Por favor, não banalize este texto

Ariane Holzbach *

         Violência doméstica, violência por causa de drogas, violência em presídios, arrastão na praia, chacina, assassinato, represália, seqüestro relâmpago, tiroteio, bala perdida, briga entre gangues, assalto, toque de recolher... Até o filho da vizinha, que nem sabe escrever o próprio nome ainda, é capaz de descrever com detalhes como ocorre um assalto, por exemplo, no Brasil. A banalização da violência está tão assustadora que você, provavelmente, leu todas as palavras que iniciam este texto e não refletiu muito sobre elas. Mas não se preocupe, pois a culpa não é só sua, tamanha é a complexidade desse problema no país do carnaval. Mas será que existe solução?
Claro que sim. Uma das formas de ajudar a resolver o problema é refletir sobre alguns motivos que levaram nosso país a um ponto tão crítico que faz com que toda mesa de bar que se preze contenha ao menos um caso trágico, envolvendo o narrador, por noite. Tanto é que, certamente, você já ouviu falar na lenda que diz que os portugueses, quanto resolveram povoar o Brasil, trouxeram para cá apenas a “baixa” sociedade, formada por marginais e meretrizes.
         Mas em vez de jogar índices e estatísticas que você já cansou de ver nas manchetes de jornais, vamos voltar alguns séculos no passado e começar do começo. Quando nosso digníssimo Pedro Álvares Cabral “descobriu” o Brasil e viu terras, índios, madeira, animais e frutas em abundância, tratou logo de espalhar as boas novas a toda realeza portuguesa e, por que não dizer, a toda a Europa.
         E os europeus, que de ingênuos e preocupados com o resto do mundo não tinham nada, começaram a exploração da forma mais desigual possível: os poucos ricos europeus foram ficando mais ricos e os muitos pobres (formados por negros e índios forçados a conviver com essa situação), cada dia mais miseráveis. Estava criada a desigualdade social tupiniquim, um dos pilares que alavancaram a violência nacional.
         Mas como assaltos, assassinatos e demais verbetes que remetem a palavras horripilantes não são causados por um único fato, continuemos na nossa pesquisa histórica. Com o passar dos anos, cada estado foi criando sua identidade, formando suas cidades e singularidades. Apesar de estarmos falando de um único país, é fascinante constatar diferenças culturais tão gritantes quanto as encontradas entre Brasília e Ilha de Marajó, ou São Paulo e Fernando de Noronha, ou ainda entre Porto Alegre e João Pessoa. Da mesma forma que as tradições são diferentes em cada lugar, a forma como a violência se mostra também varia de região para região.
         Provavelmente a ôvitrineö violenta do Brasil seja a mesma que abriga o Cristo Redentor. No Rio de Janeiro, a violência acontece de forma fragmentada, especialmente nos muitos morros dominados pelo tráfico de drogas. Por mais que a polícia tente, mal consegue ter acesso às subidas das encostas. Tiroteios com fuzis e até bombas chegam a ser uma constante. Muitos cariocas de classe média, que moram em locais caros, passam várias noites sem dormir, ouvindo tiros e mais tiros acontecendo em algum morro da redondeza. Toque de recolher e a ousadia dos marginais dão a tona dessa guerra cheia de vítimas e sem data para terminar.
         Mas o que se vê no Rio não é a única maneira de a violência se expressar. Outra forma acontece no Recife, por exemplo. Na capital do frevo, a violência cresce a olhos vistos, mas de uma forma menos fragmentada que no Rio. Os recifenses correm o risco de serem assaltados em qualquer lugar, independente do bairro, da hora ou do dia da semana. A bandidagem ainda não conta muito com armamento pesado, e o tráfico não é tão intenso quanto nos morros cariocas. Lá a violência se expressa na forma de assaltos à mão armada, seqüestros relâmpagos e muitos assassinatos - boa parte, inclusive, feita com armas brancas e revólveres quase aposentados.
         Em São Paulo, a violência da vez mora nos muitos presídios superlotados e nas febens repletas de jovens inconformados.  A raiva (se é que esse sentimento tem nome) é tão grande que os presos acabam brigando entre si e matando uns aos outros utilizando as formas mais chocantes que encontram. Os seqüestros, principalmente contra a classe média, também estão fora de controle. Em Belo Horizonte, até gente famosa e bem-quista está à mercê de, literalmente, perder a cabeça. Que o diga o jogador do Real Madrid Roberto Carlos, que foi assaltado enquanto dava uma entrevista ao vivo a uma rádio. E isso mesmo estando acompanhado de um segurança.
         Apesar de ter um só nome, a violência é diferente em cada lugar. Compreender as formas pelas quais ela se expressa no Brasil é o primeiro passo para acabar com um dos piores males que assolam este solo tão rico. Entender essa heterogeneidade fará com que formas eficientes de combate surjam naturalmente. E assim, quem sabe, nossos filhos possam viver em casas sem grades, andarem de bicicleta sem medo, tomarem sorvete... E terem a vida normal que nos vem sendo tolhida desde o “descobrimento”. 

* Jornalista
([email protected])

 

 


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