O TOURO MAU E A VAQUINHA VERMELHA

Era uma vez uma vaquinha muito tímida
que vivia com a mãe numa fazenda. Era apelidada de Vaquinha Vermelha porque
enrubescia por qualquer coisinha. E, como qualquer coisinha acontecia a todo
instante, ela ficava mais vermelha que branca, sua cor natural.
Um dia, sua mãe (a da vaquinha)
mandou que ela levasse um cestinho com doces de capim para a vovó que vivia
sozinha do outro lado da fazenda e estava muito doente.
Como a mãe conhecia a fama do
feroz Touro Mau que vivia por aquelas bandas, recomendou-lhe que não passasse
pelo pasto encantado, pois temia que o Touro Mau fizesse churrasquinho com ela.
E, sendo assim, a vaquinha saiu
feliz naquela manhã ensolarada em que o céu era mais azul que os jeans da
Calvin Klein e as nuvens mais brancas que qualquer camisa lavada com Omo Total
com o novo pó radiante e a folhagem era mais verde que o gramado do Maracanã e
os frutos mais doces que os lábios da Luiza Brunet e mais macios que algumas
partes da Xuxa.
Uma brisa suave despenteava os
cabelos dos bóias-frias que capinavam por ali. No galho de um árvore, os pássaros
se reuniam para cantar seu coro matinal, irritando os que ainda dormiam.
A vaquinha estava tão contente que só
não saiu trotando porque não sabia trotar, mas saiu cantando, mesmo sem saber
cantar:
Pelo pasto afora/Eu vou bem
sozinha/Levar uns docinhos/Para a vovozinha.
E como não sabia o resto da música,
cantava sempre a mesma estrofe, cada vez mais desafinada, prestando muito atenção
na magnífica estrada que se estendia à sua frente, mais para não pisar no cocô
das outras vaquinhas do que para apreciar a beleza da paisagem.
De repente, na calada do dia,
ela estancou atônita. As pupilas de seus olhos dilataram-se, a expressão de
seu rosto se modificou completamente. Na sua frente, a um palmo de seu nariz,
digo, a uma pata de seu focinho, nada mais, nada menos que... Uma maravilhosa
borboleta!
Acontece que a vaquinha, depois
de assistir oito vezes ao filme "Papillon", tinha adquirido uma enorme
admiração por borboletas. Não, não era simplesmente admiração, era uma
profunda paixão. E ela, aluc... não, não era paixão também, era muito mais
do que paixão, era... Era um puta dum tesão.
E ela, alucinada, foi andando
atrás da borboleta, sem se dar conta dos perigos que essa inocente admiração,
não!... Essa arrojada paixão... Também não!... Esse puta tesão pudesse lhe
causar.
Mas, como nada é eterno,
depois de um outro de repente, a borboleta sumiu. Então a vaquinha saiu do
transe, caiu em si e percebeu que estava no meio do pasto encantado. Ficou
aterrorizada. Só não chorou porque achou besteira.
Caramba! Pensou. O único jeito
é ir em frente.
E continuou sua insólita
aventura, cantando os mesmos versos da página anterior.
Não sei se, inexplicavelmente,
como acontece em todas estórias sem nexo, ou pelo disse-que-disse comum às
fazendas pequenas, mas o fato era que o Touro-Mau sabia que a vovó da Vaquinha
Vermelha estava muito doente e, pelo cheiro (penso eu), sabia que dona Vaca
fizera docinhos de capim. Ora, como todo bom touro da família Mau, o Touro-Mau
também tinha um desenvolvido instinto de Sherlock Holmes, e foi fácil deduzir
que a dona Vaca mandaria a única filha levar os docinhos à vovó e que a
vaquinha acabaria se distraindo com uma borboleta qualquer que a levaria até o
pasto encantado.
Então, ele ficou escondido na estrada, esperando a oportunidade de atacar. Mas, como a Vaquinha Vermelha demorasse, pois além de tudo ela era muito mole, o Touro-Mau teve uma outra idéia, e resolveu armar a sua cilada de uma forma diferente, bem original.
Ele correu na frente e tomou posse da
cama da vovó, fingindo ser uma velhinha doente, tentando disfarçar a sua panca
de Punk.
Pouco depois se ouviu
Toc-Toc-Toc na porta do casebre (a vaquinha tinha o costume de bater três
vezes).
— Quem é? Perguntou o
Touro-Mau com a sua voz de trovão.
— É a sua netinha, vovó.
—
Entre filhinha, digo, netinha.
Nhééééc. A porta abriu-se.
Nhéééééc. A porta fechou-se (naquela época ainda não tinham inventado o
óleo 3M).
— Nossa! Que voz grossa vovó!
— Estou rouca, minha netinha!
Chupei muito ontem à noite!
A
vaquinha vermelha ficou vermelha.
— Chupou o quê, vovó? -
quis saber ela, curiosa, pois na fazenda não tinha geladeira e nem passava
carrinho da Kibon.
—
Geada, oras!
Só agora, a vaquinha olhava
atentamente para a vovó. Ficou espantadíssima.
— Nossa vovó, porque esses
olhos tão grandes?
— É para melhor te ver,
netinha!
— E porque essa língua tão
grande?
— É para melhor te lamber,
querida!
Os
olhos do touro brilharam.
— E esses chifres vovó, porque são
tão grandes?
— Ah!.... Isso você pergunta
para o vovô!
— Ué!... Não sabia que eu
tinha um vovô!
— Psiu! Isso daqui é uma estória,
ninguém precisa ficar sabendo!
—
Ah!
—
Continua...
— Continua o quê?
—
A fazer perguntas, oras! Esqueceu o texto?
— Eu tava pensando na língua!
—
Vai logo que o leitor ta ficando com o saco cheio de esperar!
A
vaquinha limpou a garganta, se empertigou e continuou:
— E esse negócio no meio de
suas pernas, o que é, vovó?
— É pra te comer!
Dizendo isso, o Touro-Mau avançou
sobre a indefesa e inocente vaquinha e CRAU!
E
CRAU!
E
CRAU!
A vaquinha rezava para que não
aparecessem os caçadores.
E
CRAU! e Crau! e CrAU! e C ra uuu! e Craaaa...u! UFA!
E a vaquinha gostou tanto que
telefonou para a mãe e disse que ia dormir na casa de uma amiga e só voltaria
na manhã seguinte.
Sob o olhar dos mesmos bóias-frias
comendo couro de passarinho, do mesmo céu, mais azul que os radiantes olhos da
Xuxa, e da mesma folhagem, mais gostosa que os lábios da fruta da Luiza Brunet
deitada sem camisa no gramado macio do Maracanã, ela voltou cantarolando feliz:
Pelo
pasto afora/Não volto sozinha/Pois dentro de mim/Tem outra vaquinha.
F
I M
— E a vovó? Perguntou um leitor
meticuloso.
— Vai bem, obrigado!