (In: Reis, 1999 p. 88). “Eu
freqüentava Igreja, mas era brasileira. Padre brasileiro. Católica. Eu ía só
numa. Agora tinha muita igreja de brasileiro mas era de crente, várias
igrejas de crente. Mas a minha, o padre era brasileiro de Minas Gerais. Lá
tem brasileiro pra perder, você vê assim, você vê mais é brasileiro. ([ix]Rosa,
informante jaragüense sobre a sua participação na igreja católica de Danbury.
Julho de 2000) De um modo geral as igrejas
brasileiras promovem além dos cultos em português uma série de outros
serviços aos imigrantes, como ajuda pessoal, veiculação de informação de
empregos e moradias disponíveis, arrecadação e distribuição de alimentos e
agasalhos, providência de intérpretes e tradutores e muitos outros. Além
disso, as igrejas são também pontos de encontro para relações sociais dos
imigrantes. “Na
igreja de brasileiro é bom demais. Lanche embaixo depois. A gente fala em
português. Tem brasileiro de toda parte lá”. (Élio, informante jaragüense
sobre a sua participação na igreja católica de Danbury, julho de 2000) A grande teia de relações sociais constituída pelos brasileiros através da preservação do português atesta a necessidade de manutenção de sua identidade étnica[x]por via da língua e de sua cultura. Como foi dito anteriormente, o encontro de duas línguas provoca em geral um entrave entre elas, no qual estão implícitos uma série de valores que, na maioria das vezes, nada têm a ver com fatores lingüísticos propriamente. A manutenção do português neste primeiro momento de imigração dos brasileiros na América está ainda muito ligada à necessidade desse grupo de se impor etnicamente. Por isso a retenção temporária do português não garante sua perpetuação indefinida como mais uma língua dentro dos Estados Unidos. Inúmeros são os fatores concorrentes para a manutenção ou o desaparecimento da língua portuguesa nas condições aqui definidas. Em geral, as línguas dos imigrantes começam a declinar à medida que, com o tempo, seus descendentes começam a se socializar na nova terra. Um dos únicos grupos estrangeiros na América, e também o maior, que tem conseguido preservar sua língua há mais de quatro gerações é o hispânico. As razões apontadas para a retenção do espanhol se relacionam à aparente incapacidade de seus falantes de penetrarem na corrente social americana. Segundo Chaika (s.d), eles têm medo da perda de identidade étnica e de sua solidariedade, caso abram mão do espanhol. No caso do português, provavelmente, o fator de identificação social será também decisivo na sua manutenção ou não. Nossa identidade social é determinada através de nossa participação como membros de uma comunidade, da qual nos definimos como os de “dentro” contra os demais, os de “fora” (Kramsch, 1998 p.8). Nos Estados Unidos a identidade étnica dos brasileiros é um fator muito problemático. Eles são confundidos pela maioria dos americanos como hispânicos, uma designação errônea, uma vez que o seu uso refere-se a falantes de espanhol. Tal confusão gera irritação por parte dos brasileiros que não abrem mão de uma diferenciação. Apesar de ser um país sul-americano e latino, o fato de se falar português, de certa forma isola o Brasil dos demais vizinhos também sul-americanos. Nas palavras de Darcy Ribeiro, “o Brasil e a América hispânica estão divididos em dois mundos, um de costas para o outro” (citado por Margolis, 1993). É interessante, no entanto, que uma das razões para a confusão dos americanos com os brasileiros e hispânicos deriva do fato de ambos se comunicarem em espanhol. Embora os brasileiros digam com orgulho “não, eu não falo espanhol, sou brasileiro e no Brasil se fala português”, na realidade o conhecimento da língua espanhola é muito útil para eles. Segundo os depoimentos de imigrantes, muitos brasileiros aprendem espanhol até melhor e antes de aprenderem inglês. Devido às semelhanças das duas línguas, hispânicos e brasileiros se comunicam com facilidade, para maior confusão ainda dos americanos que não percebem as diferenças. Alguns deles comentam que o “espanhol dos brasileiros” em relação ao dos hispânicos tem de diferente apenas um certo sotaque francês (Margolis, 1993). Como esses grupos se misturam constantemente nos ambientes de trabalho, onde se comunicam, às vezes cada um na sua língua, muitos americanos usam o conhecimento de espanhol de que dispõem ao falarem com brasileiros quando estes não os entendem em inglês. “Pra falar com ele eu falava assim, olha, tudo que
eles falavam eu entendia, mas eu falar eu não falava, eu falava errado, cê
entende? Custava pra ele entender, aí ele falava muito espanhol também
comigo. Eu respondia, né?” (Rosa, imigrante jaragüense sobre como se entendia
com seu patrão. Julho de 2000). “Quando a gente chega lá tem muita fábrica e elas
são cheias de hispânicos, aí brasileiro não precisa de saber falar inglês,
porque entende tudo, né?”(Geralda, imigrante jaragüense, julho de 2000) A convivência dos brasileiros com os hispânicos e o uso do espanhol para se comunicarem entre si e mesmo com os americanos, não muda o fato deles quererem se diferenciar etnicamente. Aliás, a ignorância dos americanos com relação às peculiaridades étno-lingüísticas que separam os brasileiros dos demais latinos é motivo de exasperação dos nossos conterrâneos. Os americanos praticamente desconhecem o português. Numa ocasião em que se divulgou a apresentação grátis da peça “Sonhos e uma noite de verão” em português no Central Park houve uma indisposição generalizada na imprensa local. “Português? Quem fala português em Nova York?”. É interessante que, embora os americanos de um modo geral não distingam brasileiros de hispânicos, os primeiros consideram-se superiores em relação aos últimos. É o que atesta os estudos de Margolis(1993) e o que alguns informantes jaragüenses deixam transparecer. “Eu tinha uns amigos hispânicos. A gente falava em
português e eles falavam em espanhol e a gente se entendia. Eles falam inglês
muito pior do que a gente. O sotaque deles é péssimo, muito pior que o nosso.
Os americanos não entendem o que eles falam. Americano não confunde a gente
com latino, eles são todos iguais, baixinho, narigudo, feio demais” (Élio,
imigrante jaragüense, julho de 2000) “Eu acho ainda a raça mais inteligente que eu pude,
assim, observar lá mais foi a brasileira. Teve um dia que eu contei numa
fábrica vinte raças, e eu acho que a brasileira é a mais inteligente, é a que
pega as coisas mais fácil, a língua, tudo”.(Geralda, imigrante jaragüense,
julho de 2000) Os julgamentos de valores em relação à inteligência, à capacidade de aprendizagem da língua e até à beleza dos brasileiros são demonstrações visíveis de sua identificação como um grupo social distinto. O desejo de certos grupos de se manterem unidos, falando a mesma língua, participando dos mesmos tipos de atividades sociais e de lazer que quando estavam no seu país de origem, é uma forma de defesa de sua identidade em relação ao grupo majoritário. O vínculo estreito entre língua e identidade étnico-social pode determinar diferentes graus de aprendizagem e sotaque numa língua estrangeira. Alguns imigrantes nunca chegam a aprender a língua de seu novo pais. Outros aprendem apenas o suficiente para poder encontrar um trabalho e ir levando. Alguns retêm um forte sotaque a despeito do tempo de contato com a língua estrangeira ser maior que o da língua nativa. Há os que aprendem a nova língua quase sem nenhum traço de sotaque do idioma anterior. Embora os níveis de proficiência atingidos pelos falantes varie consideravelmente em função de aspectos psicológicos, como aptidão lingüística, estilo de aprendizagem e personalidade, muito também pode ser atribuído ao contexto social (Ellis, 1994 p.197). É ao contexto e a outros fatores de cunho social que muitos estudos na área de aquisição de segunda língua têm atribuído o insucesso comum de muitos adultos em aprender outro idioma. Segundo Ellis (1994), os fatores sociais podem influenciar determinadas atitudes dos falantes, as quais, por seu turno, interferem na aquisição da nova língua. Essas atitudes dos aprendizes variam em relação à língua-alvo, aos falantes dessa língua, à sua cultura, aos seus valores sociais, usos particulares da língua e a si mesmos, como membros de sua própria cultura. Neste artigo, estas questões estão apenas sendo levantadas como passíveis de maior investigação científica, por isso as atitudes dos imigrantes brasileiros em relação à língua inglesa não foram medidas propriamente através de um instrumento adequado. Nos estudos levantados pelos pesquisadores da área social, este ponto não pôde ser deduzido em virtude de suas especificidades. No entanto, alguns fatores relacionados a atitudes ficaram evidenciados nas entrevistas dos ex-imigrantes jaragüenses. Como o número de entrevistados é muito reduzido e não pode ser considerado como representativo da população de imigrantes jaragüenses em Danbury, ficam aqui alguns relatos que ilustram a questão das atitudes num plano individual. Atitudes envolvem crenças, emoções e tendências de comportamento. Elas consistem numa predisposição psicológica para agir ou avaliar um comportamento (McGroarty, 1996 p.4). O relato abaixo ilustra de forma bastante clara a ligação das atitudes a esses aspectos mencionados. “Se eu soubesse que a pessoa sabia mais inglês do
que eu, aí eu jogava pra cima da pessoa, aí ela se virava, qualquer coisa que
a gente precisasse ela sabia mais... Mas se a outra soubesse menos aí eu
falava sem problema. Porque a pessoa sabendo menos ela ía deixar por minha
conta, se eu não fosse em frente não ía conseguir o que a gente estava
querendo, se fosse o caso de comprar alguma coisa eu não ía deixar de comprar
se eu podia fazer aquilo. Lá eu só pensava em ganhar dinheiro e vir embora,
aí o inglês ficava em segundo plano” ( Neide, 2000) Neide deixa muito visível sua atitude prática em relação ao uso da língua. Ela não demonstra nenhum envolvimento afetivo com o idioma. Em nenhum momento Neide deixa transparecer que gosta de falar inglês, que acha interessante seu conhecimento como uma satisfação pessoal. Para ela falar inglês era uma questão de resolução de problemas imediatos. É interessante que a própria Neide, assim como todos os informantes jaragüenses, disse que ao chegar nos EUA teve muita vontade de aprender inglês. Mas esse desejo é claramente vinculado a necessidades práticas. Em suas próprias palavras, o conhecimento do idioma lhe proporcionaria uma certa liberdade e mobilidade. Sem saber inglês os brasileiros necessitam de intermediários para conduzir transações das mais elementares às mais complexas, como compra de produtos, aluguel de casa e até mesmo negociações de salário.
“Eu achava muito importante aprender, só que eu
também não dava importância. Eu sabia que era muito importante, é lógico. Se
você fala inglês você é mais livre. Não precisa de ninguém pra fazer as
coisas pra você. Mas a gente, brasileiro... é.... todo mundo que chega lá,
vai para escola para aprender, mas logo sai, não volta para escola” (Geralda,
informante de Jaraguá, julho de 2000). Os informantes, com a exceção de apenas um, disseram que sua vontade de aprender acabou sucumbindo frente a outras necessidades, como a de trabalho, por exemplo, ou a dificuldades pessoais. “Eu tinha muita vontade de aprender a falar inglês.
Eu fui para a escola, comecei a estudar, mas o tempo da gente trabalhar é
muito e eu não tinha condições de estudar, aí eu parei”. ( Neide, Jaraguá
julho de 2000) “Eu tinha vontade demais de aprender inglês, muito
mesmo. Mas o problema meu foi isso, que quando eu fui, eu tinha cinqüenta
anos quando eu cheguei lá. A idade já fecha a mente da gente. Eu acho que
minha mente é fechada, menina”. (Rosa, Jaraguá julho de 2000) A vontade de aprender manifesta pelos informantes não parece se fundamentar em valores mais subjetivos, como investimento na aprendizagem do idioma para uso futuro com fins acadêmicos, ou na melhoria de suas condições de emprego etc. Seus fins eram claramente imediatistas. Sua motivação para falar inglês se embasava na resolução de problemas mais práticos do cotidiano. Segundo McGroarty (1996 p. 5), motivação é uma combinação de desejo e esforço realizados para atingir uma meta; ela liga as razões do indivíduo para a aprendizagem de uma língua, por exemplo, ao seu comportamento e grau de esforço empregado na conquista dessa meta. A motivação é um fator muito decisivo na aquisição lingüística. Entre os maiores estudiosos dessa área, Gardner e Lambert (citado por McGroarty, 1996 p. 5), distinguem dois tipos de motivação, a intrínseca, relativa ao indivíduo, e extrínseca, baseada na percepção do indivíduo sobre recompensas externas. Posteriormente os mesmos autores identificaram também a motivação integrativa, aquela em que o indivíduo deseja aprender a língua para interagir com seus falantes e integrar-se à sua comunidade; e motivação instrumental, a que os falantes movem-se pela necessidade profissional ou acadêmica de aprender a língua. Detectar os tipos de motivação por trás das atitudes dos sujeitos entrevistados é uma tarefa instigante, que demandaria uma investigação mais aprofundada. Superficialmente, o que se pôde perceber neste primeiro momento é que o conhecimento do inglês não se relaciona a nenhum tipo de gosto pessoal pela aprendizagem das línguas, ou seja, os sujeitos não manifestaram relações intrínsecas de afeto pela língua inglesa, do tipo que se pode perceber quando dizemos que gostamos de tal idioma, temos prazer em aprender outras línguas, etc. O que se evidenciou nas entrevistas é que o conhecimento do inglês por si só não tem nenhuma importância, ele só adquire valor na medida em que é um instrumento mediador na aquisição das necessidades básicas dos imigrantes.
“Eu acho que não me esforcei muito para aprender, eu
queria só namorar, trabalhar, eu não esforcei muito não. Quem fala inglês
pode se virar, quem não fala não tem jeito de comprar uma coisa. Mas também
sem falar eles conseguem viver, tem muita pessoa que não sabe falar e eles lá
não apelam não”. (Élio, julho de 2000) “Eu queria estudar, mas quando eu pensava que eu
queria vir embora, eu desistia de estudo, desistia de qualquer coisa, assim,
eu tinha vontade de aprender, mas eu não precisava, eu sabia que eu não ía
ficar lá, eu queria vir embora o mais rápido possível, eu deixei meu filho
aqui”. (Neide, julho de 2000) Por outro lado, é curioso que a frase “eu queria aprender” é cem por cento citada pelos informantes. Ou seja, todos manifestaram o desejo de aprender a língua ao chegarem aos EUA. Não podemos inferir, todavia, o grau desse desejo, até que ponto ele era realmente forte ou apenas uma intenção indefinida. De qualquer forma ele estava presente. Que fatores poderiam então ter afetado as atitudes dos imigrantes para agirem contrariamente à vontade de aprender, eximindo-se de manter um contato maior com a língua? Segundo Peirce (1995) relações de poder exercem um papel crucial na interação entre aprendizes de uma nova língua e os falantes da língua alvo. “a primeira vez que eu saí tinha duas semanas que
estava lá. Nossa! mas, foi a coisa mais sem graça. Deu arrependimento,
cheguei em casa eu chorei, verdade. Falei, nossa! Não agüento não! Eu não
tinha muito amizade, né? Aí os amigos ainda não importavam muito comigo, não
tinha amizade. Aí eles ficavam só falando em inglês sem importar comigo. Eles
queriam, eu acho, se exibir um pouco” (Élio, 2000) O relato de Élio mostra seu sentimento de humilhação por não saber falar inglês. O desconhecimento da língua o colocava numa posição de inferioridade dentro de seu grupo. Quando um aprendiz fala, ele não está apenas trocando informação, ele está sim, constantemente organizando e reorganizando seu senso de quem ele é e de como ele se relaciona no mundo social (Ibid., 1995). “Quando você se mistura assim, quando você está no
meio dos americanos, eu acho que é a melhor escola. Mas a gente fica inibida
quando tem brasileiro por perto. Eu prefiro falar assim com americano mesmo,
porque a gente se entende, porque quando tem brasileiro perto eles corrigem e
aí a gente fica inibida. Até americano mesmo, eu tenho colegas que casaram
com americanos e eles chamam a atenção delas e aí então elas se trancam (Geralda,
julho de 2000) “Com americano eu não tinha vergonha. Eles sabem que
a gente tem dificuldade” (Élio, 2000) De um modo geral as pessoas lutam para se manter numa posição, no mínimo, de igualdade entre seus pares. É claro que o que nos dá sensação de superioridade nos torna mais confiantes e seguros. Essas relações de poder influenciam diretamente nossa identidade e nossas atitudes em sociedade. Num ambiente de multilingüismo e multicultural, como é o caso dos EUA, um investimento na língua alvo é também um investimento na posição social do aprendiz. Uma informante de Jaraguá mencionou que quanto menor for o nível de fluência do falante, proporcionalmente menores serão suas chances de bons empregos. “Quem não fala nada vai trabalhar na limpeza. Quem
já domina alguma coisinha pode atender em balcão de lanchonete. Agora se você
já fala melhor, vai ser garçon, garçonete, e além de ganhar mais, ainda tem
as tips. Um amigo meu, que fala
fluentemente, hoje é gerente de um restaurante onde ele começou como garçon.”
(Andréia, comentário informal. Julho de 2000) Os imigrantes têm plena ciência de que o nível de fluência de inglês afeta diretamente sua condição de emprego e, portanto, seu padrão social. Talvez seja por isso mesmo que todos manifestem aquele desejo, mesmo que vago, de aprender a falar. No entanto é bem sabido que, por outro lado, a aquisição de uma segunda língua demanda um certo grau de exposição a ela, assim como a interação com seus falantes. Neste ponto os brasileiros agem de forma contrária. Como já se expôs anteriormente, eles assistem programas de TV e lêem jornais em português, freqüentam lugares, festas e igrejas de brasileiros, enfim, se mantêm o mínimo possível em contato com o idioma local. O nível de fluência resultante da pouca exposição dos brasileiros ao inglês é um fator a ser investigado. Os estudos sócio-políticos consultados para este artigo deixam a impressão de que não muitos brasileiros estão aprendendo inglês, e os que o estão, não parecem ter alcançado níveis mais avançados de proficiência. “Eu penso que falo mal, né? Porque tudo que eu quero
comunicar eu consigo, mas tem muito erro, por exemplo, um assunto muito
longo, ali vai ter muito erro. Eu vou dizendo, vou pulando, aí a pessoa pega,
mas não porque eu falei tudo certinho. Eu aprendi pouco, dá pra mim
conversar, não dá para conversar bem, mas eles me entendiam e eu entendia
eles”. (Neide, Jaraguá, julho de
2000) “Eu não falo, mas se fosse, assim, o caso de eu
voltar eu sei me virar muito bem, porque eu consigo entender o que eles dizem
e eu sei me comunicar” (Geralda. Jaraguá, julho de 2000) Os níveis de proficiência de uma
língua variam não apenas de indivíduo para indivíduo. As próprias habilidades
do indivíduo na segunda língua também não são sempre bem niveladas. Algumas
pessoas conseguem entender melhor do que falar, às vezes falam e entendem sem
problemas, mas não são capazes de ler escrever no mesmo ritmo. Os estudos
sobre indivíduos bilingües têm revelado que, de uma maneira geral, o domínio
das duas línguas não se equipara em todas as situações de uso dos idiomas em
contato. As línguas normalmente possuem funções distintas e o bilíngüe altera
seus modos de fala de acordo com essas funções. Pare se entender melhor o
papel das línguas numa situação de multilingüismo é preciso recorrer à noção
de domínio lingüístico. Um domínio
é uma abstração teórica que se refere a uma situação particular na qual
ocorre uma determinada interação verbal, como por exemplo, uma interação
entre pessoas de uma mesma família pertence ao domínio familiar, assim como
uma interação entre professores e
alunos pertence ao domínio escolar e assim por diante (Mello, 2000). A
classificação dos domínios lingüísticos identifica, entre outros, cinco
domínios básicos, a família, a escola, a vizinhança, a igreja e o trabalho.
Cada domínio determina o uso de apenas uma ou mais línguas de acordo com os
membros da interação, das relações afetivas entre eles, do tópico de
discussão, do nível de formalidade ou informalidade do contexto e da função
da interação (Ibid. 2000). Embora, as características
introdutórias deste artigo, não permitam o aprofundamento maior em nenhum dos
tópicos aqui levantados, uma última consideração se faz necessária na área de
aquisição e proficiência lingüística. Já se disse que tais aspectos
necessitam de instrumentos próprios para sua
mensuração, todavia, pelas entrevistas ficou evidente que houve um
certo grau de aquisição pelos falantes. Ainda que não se possa inferir com
certeza o nível em que essa aquisição se deu, pelos comentários dos
entrevistados sua manifestação torna-se visível. “Algumas patroas tentavam perguntar algumas coisas pra gente, assim, se a gente queria voltar pro Brasil. Eu respondia assim: I’m from Brasil, all my family is in Brazil, sempre eu falava I need, o need a gente usava muito, I need go back to Brasil because I have my son with mummy, he’s with my mummy. Tudo era a necessidade, eu ía tentando e falando errado, elas entendiam” (Neide, sobre uma conversa com uma patroa, julho de 2000). “Eu me virava com ela, ela me entendia e eu entendia
ela. Eu sabia um pouquinho de inglês, assim, eu, you like my job, eu perguntava pra ela” (Geralda, sobre sua
comunicação com uma patroa, julho de 2000). O trabalho foi o domínio lingüístico apontado como o de maior uso da língua inglesa. A escola também é citada, pelos que a freqüentaram, como um domínio onde o inglês era usado. “Eu praticamente só usava inglês, assim fora no caso do comércio, no trabalho e assim, conversar com a professora. Com a professora a gente conversava sempre as coisas do país da gente”. (Neide, julho de 2000)
Embora esses domínios não sejam apontados como de uso exclusivo do
inglês_ o português na realidade era até mais usado, pois os falantes
disseram que trabalhavam em grupo com outros brasileiros e estudavam em
escolas de imigrantes onde algumas disciplinas eram ministradas em português_
esses locais são apontados como os de
maior intercurso com americanos, além dos locais de comércio. O aprendizado
da língua provavelmente adveio desses momentos de interação. De onde também é
possível ter vindo uma série de unidades léxicas que penetram o discurso dos
imigrantes. Segundo Teresa Sales (In: Reis,1999), muitas expressões do inglês
estão sendo incorporadas ao português, como bisado (ocupado) e parquear
(estacionar). “Brasileiro fala umas palavras assim, “bisado”,
“bisado” é muito. Hoje mesmo eu estava muito bisada, porque cedo eu fui pro
hospital, né? Cheguei aqui, um bocado de coisa pra eu resolver, eu tive que
ligar pro hospital. Eu fiquei muito “bisada” com aquela coiseira toda, né?”
(Rosa, julho de 2000). O trecho acima mostra como certos falantes incorporam o significado desses termos sem traduzi-los para o português. É como se eles estivessem estruturando novos conceitos. “Depois de nove meses eu mudei de emprego aí eu já
passei a ser boss Meu marido também
era boss numa firma de carpintaria”
( Neide, 2000) “Joe, um americano que uma vez deu U$ 10. de tip pra minha filha....” (Geralda,
julho de 2000) Gláucia Assis (In: Reis,1999) mostra que as mulheres imigrantes ao se referirem a seus trabalhos empregam termos em inglês mesmo, como house clean, babysitter, house keeper, bar-maid, etc. Suas informantes comentavam “Comecei a trabalhar no Hotel Harboview como house keeper”, “decidimos trabalhar live-in”. A mistura de palavras, frases e sentenças em dois códigos num mesmo evento de fala é caracterizado dentro da lingüística como mudança de código (Mello,1999 p. 94). Há, todavia, uma certa confusão entre o termo mudança de código e empréstimo lingüístico. Este último seria conceituado como uma palavra ou expressão fonológica e morfologicamente adaptada à língua que está sendo falada (Ibid.) De qualquer forma ambos estão presentes na fala dos imigrantes brasileiros. “eu fui passear na casa de uma velhinha, e aí ela
foi apanhar uns trens pra levar, aí ela falou pra filha dela apanhar uma
“bega”. Falou, na hora que ela falou lá, eu não entendi, que era o trem que
ela ía pegar, né. Aí ela trouxe assim uma sacolinha, que aqui a gente fala é
sacolinha, né? Eu aprendi tanto que nem aqui eu não gosto de falar sacolinha,
eu gosto de falar “beg”. E
refrigerante, lá nós falamos refrigerante, né? Lá é “soda”. Aí aqui eu queria
falar refrigerante, mas aí eu achava ruim, eu falava era “soda”, mas os meninos achavam ruim eu falar “soda”, sabe? Eu não queria falar
mamãe, eu queria falar “mummy”,
quando eu chequei aqui eu ainda tinha minha mãe, aí eu queria chamar ela só
de “mummy”. Cê entende? Seja
errado, mas eu queria continuar aquela palavra”. (Rosa, 2000)
Este último recorte proporciona
uma idéia sobre o mecanismo de aquisição e incorporação de certos termos da
nova língua pelo falante. Este talvez seja, de todos os pontos aqui
levantados, o mais subjetivo e de maior dificuldade de estudo. Embora seja,
provavelmente também, o que traria grandes benefícios práticos do ponto de
vista educacional, pois subsidiaria a compreensão do processo de aprendizagem
do inglês por falantes de português especificamente.
Relação entre língua, cultura e identidade étnica; extinção e
preservação das línguas; relação entre aquisição, nível de proficiência e
investimento social, atitudes e motivação; domínios lingüísticos; empréstimos
e mudanças de código e mecanismo de aquisição, foram os aspectos levantados
neste artigo advindos das relações entre o português e o inglês na situação
de contato dos imigrantes brasileiros nos EUA. Todos estes pontos são
passíveis de investigações mais aprofundadas sob o ponto de vista da
lingüística. Na realidade o que se pretendeu neste trabalho introdutório foi
justamente chamar a atenção para a necessidade de pesquisas nesta área, uma
vez que o terreno se mostre tão fértil e singular. Cada um dos tópicos aqui
levantados, por si sós, já constituem um imenso campo de estudo. Apesar de se tratar de um fenômeno ainda muito recente e que está acontecendo tão longe de nossa realidade imediata aqui do Brasil, as relações lingüísticas resultantes do encontro do português com uma língua de tão grande expressão mundial nos dias atuais como o inglês, podem subsidiar uma série de questões relacionadas a ramos de atividades bastante práticas, como educação e políticas lingüísticas. Quanto a estas últimas, por exemplo, a visão do português como língua minoritária, como é o caso em questão, proporcionaria algumas reflexões sobre sua posição atual no Brasil em relação às demais línguas de imigrantes e às inúmeras línguas indígenas. O português foi, assim como muitas línguas européias, o idioma que se impôs a uma série de línguas nativas num momento de expansão colonialista. Estamos acostumados a ver a língua portuguesa numa posição dominante e majoritária. O reverso pode trazer considerações novas nesta área , assim como uma revisão de posturas tradicionais. Da mesma forma, no plano educacional todo o conhecimento relativo aos processos de aquisição da língua inglesa subsidiariam grandemente o ensino de línguas estrangeiras em nosso país. Sabe-se que o inglês é o idioma estrangeiro predominante no currículo das nossas escolas de ensino fundamental e médio, tanto nas públicas, quanto nas particulares, e que as próprias circunstâncias do processo de globalização determinam uma necessidade cada vez maior de domínio dessa língua. Portanto quaisquer estudos relacionados à aprendizagem de inglês, especialmente aqueles que a abordem sob o prisma dos falantes de português especificamente e, mais ainda, por brasileiros, sem dúvida alguma seriam de influência direta em ramos da atividade do ensino de línguas estrangeiras como, por exemplo, na confecção de materiais didáticos adequados à nossa realidade e na reformulação dos próprios métodos de ensino. Por fim, segundo Chaika (s.d.), os
imigrantes de todos os tempos parecem ter sofrido daquela melancolia citada
no início do artigo, provocada pela saudade de casa sempre presente, por uma
dada confusão de identidade e sensação de solidão. Por isso, retomando os
versos da canção de Bob Dylan, especialmente o que diz “But in the end is always left so alone”, pesquisas sobre nossos
imigrantes os redimem de algum modo de seu isolamento. Afinal, por que deixa-los esquecidos? |
[i] Tenho pena do pobre imigrante que queria estar em casa, que usa todas as suas forças na luta, mas no final acaba solitário.
[ii] Apesar da expressão melting pot referir-se à diversidade étno-lingüística, a ideologia oficial integracionista americana caracteriza-se pelo uso comum do inglês, mascarando a situação plurilíngüe dos EUA.
[iii] No texto alterno o uso das palavras imigrante e emigrante. Uso o primeiro termo em relação aos sujeitos que estão saindo do Brasil e imigrantes em relação aos que estão nos EUA ou de lá voltaram.
[iv] Os sujeitos ouvidos neste estudo, três mulheres e um homem, foram escolhidos através da indicação de outros residentes da cidade de Jaraguá que tinham ciência do seu retorno dos EUA após algum tempo de permanência lá como imigrantes. Devido à falta de informação segura sobre o número de imigrantes jaragüenses na América, não foi possível estabelecer uma população e nem um percentual para amostragem. Por isso o que se fez foi consultar informalmente os moradores da cidade sobre o conhecimento de pessoas que haviam emigrado e estariam de volta naquele momento. Foram apontados ao todo 22 pessoas. Como as características introdutórias deste artigo e mesmo o tempo para sua entrega não permitiam a investigação de todos esses sujeitos, apenas quatro informantes foram ouvidos, tendo os mesmos sido escolhidos aleatoriamente. Outras pessoas também foram ouvidas informalmente sem terem sido propriamente entrevistadas e gravadas. Embora não possam ser considerados representativos da população jaragüense em Danbury, os depoimentos aqui relatados ilustram uma série de evidências bastante relevantes para a compreensão das relações do inglês e português em contato.
[v] Curiosamente a cidade de Jaraguá é um centro de emigração dentro do estado de Goiás. Não há ainda estatísticas oficiais sobre o número de emigrantes nesta cidade. Todavia, a exemplo de outros municípios brasileiros com a mesma tendência como Governador Valadares, em Minas Gerais e Criciúma, no Paraná, é comum o comentário dos moradores de Jaraguá sobre seus parentes e amigos que migraram recentemente para a Argentina, Inglaterra e com muito mais freqüência, para a cidade de Danbury, em Connecticut. Existe no município uma troca intensiva de correspondência com esta última cidade mencionada. Tal correspondência é feita através de cartas, telefonemas e fitas de vídeo gravadas. Além de que, um número sempre crescente de jaragüenses têm tentado conseguir visto para os EUA, seja com a intenção de apenas visitar seus parentes e amigos residentes lá, ou emigrar.
[vi] As estimativas se baseiam no número de vistos concedidos a brasileiros para os EUA nos últimos 10 anos.
[vii] Os relatos transcritos fazem parte da pesquisa de campo realizada por Gláucia Assis.
[viii] Segundo a pesquisadora Teresa Sales, este termo é usado às vezes, com conotações pejorativas. Todavia, a mesma autora achou sugestiva a expressão para o tratamento da imprensa brasileira fora do país e decidiu manter o termo em sua pesquisa. Por isso ele é mencionado neste estudo da mesma maneira como o foi na fonte original.
[ix] Todos os nomes de informantes aqui mencionados são fictícios. Os verdadeiros nomes dos entrevistados foram omitidos, a fim de preservar suas identidades.
[x] Apesar do português não ser a única língua falada no Brasil, onde além dos idiomas falados pelos diversos grupos de imigrantes estrangeiros, convivem uma centena de línguas indígenas, o português é considerado a língua oficial, sendo a de maior referência à identidade étnica para grande parte dos brasileiros.
Tabela dos dados pessoais sobre os informantes jaragüenses
|
Nome |
Sexo |
Idade |
Nível escolar |
Profissão |
Ano da ida |
Quantos anos ficou lá |
Porque foi |
Porque voltou |
Geralda |
f |
42 |
Nível médio |
Dona de casa |
1997 |
3 anos |
Trabalhar |
Pela família |
|
Neide |
f |
26 |
6 série |
Dona de casa |
1994 |
3 anos |
Acompanhar o marido |
Pelo filho |
|
Rosa |
f |
56 |
Analfabeta |
Comerciante |
1994 |
5 anos |
Trabalhar |
Não conseguiu visto |
|
Élio |
m |
17 |
2 série do nível médio |
Estudante |
1997 |
1 ano |
Acompanhar o pai |
Estudar |
Referências
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(Signótica, no prelo)
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