O CANTINHO DE LEITURA EM JARAGUÁ: QUESTÕES DE LETRAMENTO

 

Lúcia Gonçalves de Freitas 1,5, Marly Aparecida de Souza 2,5 , Mariângela Ricardo Moreira 2,5 , Cristiane Possas da Fonseca 3,5 e

Ana Paula Pinangé Soares 4,5

 

1 Pesquisadora principal

2 Coordenadora de sub-projeto

3 Bolsista PBIC/UEG

4 Voluntária de Iniciação Científica PVIC/UEG

5 Curso de Pedagogia, Unidade Universitária de Jaraguá, UEG.

 

 

RESUMO

Divulgação sucinta dos resultados da pesquisa sobre o projeto da Secretaria Estadual de Educação de Goiás "Cantinho de leitura" nas escolas públicas de Jaraguá. O município é tomado como base de referência para este trabalho por sediar a Unidade Universitária da UEG proponente do estudo. O intuito principal foi levantar dados qualitativos para uma avaliação dos “Cantinhos” e oferecer subsídios para outras criações e implementações de projetos de leitura de natureza semelhante. Também, pretendeu-se relacionar o uso efetivo do “Cantinho” às práticas sociais que envolvem leitura e escrita nas escolas pesquisadas, ou seja, as práticas sociais de letramento. Os resultados revelam a freqüência de uso dos livros pelos alunos, a lista dos livros mais citados, os pontos de vista dos professores e diretores das escolas sobre o projeto, suas sugestões, seus modos de utilização etc. Ao final, esboça-se uma discussão sobre a relação do uso do “Cantinho” com questões de letramento no contexto local.

 

Palavras-chave: Leitura; Letramento; Cantinho

 

Introdução

O presente trabalho é uma investigação sobre um projeto do Governo do Estado de Goiás chamado Cantinho de Leitura, cujo objetivo era equipar as escolas públicas do estado com livros infantis, especialmente selecionados, a fim de sanar o déficit desses materiais nas salas de aula e desenvolver o hábito de leitura entre os alunos da rede pública, na primeira fase do ensino fundamental. Tal projeto divide características semelhantes com outras iniciativas brasileiras de criação de espaços para leitura nas escolas públicas. É o caso do Programa Nacional de Incentivo à Leitura (PROLER), Ciranda de Livros, Viagem da Leitura, entre outros. Com a falta de dados sobre resultados pedagógicos desses projetos, as informações que temos sobre os mesmos são estatísticas quanto à distribuição dos livros e o tamanho da comunidade atendida. Assim, esta pesquisa busca fornecer dados qualitativos sobre o funcionamento real de um projeto semelhante aos aqui citados.

Com a finalidade de apoiar o trabalho com uma base teórica apropriada, que privilegiasse visões sobre a estrutura social subjacente aos fatos que envolvem leitura e escrita, considerou-se que as proposições teóricas sobre letramento (Barton, 1994; Barton e Ivanic, 1991; Street, 1984, Cook-Gumperz, 1986, Tfouni, 1995; Costa, 2000; Kleiman, 1995; Soares, 1998, 2003; Ribeiro, 2003; Leite, 2001; Paiva, 2003) adequar-se-iam com mais precisão aos objetivos aqui propostos. Assim, a pesquisa procurou traçar as relações do uso do projeto com as práticas sociais de letramento, e, mais especificamente, com as práticas de leitura e escrita de professores e alunos nas escolas pesquisadas.

 

Material e Métodos

Este trabalho divide características com os estudos etnográficos (Hymes, 1996). A maior parte da coleta de dados foi feita através de observações anotadas em protocolos e diário de campo (Barros e Lehfeld, 1997). Ao todo, foram quarenta e dois dias não consecutivos de observações nas escolas pesquisadas, durante os meses letivos de outubro de 2004 a agosto de 2005, totalizando cento e quarenta e quatro horas de anotações registradas em dois protocolos de pesquisa.

As escolas foram escolhidas em função de sua representatividade no município, ou seja, privilegiou-se as que tinham maior número de alunos e as mais antigas. Assim, foram selecionadas três escolas estaduais e duas municipais, tento sido investigas apenas as salas das séries iniciais dessas unidades de ensino, o que totaliza 20 turmas. As observações voltaram-se para a organização geral do projeto nos estabelecimentos de ensino, á prática dos professores e alunos com relação a leitura e escrita, e ao uso dos “Cantinhos”em si.

Além das observações, também foram aplicados três questionários, um direcionado aos professores, outro aos diretores e um terceiro dedicado aos alunos. Esses instrumentos serviram á triangulação da pesquisa, possibilitando o cruzamento de informação e a checagem de certas respostas. Os questionários apresentam dados de quinze professores, cinco diretores e cem alunos.

 

Resultados e Discussão

            Os dados, a título de melhor organização, estão divididos em três tópicos específicos.

 

O uso dos "Cantinhos" nas escolas - As informações colhidas nos questionários dos alunos nos mostram que, em geral, a comunidade estudantil tem conhecimento do “Cantinho”, todos as crianças ouvidas, cem no total, afirmaram a existência dos livros em suas escolas. Contudo, desse número, dezoito alunos disseram nunca ter usado o “Cantinho” propriamente, e vinte e um deles não puderam citar nenhum título. Esses dados são mais bem esclarecidos com a contraposição com os diários de campo, que mostraram um uso bastante irregular dos “Cantinhos”, variando de uma escola para outra. Dos cinco estabelecimentos pesquisados, três deles possuíam uma política voltada à exploração do projeto através de uma sistemática de uso mais bem definida, na qual os “Cantinhos” ficam á disposição dos alunos, nas suas salas de aula, dentro dos armários e as professoras os utilizam como parte de seus procedimentos didáticos. Em duas escolas, os “Cantinhos” ficavam ou na secretaria, ou na biblioteca, junto com os demais livros. Nesses estabelecimentos, os armários que deveriam estar sendo ocupados pelos livros do projeto guardam outros livros didáticos e materiais dos professores. Mesmo nas escolas em que se constatou um uso mais regular dos “Cantinhos”, também há armários que estão sendo usados para outros fins. O cruzamento de dados dos vários instrumentos de coleta nos mostra que o que determina o uso dos “Cantinhos” pelos professores é muito mais uma questão de envolvimento pessoal destes, que uma estratégia determinada pela escola e sua direção. Ou seja, a utilização efetiva dos “Cantinhos” é condicionada ao interesse e envolvimento pessoal de certos professores.

Apesar disso, a amplitude do projeto fez com que, de uma forma ou de outra, os livros chegassem a um grande contingente de alunos. Ao todo foram citados cento e quarenta e cinco títulos diferentes. Setenta e dois alunos afirmam ter lido mais de uma vez por mês, desde que o projeto começou. A média de livros por aluno é de seis a oito para cada um, e esse número varia entre aqueles que leram mais de quinze títulos e os que leram apenas dois ou três livros.

 

Avaliação do projeto por professores e diretores - Os dados deste tópico foram obtidos em questionários abertos, nos quais os professores e diretores puderam descrever, com liberdade, seus pontos de vista. Apesar das observações mostrarem o pouco envolvimento dos professores com o projeto, todos eles são unânimes em afirmar a sua importância para a formação dos alunos. A seguir recortamos um trecho do texto de uma professora que resume a opinião da maioria:

... o Cantinho de Leitura foi um ótimo presente que as escolas receberam, pois a maioria dos alunos não tinha acesso a livros literários e terminavam o curso primário praticamente lendo apenas textos fragmentados dos livros didáticos. (Relato de uma professora colhido em questionário)

 

Além de reconhecerem a relevância da iniciativa, professoras e diretoras ressaltam a necessidade do Governo dar continuidade ao projeto, pois reclamam que os livros estão começando a se estragar e os alunos, gradativamente, a perdem o interesse por eles:

 

Eu acho que pelo menos uma vez no ano as escolas deveriam receber novos cantinhos de leitura, para que os alunos adquiram o gosto pela leitura, os livros que estão na escola já estão repetitivos e os alunos gostam de coisa nova, interessante. (Relato de uma professora colhido em questionário)

 

Comportamento dos professores e alunos com relação à leitura na escola: questões de letramento - O que as pessoas fazem com a leitura e a escrita na prática diz respeito a uma dimensão social, ao que os teóricos chamam de letramento. Ao analisarmos o uso prático das atividades de leitura nas escolas pesquisadas, percebemos que, fora do contexto de sala de aula, em que a leitura é desenvolvida como uma prática pedagógica, alunos e professores fazem um uso bastante instrumental desse recurso. Os diários de campo registram a leitura de cartazes que os alunos afixam em murais da escola para exposição de seus trabalhos, que contêm em geral, título, pequenas informações e bastantes imagens. Também é freqüente a leitura de textos curtos em figurinhas que os alunos colecionam ou trocam entre si. São mais esporádicas as leituras de pequenas mensagens que as crianças mandam uma para as outras ou para seus professores e pais em datas comemorativas.

            Da mesma forma, as professares fazem um uso bastante instrumental da leitura no dia-a-dia nas escolas. Seus principais recursos textuais são os livros didáticos. Ocasionalmente são vistas com jornais locais e alguns catálogos de produtos femininos que elas usam para fazer pedidos, lendo números de referência, preços e pequenas descrições.

            A leitura de romance, propriamente, não é uma atividade que faça parte das práticas de letramento na cidade de Jaraguá de um modo geral, a não ser em casos isolados. Dessa forma, não há notas de diário de campo ou protocolos de pesquisa que registrem a leitura desse tipo de texto pelos professores ou outros membros da escola. Os livros do “Cantinho” são lidos pelos alunos em sala de aula, na maioria das vezes dentro das práticas pedagógicas das professoras, que reservam um horário para essa atividade, ou quando os alunos terminam suas outras tarefas com mais antecedência que os demais e são estimulados a preencher o tempo lendo os livros do “Cantinho”.

 

Conclusões

         As proporções desde artigo não nos permitiram uma discussão mais prolongada de nenhum dos tópicos de resultados aqui expostos. Assim, o que foi divulgado são apenas os pontos mais relevantes da pesquisa. Ao mesmo tempo, as conclusões são ainda parciais, uma vez que muitos dados continuam sendo analisados e o processo de triangulação não chegou a um termo final. Todavia, a hipótese inicial, não registrada no projeto, mas esboçada por nós pesquisadoras, de que o “Cantinho de Leitura” não teria conseguido alcançar seu objetivo principal de formar jovens leitores, é passível de muitas observações. Por um lado, é preciso registrar que o projeto preencheu um déficit de material literário nas escolas e conseguiu disponibilizar livros para um grande número de alunos. Por outro lado, se não podemos perceber que o hábito da leitura tenha-se desenvolvido entre a maioria das crianças atingidas pelo projeto, essa é uma questão que demanda uma análise das práticas sociais de letramento no contexto de Jaraguá. É preciso observar que, em geral, a leitura literária, não faz parte dessas práticas no município, a não ser em casos isolados. Daí compreende-se o pouco estímulo dos professores, para quem o universo literário quase não lhes pertence.

         Em linhas gerais, a pesquisa atestou a grande utilidade do projeto, a urgência de se dar continuidade ao mesmo em novas fases, a importância de um acompanhamento dos órgãos governamentais do Estado de Goiás, através de instrumentos que informem dados qualitativos sobre uso efetivo dos livros nas escolas, e, principalmente, a necessidade de trazer a voz dos professores e alunos para as bases de elaboração de novas iniciativas da mesma natureza.

 

Referências Bibliográficas

BARROS, A. J. P.; LEHFELD, N. A. S. Projeto de pesquisa: propostas metodológicas. Petrópolis: Vozes, 1997.

BARTON, D. Literacy: an introduction to ecology of written language. London: Blackwell, 1994.

BARTON, D.; IVANIC, R. Writing in the community. London: Sage Publications, 1991.

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COOK-GUMPERZ, J. The social construction of literacy. Cambridge: Cambridge University Press, 1986.

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PAIVA, A. Literatura e letramento. São Paulo: Autentica, 2003

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TFOUNI, L. V. Letramento e alfabetização. São Paulo: Cortez,1995.

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