IMIGRANTES BRASILEIROS NOS EUA: LÍNGUA E
IDENTIDADE
Trabalho apresentado no GELCO
Lúcia Gonçalves de Freitas – UEG
Abstract
This research investigates relations of language and
identity of a Brazilian immigrant group, originally from the city of Jaraguá, in
the state of Goiás, which is concentrated in an American city, Danbury, in
Connecticut. The research question was: how do people from Jaraguá, who
migrated to the US, are (re)constructing their identities through the contact
with a new language and culture. The results show a lot of ambiguities in the
subject’s identities reformulations and the emergence of certain inferiority.
Keywords: imigrantes;
identidade; aquisição; segunda língua.
Introdução
A migração brasileira para os EUA é um
fenômeno que tem se intensificado nos últimos vinte anos. Muitos têm sido os
trabalhos sobre o assunto na área das ciências sociais (Ribeiro, 1999;
Martes, 1999; Assis, 1999; Cury, 2001; Biaggi, 1993; Menezes, 2002 etc.).
Contudo, no campo da lingüística, ainda são escassas as pesquisas sobre o tema.
Espíndola (2002) é quem nos fornece praticamente o primeiro trabalho dentro
desta área, enfocando mudanças no português de imigrantes brasileiros em Framingham. A fim de explorar esse espaço pouco percorrido,
também me propus a investigar questões de língua sobre um grupo específico de
imigrantes, todos oriundos de uma mesma cidade do interior de Goiás, Jaraguá,
concentrados na cidade americana do estado de Connecticut, Danbury. Meu foco
centrou-se na questão identitária especificamente, sendo minha pergunta de
pesquisa: como os imigrantes brasileiros de Jaraguá, que moram em Danbury há
mais de três anos, reconstroem suas identidades a partir do contato com uma
outra língua e cultura? Os principais resultados deste trabalho é o que exponho
a seguir, logo após uma pequena revisão teórica e metodológica.
Teoria e metodologia
O que procurei fazer, ao analisar os deslocamentos identitários dos sujeitos desse estudo, cinqüenta e duas pessoas ao todo, foi ver primeiramente como elas se encaixavam no eixo “casa-mundo” de Bhabha (1998). Segundo o autor, os sujeitos que se lançam à dinâmica do mundo atual, migrando de seus contextos particulares e periféricos para os epicentros do sistema global, submetem-se a duas hipóteses possíveis. Por um lado, muitas identidades se ressentem da perda de uma certa ‘pureza’ anterior e, por isso, tentam se recuperar, reforçando aquilo que concebem como “Tradição”. Outras aceitam ou se resignam diante da evidência de que jamais serão as mesmas e, assim, submetem-se a uma “Tradução” (Bhabha, 1998).
Para analisar o enquadramento dos sujeitos dentro das hipóteses do autor, coletei questionários, observações de campo e entrevistas transcritas realizadas em julho de 2002 em Danbury entre os sujeitos da pesquisa e alguns integrantes da comunidade brasileira local, como editores de jornais, padres, pastores, proprietários de pequenos negócios etc.
O conceito de identidade que adoto se apóia nas correntes de estudo pós-estruturalistas, que não aceitam concepções humanistas do indivíduo como um ser dotado de uma essência única e fixa. Nossa identidade vai sendo produzida na nossa interação social, sendo a língua seu principal veículo. Como argumenta Rajagopalan (2002), as identidades da língua e do falante têm implicações mútuas, estando ambas sempre em processo de construção.
Também tive que recorrer a alguns pressupostos da análise crítica de discurso (Fairclough, 2001; van Dijk, 2000), pois essa linha compreende que o grau de poder entre os participantes de uma interação é decisivo no padrão de comportamento e fala de cada indivíduo, e isso está diretamente associado às identidades desses mesmos participantes. No caso de meus sujeitos, a situação de inserção étnica minoritária dentro de um estado nacional como os EUA, vai demandar uma análise que privilegie as relações de poder entre os grupos.
Análise: Tradição x
Tradução
O problema é o que o brasileiro
aqui não é mais o mesmo brasileiro que no Brasil, “[1]period”,
entendeu? Ponto final. Não é. Depois de três anos aqui você já não é a mesma
pessoa, dois anos aqui já é o suficiente pra te mudar. A sua cultura não é mais
a mesma. (Editora
do jornal Tribuna CT de Danbury)
Esta declaração categórica sobre a “mudança cultural” do brasileiro nos EUA evidencia duas crenças básicas: de um lado, a de que existe uma identidade nacional brasileira e, de outro lado, a de que esta identidade estaria sendo irremediavelmente afetada no contato com o contexto americano. Lembrando o eixo Tradição-Tradução de Bhabha (1998) fui procurar saber como a “nova” identidade brasileira estaria se processando.
Como propõe Renan (1982, apud Rajagopalan, 2002:86), “só se têm identidades quando há quem as reivindique com empenho e fervor contínuos”. Tendo isso em mente, fui procurar por esses articuladores. O que percebi é que, basicamente, duas entidades se prestam a essa tarefa, as igrejas e os jornais. As primeiras, porque conseguem reunir regularmente até centenas de pessoas durante as missas e cultos e nas reuniões que promovem, geralmente, logo em seguida:
...nós
procuramos valorizar nossas datas, 7 de setembro, 12 de outubro, e… procuramos
valorizar nossas festas, esse final de semana tivemos a festa junina, com
quadrilha, com tudo. Quer dizer... o povo, por estar longe da pátria se amarra
nestas....nestas tradições nossas né, fazemos... tornar vivas essas realidades
que unem nosso povo, que une nossa gente, essas tradições históricas né, essas
tradições religiosas, históricas, tudo isso a gente passa, a gente congrega,
usa pra congregar o povo, pra não deixar esse povo aqui esquecer dessa riqueza
que nós temos. (Padre da Comunidade Católica de Danbury)
Da mesma forma que as igrejas, a imprensa brasileira nos EUA também desempenha um papel fundamental para a comunidade. Em Danbury ela se constitui de dois jornais basicamente, o TribunaCT e O Imigrante. Este último é todo em português, com alguns artigos também em espanhol, e o primeiro é bilíngüe, português-inglês, portanto tem a característica de poder projetar a comunidade brasileira também para os americanos e os outros grupos que já falam inglês:
Desde o princípio meu
objetivo era favorecer a integração das duas culturas através de um jornal que
falasse duas línguas. A comunidade americana seria beneficiada com o
conhecimento dos nossos valores, costumes e riquezas culturais, e os
brasileiros além de assimilarem parte da cultura norte-americana, teriam
oportunidade de adquirirem mais conhecimento sobre o país onde residem
sentindo-se mais seguros para integrarem-se a esta cultura e lutarem por seus
objetivos sem perderem suas raízes. (Editorial do TribunaCt, N.21, 8 nov. 2000,
p.4)
Como se pode perceber essas entidades, na figura de seus representantes, têm claramente o propósito de se prestarem àquele papel de mediadores da construção simbólica da comunidade brasileira. Eles estão propagando em larga escala aquilo que concebem como as “raízes”, a “cultura”, os “valores” brasileiros. A igreja católica especificamente e o jornal Tribuna têm objetivos distintos, embora muito próximos. Percebe-se que o primeiro tem na “Tradição” seu ponto de ancoragem, enquanto que no segundo a articulação é ambígua, tanto pelas vias da “Tradição” como do que se pode considerar a “Tradução”.
Mas, da mesma forma que os deslocamentos vão percorrendo as vias do hibridismo, é muito interessante notar os indícios de uma outra referência do autor: a irresolução, ou liminaridade da tradução, o elemento de resistência. Muitos foram os exemplos singulares nos depoimentos dos sujeitos, que revelaram um apego muito forte ao seu contexto regional e às tradições locais dos sujeitos:
Agora a maior falta pra mim
é lá do Rio do Peixe, todo sábado e domingo eu tava lá pescando... Mas povo que
vem do Brasil... a gente não tem condições, né...de viver desse jeito. Aqui
não, aqui eu saio cedo, volto à noite, depois, sábado costuma ir muita gente ao
lago...vale a pena, né, mas a gente não esquece do Brasil, não, aquele é que é
o nosso país, um dia a gente quer voltar mesmo. (Vilmar, 53 anos, empregado da
construção civil)
Há uma curiosa expressão de identidade na fala deste senhor que há quatro anos decidiu-se por migrar para os EUA, sem ter visitado o Brasil desde então, e cujas perspectivas de retorno são indefinidas. Ao demonstrar um claro sentimento de perda em relação a uma prática tão popular na sua terra, a pescaria no Rio do Peixe, Vilmar afirma uma identificação de nível regional. Apesar de viver num espaço urbano como o de Danbury, onde há toda uma facilidade de acesso aos serviços e opções de lazer oferecidas pelos grandes malls e shopping centers, com cinemas, teatros, restaurantes, lojas etc., Vilmar se recente da falta do embornal, das suas varas de pesca, anzóis e iscas naturais, com os quais se encaminhava nos fins de semana rumo ao Rio do Peixe em Jaraguá para sua pescaria habitual.
Vilmar, assim como alguns companheiros seus, prefere perpetuar os mesmos hábitos de seu contexto doméstico jaragüense sem demonstrar nenhum interesse maior por nada que sua realidade atual possa lhes proporcionar em termos de inovação. O hábito de fazer pamonhas, por exemplo, é um dos costumes que puderam se manter nos EUA, após os jaragüenses terem descoberto uma variedade de milho local adaptada ao prato.
Diante dessa perspectiva penso que essas pessoas se revelam como exemplos do que os cientistas sociais chamam de “sujeito pós-moderno”, este ser naturalmente atravessado por antagonismos de tantas ordens. São pessoas que têm conseguido se articular por este mundo tão complexamente dividido e que nos fragmenta por inteiro. Um mundo no qual os elementos essenciais das nossas vidas, como os sentimentos, o trabalho, a família, o lazer, podem se alocar em pontos tão diferentes. De forma que é possível, a um só tempo, morar em Danbury, trabalhar em Nova York e ter o coração em Jaraguá.
A gramática da comunidade: o
portinglês
A ambigüidade da afirmação identitária desses brasileiros vai se revelando cada vez mais intrincada nessas análises, como se pôde ver até aqui. Mas, neste ponto específico, vou tocar no que considero um de seus mais interessantes aspectos, o surgimento do que Espíndola (2002) identificou como uma gramática da comunidade, o portinglês. Nas conversas com meus sujeitos e com outros brasileiros em Danbury, volta e meia me surpreendia com certas construções que não me pareciam familiares no Brasil. Por exemplo, constam de meus registros as seguintes anotações:
não era suposto você chegar aqui a essa
hora, era? (Diário de campo, 20 de julho de 2002)
hoje eu vou
aplicar para um emprego (Diário de campo, 18 de julho de 2002)
Hoje mesmo eu estava muito bisada,
porque cedo eu fui pro hospital, né? Cheguei aqui, um bocado de coisa pra eu
resolver, eu tive que ligar pro hospital. Eu fiquei muito bisada com
aquela coiseira toda, né? (Rosa, julho de 2000)
Segundo
Espíndola (2002), essa fala é resultante da alteração sofrida pelo português ao
entrar em contato direto com a língua inglesa, criando o fenômeno da mescla
lingüística. Ela analisa que os dois fatores mais importantes que influenciam a mescla lingüística
são o desconhecimento
da língua inglesa, num primeiro momento, que obriga o imigrante, mesmo assim,
ao contato com a língua por uma questão prática: a de trabalhar. O segundo
fator seria o de que a comunidade continua a se comunicar em português, mas
este português é permeado pelo inglês de uma maneira muito dinâmica. Esse
dinamismo é citado pela editora do Jornal TribunaCT, numa comparação curiosa
que ela faz entre a comunidade brasileira e a portuguesa em Danbury:
A cultura portuguesa é muito conservadora (...)
brasileiro, a língua brasileira ela é mutante, né...ela vai absorvendo as
palavras americanas de uma forma, né...os portugueses não, não absorvem.
Português não fala bisado, parquear.. eles não falam.(Editora do Jornal TribunaCT)
O depoimento da editora
revela que o “status” do imigrante interfere na sua fala, de modo que ele evita
a mescla, pois há embutida nela uma concepção de que o que é mesclado é impuro
e deve ser evitado (Espíndola, 2002).
olha, independente de você gostar ou não é
contagioso, é contagioso e não há vacina, então cê é de fora, você é uma pessoa
com diploma de letras e cê tá aqui há um mês, você fala que você tem que
preencher uma aplicação. Você fala assim, esse negócio não me pega, eu não vou
falar bisado, eu não vou falar parquear que isso é muito feio, eu tô tranqüila
eu tô lá me sentido especial, mas ai´cê fala, a própria pessoa fala isso é
feio, mas continua falando. Eu não falo bisado nem parquear, essas duas eu não
falo não, mas o tempo inteiro eu falo apontamento e aplicação.(Editora do
Jornal TribunaCT)
Percebe-se que o portinglês já está se segmentando em variantes de maior e menor prestígio, como é característico das línguas naturais de um modo geral. Como o valor dessas variantes corresponde ao status social de seus falantes, cabe-nos um comentário importante, que nos remete de volta àquilo que Margolis (1993) percebeu sobre a etnicidade brasileira, o fato de ela não ser uma força contrabalanceadora das diferenças dos brasileiros. Como há brasileiros de diversos estratos sociais nos EUA, e eles variam desde o brasileiro pobre do interior, que se submete nos EUA aos subempregos mais desprezados, até os filhos da elite brasileira, que pode se dar ao luxo de mandá-los estudar lá fora, junto com os americanos ricos. Nesse sentido, o portinglês é um fenômeno lingüístico que ilustra claramente a implicação mútua das identidades da língua e do indivíduo e a atividade evolutiva de ambas, na acepção de Rajagopalan (1998). Percebe-se, assim, que o portinglês é uma língua que se desenvolve paralelamente à identidade étnica brasileira, mas que se associa, tanto no plano da língua, quanto no da identidade, aos “brasileiros imigrantes” e, fundamentalmente, aos “brasileiros imigrantes” mais pobres.
Concluindo
Todas essas trilhas percorridas até aqui insinuam uma visão panorâmica daquilo que me propus a identificar no início: os possíveis traços diferenciais da nova categoria de brasileiros, os brasileiros imigrantes. Percebe-se o quanto a (re)construção identitária dos sujeitos investigados é um processo extremamente conflituoso e marcado por questões de resistência e estigmas. O portinglês, por exemplo, demanda toda uma reflexão especial, pois, como a identidade da língua se associa à identidade do próprio falante, num processo circular de dependência mútua entre ambos, conseqüentemente, os estigmas que recaem sobre essa “gramática da comunidade” devem ser os mesmos que se projetam sobre a própria comunidade. De forma que, se o portinglês é uma língua “pobre”, são igualmente pobres aqueles que o falam. Isso começa a esclarecer melhor o que se embute no termo referencial “brazuca”, uma denominação pejorativa da comunidade brasileira nos EUA, segundo Sales (1999).
... nós aqui somos os pobres! Em relação aos americanos
nós somos pobres, nós ganhamos cesta básica, o americano amigo dá uma roupa pra
gente, dá um casaco, quando tá fazendo frio, dá um sapato, dá louça, eles nos
consideram pobres, porque eles vêem como a gente ganha pouco em relação ao que
eles ganham. Então a gente tem dinheiro pra mandar pro Brasil, porque vale, mas
aqui não vale. (Paula, 40 anos, assistente médica)
Nos EUA os jaragüenses têm acesso aos tão procurados bens
de consumo do sistema global. Contudo, esses bens, que no Brasil são tidos como
um símbolo de grande status social, nos EUA não lhes redime de uma
condição de inferioridade frente ao grupo local. Mesmo possuindo tais
confortos, na escala social ocupam uma posição às vezes menor à que ocupavam no
Brasil antes de migrarem.
Na realidade, a questão da inferioridade
apresentou-se nesta pesquisa como uma espécie de sombra, pairando sobre os
depoimentos dos sujeitos. Ela habita com mais freqüência aquele ponto, ao qual
se refere Fairclough (2001) como a esfera do “não-dito”. A exposição ao
contexto multiétnico, característico da zona em que se concentram os sujeitos
em Danbury, provoca o enfrentamento destes com os muitos “outros”. E tem sido
justamente esse contato, tão fundamental para a definição dos sujeitos, a fonte
desse sentimento de inferioridade, decorrente, é claro, das diferenças de
posição entre os imigrantes, de um modo geral, e a maioria americana.
A tentativa de alguns sujeitos de se ajustarem
aos padrões locais, por questões de respeito ou submissão, choca-se com seus
ideais como brasileiros. Os sujeitos oscilam entre manterem-se fiéis às suas
identidades brasileiras e assimilarem os valores locais. O preço da assimilação
é o sentimento de traição cultural, assim como o da preservação pode ser o
estigma da inferioridade. Percebe-se assim, que o eixo “Tradição-Tradução”,
proposto por Bhabha (1998), não pode ser tomado unilateralmente. O caminho da
“Tradução” é cheio de entraves, e a resistência torna certos trechos
praticamente intransponíveis.
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