Melo me deve essa!

Lorega


 

Aí resolvo deixar tudo pra depois e  trocando de roupa, pondo uma bermuda, uma camiseta, e mesmo de sandálias tipo havaianas,  resolvo  montar no meu “camelo” (nome dado a bicicleta) e vou tomar uma cerveja na praia.

Depois de driblar diversas poças de água que se formam quando aqui chove, chego são e salvo ao Bar do Melo, funcionando sob a proteção do Forte de Pau Amarelo (ou Praia do Japonês, pois segundo uma amiga minha é o único que vai conseguir ter o “Dito cujo” na cor amarela).

Instalo-me confortavelmente em uma mesa  no grande alpendre que é o bar, deixando pra lá as mesas que ficam na areia da praia, por dois motivos: Primeiro, Não estou mais agüentando muito sol na carcaça e Segundo,  aquela posição é estratégica para chamar o garçom que, quem quer que ele vá atender, já passa por minha mesa, então é só incluir o meu pedido na “leva” que  está atendendo, fica bem mais fácil, e  rápido.

Dez horas mais ou menos, véspera de Natal, o movimento ainda é  fraco, comento com o garçom que uma vizinha disse-me  que o dia anterior havia sido de muito movimento, ao que o mesmo retrucou:

-         Qual nada! Ontem  estava  nisso mesmo, ou seja , quase nada. Tanto é que  às  duas horas, fechamos por absoluta falta de movimento.

-         Ué!! Então a minha vizinha bebeu demais e estava vendo tudo,  e todos, em quantidades dobradas.

Não vem ao  caso. Era somente para começar a bater papo, a apreciar as beldades que estavam se aprontando para o bronzeamento. Duas à direita de onde me instalara, eram simplesmente de “fechar o comércio”, e começo a observar a freqüência da praia, umas lindas, outras bonitas, outras Deus me livre, e assim  se compõe o quadro que  degustamos quando nos propomos, observar.

Acionado pelo garçom chega Melo a mesa comentando também sobre o movimento do dia anterior, quando lhe falo que se o mesmo quisesse poderia escrever um livro com os tipos que ali e nos arredores “armavam a barraca”. Ciente da responsabilidade de um livro o mesmo rebate:

-         Algo mais rápido, mais dinâmico. Uma crônica talvez.

Gostei do que ouvi e sempre que o Melo podia, vinha à minha mesa contar algumas que  presenciou e que lhe marcaram. Como o caso da madame que... após deixar o marido na mesa, em algumas idas a água para se refrescar, estava também “suando” com um garotão, ao sabor das ondas, e o maridão, nem aí.

Passa um pouco o tempo e outras estórias contamos, um ao outro até que nos chega, de sopetão, uma senhora de aproximadamente 3.0 (três ponto zero) de idade, alegremente cumprimenta Melo e ato contínuo já vai despejando falatório, quase sem respirar. Daquelas que, quando aponta a metralhadora verbal para o seu lado, você jura que está assistindo a narração de  uma corrida no Jockey Club, e como correm os cavalos.

Não me dou conta, mas, Melo com a “desculpa” de atender algum freguês, àquela altura, acredito, freguês fantasma, saiu rapidinho da mesa, me deixando com a diva faladora de pé ao meu lado. Falou ainda mais alguma coisa que não me recordo e  reclamando do sol muito quente resolveu, sem mais delongas, sentar-se na cadeira que o Melo deixara desocupada quando “bateu em retirada estratégica”, ao meu lado, e aí começou a “melodia”.

-         Ai como eu odeio o Natal!, - e foi assim que começou o papo, já devidamente assentada. -  Família só dá aperreio... Você acredita que meu irmão foi  na minha casa, agora, hoje, véspera de Natal, para dar palpites na criação de meus meninos... Que eu crio mal...  Que eles são mal educados...

Desandou a chorar,  e dentro de aproximadamente vinte minutos já fiquei sabendo de toda vida familiar, amorosa, tragédia conjugal, separação, revolta com datas comemorativas e muitas “cositas màs”.

O que eu tive de lembrar de frases chavões, para dar conselhos e mais conselhos. E logo eu, que somente estava querendo tomar uma cervejinha apreciando a paisagem. E tome de guru esotérico. Ai minha cerveja esquentando. Até o “Levanta sacode a poeira e dá a volta por cima”, com outra roupagem evidentemente, tive que me valer para contornar a situação.

Engoli o restante da garrafa. Não sou dado a esses arranques tipo “vira-vira” porém, naquela altura do campeonato se fazia necessário. Então a barriga, já virou  bucho, reluzente, esticadinha. Mas me fiz de valente, terminei, pedi a conta, me despedi cavalheirescamente, o quanto possível permitia a paciência e educação, e o  mais rápido que pude, zarpei pedalando a minha “magrela”, internamente sorrindo com o inusitado do acontecimento.

Chego em casa, apesar de tudo não me sentia chateado, nem a paciência estava “torrada”, estava até, diria, Legal. Ponho a mão no bolso da bermuda, aliso o cós da mesma, reponho, esquadrinho o único bolso que tenho, automaticamente procuro bolsos outros na camiseta e não encontro a chave da casa.

Era só o que faltava!

Agora não falta mais.

Adivinha para onde tive que retornar! ....

O garçom ao me ver avisou que a minha chave estava no balcão com Melo, a mesma havia caído do meu bolso quando me levantei rapidamente, no afã de deixar a minha paciência respirar.

Ainda  encontrei  a Dione sentada na mesma cadeira, só que desta feita o Cristo era outro. É!... já havia outro Cristo na mesma cadeira que eu ocupava minutos atrás, e parecia que este tinha mais paciência, ou estava mais “bem intencionado” que eu.

 

Hosted by www.Geocities.ws

1