CUIDADO PEDESTRES!

Lorega


Perguntei a um  companheiro de trabalho se ele conhecia aquelas lâmpadas de emergência, ou de aviso que se coloca nas entradas e saídas de veículos, nas portas de garagens, saídas de condomínios etc...  Respondeu-me que sim e ainda adiantou, à guisa de explicação, ou afirmação de que  conhecia o objeto questionado, que as tais luminárias vem ainda com uma plaqueta com os dizeres: CUIDADO! VEÍCULOS.

Era o suficiente para entender que, estamos  em uma sociedade em que  diversos valores estão ao avesso. Este é um deles.  A pergunta surgiu da necessidade que tive de me certificar que não estava ficando louco , ou como dizem alguns, gagá.

Explico: Caminhava por uma rua do bairro da Boa Vista quando ouço um ranger de rodas de carro. Uma freada. E bem perto a mim.

Saindo de um Condomínio, um  Tempra atravessado na calçada e uma senhora de meia-idade, assim como eu, “quarentinha” e mais alguns, estática, lívida, branca como uma folha de  papel ofício, e a aproximadamente 20 centímetros de suas pernas o pára-choque dianteiro do Tempra.

A senhora respira fundo, tentando adivinhar quem estava na direção do quase carrasco seu, não conseguindo, acredito, pois os vidros do carro eram fume, ou daquelas películas que a gente não vê quem está dentro. Desencantada segue em frente. Não diz palavra, mas sai devagar, talvez porque suas pernas recusavam-se a andar, e ir em frente já constituía em um esforço homérico.

Vamos! Vamos! É muito lerdo esse povo!... – Resmungou a motorista do Tempra após baixar o vidro elétrico. – Não olha por onde anda! É nisso que dá. Quase que eu a atropelo...

Sobe novamente o vidro do carro. O interior do mesmo torna-se invisível para os transeuntes, pedestres, pobres mortais como eu, quarentinha e mais alguns, que a esta altura dos acontecimentos, me encontrava parado, assistindo o desenrolar dos acontecimentos. Doido eu não era de passar na frente do carro da “Irada”. Muito menos por trás. Vai que ela resolve voltar e então estarei eu a lhe atrapalhar o retorno (já imaginou a ira dobrada?).

Tudo isso na calçada. Na via de pedestres. A “Irada” engata uma marcha lá qualquer e  após balançar o veículo, para frente e para trás, numa dança do “entra ou não entra” e  verificar se não viria outra “máquina mortífera”, tal qual a dela, na via pública, adentrou a faixa de rolamento e disparou no sentido do centro da cidade.

A senhora, quase vítima, já a esta altura ia a uns bons cem metros, quase chegando ao Supermercado e eu passei em frente ao condomínio, desta vez com meus passos mais lentos e a cabeça rodando a mil procurava saber onde estava o direito do pedestre que anda certinho nas calçadas esburacadas da Veneza Brasileira.

Certinho é o modo de dizer, pois andamos a nos desviar dos buracos, tocos, trilhos, canos, lixo, restos de construção, fiteiros, Bancas de revistas, carrocinha de cachorro-quente, mesas de bares, etc... que pululam por aqui. Outros acham pouco e colocam no canteiro do muro uns arbustos cheios de espinhos que vão crescendo e tomando conta da calçada, na Rua do Príncipe mesmo tem um com Palmas e Mandacarus, haja espinho! Ocorre isso com uma Clínica bem perto de onde se deu o fato, os arbustos com espinhos agressivos já tomam conta de 30 por cento da calçada. Brevemente os pedestres terão que dividir  o centro da rua com o tráfego de carros, pois enfrentar espinhos não dá.

Continuava a pensar  se não estávamos  fazendo “chover-pra-cima”, quando priorizamos a passagem de carros pela via de pedestres, quando na calçada, o direito das máquinas é nulo. Digo priorizamos pois a tabuleta de alerta, com as luzes piscando: amarelo- vermelho; amarelo- vermelho, é dirigida para os pedestres, avisando que tomem cuidado com os veículos que volta e meia saem da garagem, do estacionamento, do condomínio etc... quando na realidade tal placa e luzes intermitentes deveriam estar voltadas para o motorista, avisando que ele estava preste a entrar em uma área que é exclusiva dos pedestres, destes seres desprovidos de cavalos de força, alegria dos ortopedistas da minha Recife, tamanha quantidade de buracos, muitos até  muitos bem disfarçados já por alguma vegetação que ali cresce.

Não digo que todos motoristas sejam assim, porém, se prestarmos atenção, veremos que a batalha pedestre-motorista não se desenrola somente no trânsito. O pedestre dentro em breve será acusado de estorvo ao bom andamento dos carros na cidade, somente por ter a ousadia de andar na calçada.

Dentro de cada garagem, de cada Condomínio, estacionamento deveria existir a mesma luz piscando sobre uma placa:  CUIDADO! PEDESTRES, para lembrar a todos que tomam a direção do seu carro que vão atravessar uma estreita faixa de cimento que é o único e sofrido refúgio para  o transito de pedestres, não digo mais  o adjetivo  “Seguro”, pois estão acabando com ele. Acho até que está sendo atropelado.

Lorega

 

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