DISCURSO DE IMIGRANTES BRASILEIROS NOS EUA SOBRE AFETIVIDADE

 ELES PRECISAM DO NOSSO CALOR HUMANO!

 

 

[1]Lúcia Gonçalves de Freitas - UnB/UEG

 

RESUMO

Análise sobre o discurso da superioridade afetiva dos brasileiros em relação aos americanos detectado em entrevistas com um grupo de cinqüenta e dois imigrantes brasileiros nos EUA. O referencial teórico baseia-se num modelo proposto por van Dijk para análise de discursos sobre minorias e nas acepções de Fairclough dentro da Análise de Discurso Crítica. Os resultados demonstram que a condição social de inferioridade que os sujeitos ocupam dentro da sociedade americana, como um segmento étnico que os condiciona à posição de minoria naquele país, acaba se denunciando no discurso, mesmo quando os tópicos se dirigem à afirmação de suas superioridades.

 

ABSTRACT

This paper analyses the discourse of affective superiority of Brazilians in relation to Americans detected in interviews among a group of fifty-two Brazilian immigrants in the USA. The theoretical reference is based on a model proposed by van Dijk for discourse analysis of minorities, and on Critical Discourse Analyses (Fairclough). The results show that the condition of social inferiority of the subjects as an ethnic minority group in the American society is reveled on their discourse even when the topics are meant to emphasize their superiorities. 

 

 

1 Introdução

O que vou mostrar aqui são alguns recortes de uma pesquisa anterior (Freitas, 2003) sobre questões de língua e identidade de um grupo de imigrantes brasileiros concentrados em Danbury, cidade americana do estado de Connecticut. No trabalho original, em julho de 2002, procurei analisar entrevistas de 52 pessoas que haviam migrado para os EUA há mais de três anos. Na ocasião, baseei-me num modelo de análise proposto por van Dijk (1998, 2000, 2002) sobre discursos de minorias e no referencial de Fairclough (19991, 1992, 1995, 2001) da Análise de Discurso Crítica. Dentre as categorias propostas por van Dijk, escolhi o “tópico”, por ser, segundo o autor, a categoria discursiva mais importante na análise sobre minorias. Assim, centrei minhas observações nos principais tópicos que emergiam da fala dos sujeitos e identifiquei as questões ideológicas e de poder que os permeavam. O resultado mostra uma lista de 14 tópicos discursivos: trabalho, dinheiro, cansaço, desunião, vigilância, aprendizagem, saudade, depressão, malandragem, afetividade, inteligência, beleza, discriminação e polidez. Para este texto selecionei o tópico afetividade.

Tal escolha não foi aleatória. Na realidade, sempre achei curiosa a retórica de que nós brasileiros somos naturalmente mais bem dotados de “calor humano” que certos povos. Na fala de meus sujeitos, que me listaram uma série de traços, considerados por eles distintivos de nossa identidade, esse quesito de afetividade aparece como praticamente nosso único atributo de superioridade em relação aos americanos. Desconfiando dessa construção discursiva, propus-me a analisá-la mais cuidadosamente. A seguir, procedo meu exame sobre o discurso da superioridade afetiva dos brasileiros em relação aos americanos, dividindo-o em quatro momentos: primeiro, exponho o contexto da pesquisa e os sujeitos; em seguida, trato do jogo das posições referenciais e identitárias que os sujeitos travam com os principais grupos com quem se alternam; depois, procedo a uma análise lingüística, onde exponho recortes de entrevistas para exemplificar as questões relacionadas ao tópico afetividade; por último, proponho uma interpretação que conclui a análise sugerida.

 

2 Contexto da pesquisa e seus sujeitos

O contexto no qual inserem-se os sujeitos deste estudo é o campo atual das migrações internacionais, que tem como uma de suas características principais um trânsito de mão dupla: de um lado, as mensagens consumistas que se propagam de dentro dos centros de produção capitalista em direção às chamadas “periferias” do sistema; do outro lado e, inversamente, as pessoas vindas dessas mesmas periferias rumo ao centro em busca dos tão propagados bens. Isso tem acarretado conseqüências profundas na ordem mundial, questionando as regras que constituem os Estados nacionais, e criando um novo arranjo simbólico: o espaço da transnacionalidade.  No Brasil a questão tem nos feito, num período inferior a um século, inverter nossa posição de grandes receptores a grandes exportadores de imigrantes, que saem das mais diferentes regiões rumo aos países ricos da Europa e principalmente para os EUA. Como esta pesquisa interessou-se por um grupo específico de brasileiros, todos da mesma cidade do interior de Goiás, Jaraguá, que se concentram em Danbury, cidade americana do estado de Connecticut, ela envolveu esses dois contextos regionais específicos, que podem ser representativos do eixo local-global de que falam alguns cientistas sociais (Hall, 2001).

O corpus constitui-se de vinte homens e trinta e duas mulheres entre treze e cinqüenta e três anos de idade. Muitas dessas pessoas, curiosamente, nunca haviam ultrapassado os limites territoriais de seu estado. De repente, num prazo às vezes inferior a vinte e quatro horas, viram-se deslocadas do seu contexto local, no interior de Goiás, para um dos centros mais cosmopolitas e avançados do mundo, a cidade de Nova York, e logo em seguida, para Danbury, que apesar de muito menor, desfruta de uma infra-estrutura e opção de serviços que pouco deixam a dever a muitos centros urbanos do Brasil. É um salto gigante entre extremos díspares e geograficamente distantes. Assim, os sujeitos desta pesquisa são pessoas que estão se mobilizando por entre as fronteiras interconectadas do mundo atual. Todavia, essa interconexão não é um fenômeno tão homogêneo nem tranqüilo, ele obedece à lógica desigual da globalização, na qual os fluxos de capital, informação de consumo e mercadorias experimentam uma liberdade muito maior de trânsito que os fluxos de pessoas.  Da mesma forma, a inserção de migrantes nos contextos receptores os posiciona em condições sociais díspares tanto com o grupo majoritário como com os outros vários grupos de imigrantes.

 

3 O jogo das posições referenciais e identitárias: NÓS e ELES

Segundo Fairclough (2001), a questão do posicionamento do sujeito é fundamental para a compreensão das modalidades enunciativas, pois quando o sujeito produz um enunciado ele não é uma entidade que existe fora e independentemente do discurso, como o autor do enunciado, mas é, ao contrário, uma função dele. Esses pressupostos são muito importantes nesta pesquisa, pelo fato de que os sujeitos aqui alteram condições sociais desiguais entre os vários grupos de imigrantes e principalmente com o grupo majoritário local. Há, por um lado, uma aproximação na escala social dos brasileiros com membros de países sul-americanos, também em desenvolvimento, como o Brasil, mas, economicamente mais pobres. Por outro lado, há também um marcante desnivelamento entre todos esses frente aos membros da nação mais poderosa do mundo, os norte-americanos. Esse intrincado jogo de relações dos sujeitos com os vários ‘outros’, vai salientar questões de ordem relacional, identitária e ideacional, na concepção de Fairclough (2001), e assim, certos marcadores, como os dêiticos pessoais Nós e Eles, vão se estabelecer em função dessas relações.

É fundamentalmente em torno do trinômio brasileiro-americano-hispânico que vão ser estruturadas certas afiliações grupais que estabelecem aqueles jogos de posição entre Nós e Eles, que segundo van Dijk (2002), são fundamentais na configuração de tópicos de discurso de minorias. No entanto, essas configurações serão alteradas por um novo norteamento discursivo, que aqui parte do ponto de vista da própria minoria, os imigrantes investigados, na direção de si mesmos, mas, com base na situação de alteridade que lhes é imposta. Assim, nesse novo posicionamento, Eles representam mais acentuadamente o grupo dominante, os americanos. Mas, há também configurações em torno de um outro Eles referente às muitas minorias que se alternam, junto com os sujeitos desta pesquisa, na condição de imigrantes. Estes pertencem fundamentalmente àquele grupo arbitrariamente denominado de hispânico, ou hispano, termo reduzido na fala coloquial dos sujeitos, que agrupa num só segmento várias nacionalidades latino-americanas.

A seguir, procedo a uma análise lingüística sobre o tópico afetividade, privilegiando uma abordagem crítica sobre as relações entre o grupo majoritário, os americanos, e os brasileiros e as questões de poder que as permeiam.

 

4 Análise lingüística

O tópico afetividade me pareceu especialmente curioso nesta pesquisa. Ele é, dentre os tipos de tópico que coletei, um dos poucos que se revestem de construções positivas dos brasileiros e de sua superioridade em relação ao grupo majoritário. Ele seria, dentro da classificação de van Dijk (2000), aquele tipo de tópico que enfatiza as diferenças entre os grupos, de uma forma em que os atributos positivos recaem sobre os enunciadores do discurso. Dessa forma, as diferenças são geralmente assinaladas por um fator de distanciamento entre os grupos, de modo que os “outros” são diferentes por não possuírem certas qualidades positivas que em “nós” são tidas como superiores.

O que me pareceu especialmente interessante nesta pesquisa foram as estratégias utilizadas pelos sujeitos. Para destacar as diferenças entre si e o grupo externo, os americanos mais especificamente, eles usam expressões que podem ser enquadradas dentro de uma outra categoria discursiva também proposta por van Dijk (2000), o “topoi”. Segundo o autor “topoi” (do grego: “topo”= lugar) se aproxima do conceito de “lugar comum” da retórica clássica, eles são expressões estereotípicas, que tendem a ser mencionadas como componentes de significado mais ou menos fixos em argumentações. Eles devem ser definidos primeiramente em termos semânticos, por causa dos significados que representam, mais sua função geralmente é argumentativa. Apesar de se diferenciarem de provérbios e máximas, eles às vezes têm funções similares. Cognitivamente eles facilitam a produção do discurso e o pensamento, porque são significados prontos para serem aplicados. 

Neste sentido, ao longo de minhas análises, fui percebendo que os sujeitos recorriam freqüentemente a expressões dessa mesma espécie. As principais delas giravam em torno do temperamento dos grupos, assinalado por metáforas como “quente” e “frio”, uma polaridade também detectada num trabalho semelhante a esta pesquisa, em que Menezes (2002) investigou a segunda geração de brasileiros em Danbury:

 

De fato a noção “frio” é uma projeção de uma leitura propriamente brasileira que condena o individualismo norte-americano e suas regras de interação percebidas como rígidas e distantes. Da mesma forma, a noção “quente” combina estereótipos percebidos como reivindicados pela comunidade brasileira _ como a alegria, o bom humor e a cordialidade _ com concepções e imagens veiculadas nos circuitos de mídia – como a sensualidade, a liberdade e a soltura. (Menezes, 2002 p.22)

 

Aqui o pólo “quente”, ao qual se afiliam os brasileiros, é assinalado por expressões do tipo “calor humano”, “carisma”, “afeto”.

 

A única vantagem que a gente tem em relação a eles é o carisma da gente e o afeto, o calor humano nosso é muito maior do que o deles (...) Eu dou assim bem com o povo do meu serviço, mas não assim, nada mais do que só amizade ali no serviço, e, de vez em quando uma festinha aqui e outra li, mas não de convívio e amizade, aquela coisa mais forte. O costume da gente é diferente do costume deles, eles acham a gente diferente tanto quanto nós achamos eles.

 

(Mário, 22 anos, vendedor)

 

Todos esses atributos podem ser unificados na condição de afetividade, que, segundo Mário, nos brasileiros é superior em relação aos americanos, e que ele enfatiza com os conectores “muito maior” e “mais” em sua fala. As unidades lingüísticas que o falante utiliza em seu discurso são unidades semânticas que extrapolam o nível puramente da língua, de modo que, o uso de certos conectores em detrimento de outros, que aparentemente não indicam tanto poder de influência, na realidade pode ser revelador das identidades dos enunciadores. Como o discurso é aquele liame que liga as significações de um texto às suas condições sócio-históricas, o significado das unidades não pode ser depreendido sem referência ao contexto social onde se situa o discurso (Fairclough, 2001). Assim, é muito curioso analisar a forma como é dada a ênfase nas diferenças nesse recorte.

 No trabalho de van Dijk (2000) a diferença entre grupo majoritário e minoria é avaliada negativamente com conectores argumentativos como adjetivos no grau comparativo “menos” (eles _a minoria _ são menos inteligentes, menos bonitos, menos rápidos, menos trabalhadores etc.). Já neste estudo, os sujeitos contrapõem-se aos outros grupos, afirmando uma certa superioridade em determinados atributos, logo, os conectores argumentativos são opostos, “mais”, “muito maior”, como no depoimento de Mário, em que a expressão “o calor humano nosso é muito maior do que o deles”, se comporta como uma espécie de topoi na fala dos imigrantes.

Salientar as nossas virtudes ou diminuir as virtudes alheias é usar duas estratégias diferentes de se garantir determinados fins mutuamente implicados: a nossa superioridade e a inferioridade dos outros. Todavia, a forma pela qual fazemos isso pode dar mais ênfase num desses pólos. Assim, por exemplo, quando se diz, “nós somos mais afetivos que eles”, o que se destaca é nossa superioridade afetiva em relação a eles. Já em, “eles são menos afetivos que nós”, evidencia-se a inferioridade do outro. Apesar da aparente equivalência de sentido dos enunciados, um exame mais cuidadoso mostra o quanto se pode esconder no jogo de inversão dos sujeitos e conectores dessas sentenças. Por exemplo, na frase em que se enfatiza a nossa superioridade afetiva (“nós somos mais afetivos que eles”), o fazemos sem destituirmos o outro dessa mesma qualidade, ou seja, o enunciado indica que, eles podem ser afetivos, eles são afetivos, apenas garantimos que nós somos mais. Já quando se invertem as posições dos sujeitos e mudam-se os conectores de mais para menos, como no segundo exemplo (“eles são menos afetivos que nós”), salienta-se a inferioridade do outro, não interessando se somos muito afetivos ou não, o que se evidencia é que esse atributo de afetividade é invariavelmente inferior nos outros. Portanto, o segundo enunciado revela-se potencialmente mais estratégico que o primeiro, pois, não só afirma nossa superioridade, como potencializa a inferioridade do outro, acrescentando inclusive um caráter de desprezo. Não se admira o uso desta estratégia detectada por van Dijk (2000) no discurso das maiorias em relação a imigrantes na Europa e nos Estados Unidos. Ela habilmente repassa toda a estrutura das relações entre esses grupos, na qual há tanto o estabelecimento da condição de superioridade dos primeiros, quanto a necessidade de ênfase na proporcional inferioridade dos últimos.

No exemplo de Mário a identidade brasileira é projetada positivamente em relação ao grupo americano por meio do atributo de superioridade afetiva, mas as estratégias de Mário nessa projeção são do tipo que não evidenciam o rebaixamento do “outro”. Ao contrário, nota-se que Mário refere-se aos americanos com cordialidade, a mesma cordialidade que é usada pela maioria dos sujeitos:

 

Eles fala pro...! Conversa demais...eles são...eles sente muito a falta desse calor humano que a gente  tem! Eles sente muito a falta. O pessoal aqui são muito diferente de brasileiro! Muito diferente!

 

(Maria Rosa, 36 anos, gerente de lanchonete)

 

Não há entre meus exemplos um caráter de desprezo em relação ás diferenças dos dois grupos. Ao contrário, o que os sujeitos parecem demonstrar liga-se mais a uma atitude solidária em relação à carência alheia.  

 

Na verdade eles são muito sozinhos, sabe, Lúcia, eles não têm aquele calor humano que a gente tem, por isso os [2]customers gostam de ser atendidos por brasileiro, por que a gente já tem, a gente é diferente, muito diferente.

 

(Nelsa,  20 anos, atendente em lanchonete)

 

As mulheres que eu trabalho elas ligam, se eu não der conta de... quando elas aumenta muito o assunto, sabe...(risos)...tem horas que elas falam tanto na cabeça...elas são...na verdade elas são muito solitárias e... aqui eles não são amigos. Cê passa, entra e sai do serviço, entra sozinha, sai sozinha. Então quando a gente chega eles querem...sabe...conversar com a gente.

 

(Ana, 41 anos, faxineira)

 

O que se evidencia freqüentemente é uma atitude meio que indulgente dos brasileiros com o comportamento americano, que aos seus olhos se apresenta sob esse formato solitário e melancólico. Talvez essa percepção, como comenta Menezes (2002), seja mesmo fruto de uma leitura brasileira que condena o individualismo americano e que, por isso, acaba por comprometer o entendimento sobre o modo de ser desses últimos, daí essa interpretação sob a ótica da solidão.

 

 

5 Interpretação final

Não me cabe aqui discutir os efeitos do individualismo sobre a sociedade americana, nem tampouco investigar seu caráter solitário. Mas, o que me pareceu intrigante nessas análises é que esse componente de solidão, que os sujeitos identificaram nos americanos, e que desperta a sua comoção, associa-se também a uma espécie de necessidade do grupo de se aproximar mais desse povo tão distante e impenetrável. O próximo recorte vai ilustrar tal observação:

 

... tem, por exemplo, uma americana, que ela é professora na Universidade, sabe? Ela vai lá todos os dias, aí esse tipo de gente, a gente geralmente já pergunta como é o nome, pra puxar conversa, sabe, justamente pra cê aprender um pouquinho mais, cê pergunta como é o nome, daí vai, o que que cê faz, onde é que cê trabalha (...) Então os customers que vão lá, desde o primeiro dia que abriu, alguns customers vão até hoje, então a gente se vê todos os dias, entende? e aí a gente cria uma intimidade, com eles, de assim, tipo...até mesmo...deles contar coisas da vida deles, deles chorar, sabe? é  verdade!...eles são muito carentes, então se você dá conversa pra ele, é...eles acham bom. E daí é que você cria uma nova amizade, sabe? Daí é que cê vai ficando conhecida, tem vários customers que vão lá, e ás vezes pergunta por mim, eu acho bom isso. Eu acho muito bom, eu fico feliz disso, porque no nosso trabalho a gente tem que ser muito simpática, sabe? às vezes a gente tem que sorrir, ser educada, entende? Então, é daí que você começa a conhecer.

 

(Adriana, 36 anos, atendente no Dunkin’ Donuts)
 

Ao repetirem que “eles” precisam desse “calor humano” que os brasileiros têm, que os americanos acham bom o contato com os brasileiros, os sujeitos parecem querer afirmar uma aproximação com o grupo, uma aproximação da qual eles demonstram um certo orgulho, como transparece na continuação do depoimento de Adriana e no próximo depoimento que o segue:

 

Então essa professora da Universidade perguntou pra mim um dia se eu não tinha um dicionário, se eu não sabia onde ela compraria um dicionário de inglês português, porque ela gostaria de comprar uns dicionários e alguns cartões de aniversário, parabéns, natal, essas coisas, sabe? Pra fazer uma pesquisa lá na universidade, com um assunto dela. Aí eu disse, não, eu não sei não, mas eu vou descobrir pra você. Aí, aqui é difícil pra mim ficar saindo e procurando as coisas, sabe? Apesar de que eu acho que não seria difícil.mas eu já quis logo facilitar as coisas, eu liguei pra minha irmã, nela comprou um dicionário pra mim, mandou uns cartõezinhos de natal e mais outras...hoje é foi lá, ela passou uns três dias sem ir lá, então hoje ela foi, eu dei pra ela sabe, os cartões e dicionários, ela ficou tão feliz! Ela falou assim, “nossa,! Você fez isso? Porque cê fez isso?” tipo assim, não tava acreditando que a gente é capaz de dar o calor humano que eles tão querendo, até mesmo no sentido de lembrar que a pessoa te perguntou aquilo, sabe? E que a pessoa se lembrou....cê entende? (risos).

 

(Adriana, 36 anos, atendente no Dunkin’ Donuts)

 

Nós temos um casal de americano muito, muito amigo nosso, as filhas deles vivem dormindo aqui em casa comigo, aí ele fala que o melhor amigo dele é o meu marido, e a confiança deles é muito grande em nós, eu fico com as três filhas deles dormindo aqui em casa, passa mais de cinco dias... ela vai pro Brasil agora ano que  vem, a gente vai com ela, ela vai fazer lipo lá, um monte de coisas, muito amigo nosso, apesar de que...amanhã é aniversário da filha dele, minha mãe que tá ajudando a fazer...

 

(Marta, 22 anos, babá)

           

Esses recortes se prestam mais uma vez à exemplificação das implicações mútuas entre identidade e discurso, nas quais, mesmo quando a intenção do enunciador se direciona para a afirmação positiva de sua identidade, os elementos negativos, que o sujeito não deseja que se sobressaiam, acabam transparecendo por sua latência incisiva. Neste caso, percebe-se em termos de latência, como os problemas advindos da identidade étnica brasileira não conseguem se camuflar mesmo sob as construções positivas dessa identidade. Os brasileiros, ao se projetarem como um povo dotado de maior “calor humano” que os americanos, denunciam ao mesmo tempo a distância entre os grupos. Embora aleguem que a aproximação de ambos é necessária para amenizar a carência dos últimos, revelam o quanto se orgulham do seu reconhecimento pelo grupo majoritário, denunciando, assim, sua posição periférica na sociedade americana. 

Embora, a identidade étnica brasileira seja uma construção que se baseia na própria identidade nacional, no contexto de exterior, como nos EUA, vai sendo transformada no jogo das projeções entre vários grupos. Assim é que, no Brasil, ser brasileiro é fazer parte de um território nacional, cujos membros, embora atravessados por desigualdades de todas as ordens, devem ser concebidos como cidadãos soberanos. Apesar de todas as contradições, esta é uma condição que visa ao engrandecimento dos brasileiros como membros soberanos da “sua” nação. Já a situação de etnia, na qual vivem os imigrantes desta pesquisa, ao contrário, implica diretamente uma posição inversa, de inferioridade, na qual os brasileiros são apenas uma das muitas minorias inseridas numa nação que não lhes pertence. Embora tanto a identidade nacional quanto a étnica visem a uma homogeneização e a um fortalecimento grupal, essas situações fatalmente vão influenciar configurações de alta e baixa auto-estima dos sujeitos. É assim que a condição de inferioridade que estes ocupam dentro da sociedade americana, como um segmento étnico que os condiciona à posição de minoria naquele país, acaba se denunciando, mesmo quando o tópico se dirige à afirmação de suas superioridades.

 

Referências

 

FAIRCLOUGH, N. Language and power. London: Longman. 1991.

 

FAIRCLOUGH, N. et. al. Critical language awareness. New York: Longman. 1992.

 

FAIRCLOUGH, N. Critical discourse analysis. The critical study of language. London: Longman. 1995.

 

FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. Brasília: UNB.2001.

 

FREITAS, L. G. Conexão Jaraguá-Danbury: língua e identidade de imigrantes brasileiros nos EUA. Goiânia: UFG. Dissertação de mestrado. 2003.

 

HALL, S. Identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

 

MENEZES, G. H. S. Filhos da imigração: Sobre a segunda geração de imigrantes brasileiros nos EUA. UNB. Dissertação de mestrado. 2002.

 

VAN DIJK, T. A. Principles of critical discourse analysis. In: CHESHIRE, J. ; TRUDGILL, P. (eds.) The sociolinguistics reader. v.2: Gender and discourse. London: Arnold, 1998, p. 367-393.

 

VAN DIJK, T. A. On the analysis of parliamentary debates on immigration. In: REISIGL, M.; WODAK,  R. (Eds.) The semiotics of racism. Approaches to critical discourse analysis. Vienna: Passagen Verlag, 2000, p. 85-103.

VAN DIJK, T. A. Elite Discourse and Racism in Latin America. Chapter for the Spanish edition of Elite Discourse and Racism. Third draft. October 15, 2002. Disponível em: http://www.discourse-in-society.org/teun.html. Acesso em: Nov. de 2002.

 

 



[1] Aluna do programa de Pós-Graduação em Lingüística da Universidade de Brasília no nível de Doutorado. Professora da Universidade Estadual de Goiás. E-mail: [email protected]

[2] Clientes.

Hosted by www.Geocities.ws

1