ELILDO
Faz bastante tempo! Eu me meti, por influencia de meu tio Abel, a ser radioamador, faixa do cidadão, e armado de um equipamento fiz diversos amigos durante um ano em que fiquei na faixa. Operava bastante, não era chegado a fazer Contestes (contatos com países outros ou pessoal de outros estados, afim de receber um cartão postal do dito local contatado ou em ocasiões especiais um certificado por participação da instituição organizadora do evento), gostava mesmo era de ficar “corujando” conversas ou na roda de amigos do bairro. Era melhor assim, achava eu, pois além de conversar pelo rádio, ainda havia a possibilidade de encontrar, “ao vivo” com o “macanudo”.
Dito e feito e comecei mesmo a conhecer pessoas do meu bairro e de bairros vizinhos, de todas as idades, desde o “Velho Vieira” um senhor de idade já avançada, mas que todos das nossas relações radio-amadorísticas tinham uma grande admiração, tanto pelos conhecimentos que o mesmo tinha do nosso “hobby” quanto a sua personalidade forte e sábia, até gente jovem como o Elildo, um baixinho magro, que trabalhava em um Instituto de Opinião, falava como camelô, ou seja, muito e rápido, excelente pessoa com uma ingenuidade de até se desconfiar. Mas Elildo era mesmo assim, prestativo ao extremo, se algum colega tinha necessidade de levantar uma antena para o equipamento e ele era sabedor de tal precisão, já estava ao final de semana, ou o dia que mais conviesse ao freguês, plantado na residência do “necessitado” para dar a sua ajuda. Vivia com um lema na cabeça e sempre o verbalizando de que “Quem não vive para servir, não serve para viver”. Credos, desde os agnósticos como eu, a católicos fervorosos de rezarem terços e mais terços e participarem de Encontros de Casais, onde um outro colega nosso, Omar, para atanazar a vida do Hugoberto dizia ser “Swingue Evangélico”, mas não chegavam a ficarem aborrecidos apenas aquelas refregas verbais e etc., já outros afirmavam que às sextas-feiras já haviam passado no Terreiro tal ou qual, mas isso tudo quando os assuntos permitiam pois o principal prato era mesmo a faixa-do-cidadão, que estava a época, já bastante permeada de gente que não tinha a menor ética, e de muitos adolescentes que apenas a usavam para descarregar as baterias daquela fase pela qual passam em que tem que contestar, ser do contra, ou literalmente infringir normas e leis, e para isto a faixa-do-cidadão se prestava maravilhosamente, pois as comunicações podiam ser feitas com pseudônimos, e as potências dos transmissores sendo variáveis não davam uma idéia exata da localização do infrator, perturbador etc., sem contar os adultos que ainda tinham o espírito adolescente e tomem a fazer as mesmas palhaçadas. Eletrônica para alguns um pouco mais entendidos, mexendo com esquemas de montagens de aparelho, transmissores, antenas, amplificadores de sinais, filtros etc... quem não tinha as mesmas aptidões conversava em outra roda sobre as transmissões mesmo, ou tipos de equipamentos, novidades etc., depois de algum tempo o papo era variado, nos encontros que tínhamos no PX-Clube, aos sábados à noite. Lá onde conheci o amigão Omar, responsável pela minha incursão no mundo da música, comprando um contra-baixo, sem saber toca-lo e fazendo-me comprar uma guitarra, na mesma situação, e assim ambos cegos, surdos, mudos musicalmente falando nos enveredamos pelo auto-didatismo, auxiliados por revistinhas de cifras etc.. até que.. bem isso é outra história, e foi também o responsável por me colocar no fundo do mar, convidando-me para mergulhar, fazendo apinéia (máscara, respiradouro e pés-de-pato) e vamos que vamos catar lagostim, amoréias e outros mais, quando retruquei que “água não tinha cabelo” pra gente se agarrar, além do quê o que eu sabia de natação aprendi no açude Timbí em Camaragibe, a custa de reclamações de minha mãe e riscos de esquistossomoses, e não passava de um nado “cachorrinho” e dos bem sofridos, e o Omar, depois eu soube que co-pilotado pela sua (dele) patroa, retruca pelo rádio mesmo onde a conversa-convite se desenrolava: “Tem bronca não Lorega, e eu que nem sei nadar? Vamos assim mesmo pois segundo a lei da física não tem jeito de a gente se afogar pois “merda bóia”. Já que estava comprovado cientificamente, embarquei também nessa idéia e tive mesmo muitos momentos alegres e felizes, principalmente os que passava mergulhado lá no fundo do oceano, naquela paz onde tem hora que nos recusamos terminantemente a vir à tona, somente a nossa necessidade de respirar nos obrigava a encarar novamente o mundo atribulado fora d’água.
Diversas figuras ímpares, como o brincalhão Valdir, que nunca abandonou as suas raízes NorteRiograndense, enaltecendo e por muitas vezes fazendo troça, juntamente com o irmão Raimundo da sua cidade natal Mossoró ou de figuras de lá. Os politicamente corretos J. Aldo e J. Horácio, entendidos em eletrônica nos auxiliavam com nossos equipamentos bronqueiros, dicas, esquemas, e mesmo os consertos efetivos, O Batista Filho, que odiava (tal qual eu) o pré-nome, com sua voz de locutor-off da “Vênus platinada” local. Alto, magro, com voz de veludo foi solenemente apelidado de Alto-falante. O Heliac, deficiente visual, juntamente com o Jefferson. A parelha de cegos! A mesma deficiência, mas, temperamentos diferentes. Enquanto aquele era cego de nascença e era muito revoltado com o fato, já este o foi, por acidente já adulto, mas, era tranqüilo e sem demonstrar nenhuma neura ou revolta da sua condição, fazendo com que se locomovesse por toda Olinda, Recife, onde quer que fosse, sozinho, ao passo que o Heliac sempre dependeu de alguém que o guiasse, até mesmo para o levar ao clube, aos sábados, que era relativamente próximo de sua residência. Talvez por este temperamento revoltado que foi eleito por mim e por Omar para sofrer nossas brincadeiras nas reuniões, que iam de; roubar-lhe a bengala até amarrar os cadarços do sapato dele nos pés da cadeira. Não sei quem de nos dois fez esta maldade, mas o fato é que o Heliac se afeiçoou mais a mim e Omar que a qualquer pessoa lá pelo Clube, mesmo sofrendo as agruras de quando íamos leva-lo de volta à casa, servindo-lhe de guias, em determinado momento o Omar parava e falava:”Cuidado com o buraco!” e dava um pulo adiante deixando o Heliac parado em algum local sem nenhum obstáculo, e nós completamente calados, por dentro estourando de rir, somente observando a reação dele, procurando buraco na rua de asfalto com a ponta de bengala, fazendo um rodeio grande no percurso, beirando um buraco imaginário, até constatar a brincadeira e nos esculhambar, enquanto caíamos na gargalhada apanhando de bengala.
Mas a figura carimbada de nosso grupo era mesmo o Elildo. Certa feita, quando o PX-Clube estava auxiliando a organização do desfile cívico de Sete de setembro, em nosso bairro o Elildo, empolgado, com um Walkie-talkie na cinta, outro na mão, um Headphone grande com antena e tudo nos ouvidos, a figura, sem tirar nem pôr de um extraterrestre, (pela estranheza estética da figura, me desculpem os verdadeiros alienígenas se não o forem tão feios e desengonçados quanto!), caminhava de um lado a outro das fileiras organizadas das escolas, colégios, grupamentos de escoteiros, bandeirantes etc... falando sem parar, ora em um aparelho, ora em outro, quando o Hugoberto que estava no palanque central, tentava se comunicar com o mesmo para passar informações ao locutor oficial do evento, e nada do “Alienígena Elildo” responde-lo, ajusta-se a freqüência do rádio para o canal estipulado previamente, e... Nada! Eu tentei com o aparelho do carro que tínhamos estacionado em frente à Delegacia de polícia e... nada! Resultado falamos com outro companheiro um pouco mais distante que resolveu o problema dando as informações e fazendo o trabalho que o Elildo deveria estar fazendo, até que alcançando-o em meio ao desfile marcial, puxei-o para um canto fora do circuito e procurei saber o que estava havendo pois estávamos sem sinal dos aparelhos dele, e ele como caindo das nuvens: “Num diz nada a ninguém não mas nenhum desses aqui funciona não!, É só pra fazer mesmo figura” Dito isto, põe o headphone na cabeça e se manda!
Sempre foi assim, engraçado, prestativo, brincalhão, sempre alegre, que eu saiba nunca o vi com alguma pontinha de tristeza, mesmo quando as coisas não iam bem no trabalho dele isso não afetava o seu bom-humor.
Mudei de bairro e alguns anos após em conversa com colegas soube que o Elildo está distribuindo suas trapalhadas, brincadeiras e prestimosidades junto ao Criador, pois houvera se suicidado!
Ainda hoje não consigo enquadrar, aceitar, que aquela pessoa que conheci, pudesse chegar àquela conseqüência. Mente humana! Insondável!!.
Só tenho a certeza de que, se houver realmente um paraíso, deverá estar por lá o baixinho, magrinho, agoniadinho, brincalhão, prestimoso, algum aparelho de radiocomunicação nas mãos, os ouvidos tapados com algum headphone jurássico, afirmando pra São Pedro, ou qualquer santo por lá, que estaria recebendo “contestes” da terra, e ficar aguardando que cheguem nossos cartões-postais de confirmação.
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