CORPO A CORPO

Lorega


 - E aí  amigo? Onde você comprou essa camisa tão bonita e “com bola”?

Brincam  o tempo todo com a minha barriga. Até que não é das mais protuberantes, mas confesso que ultimamente relaxei os exercícios, e juntando com a aposentadoria, e haver parado com umas idas a aulas de hidroginástica lá no Colégio onde minha filha estuda, onde eu era o caçulinha em meio a uma classe que juntando as idades daria fácil, fácil a de Matusalém, sem necessidade do meu meio século e “quebrados” para ajuda... Quadro perfeito para que a barriguinha, tentasse esconder o “pingolim”, e se querem saber já estava conseguindo.

E chega aquela hora em que, ou você toma vergonha e vai à luta (na expressão da palavra, porque , meus amigos, é realmente uma batalha!) ou então sucumbe à depressão e relaxa geral fazendo muletas para a sua impotência de atacar o problema dos ditos xistosos tais quais: “Passei 50 anos para adquirir esta barriga e já me afeiçoei a ela!”, “Tendo dinheiro no bolso sou esbelto”, “Não tenho mais idade para sofrer com dietas e exercícios” e essas desculpas e explicações esfarrapadas, que nem mesmo ao enunciador convencem.

E chegou a minha hora, comecei olhando ao redor e vendo alguns amigos e familiares sofrendo as conseqüências da obesidade e falta de exercícios, e tome hipertensão, tome artrites, tome desvios de coluna, reclamações das patroas de que “de agora em diante, certas posições nem por decreto presidencial”, e ainda tinha gente se metendo a fazer a famosa “Bananeira-sanfona”, não se atreva!!

Com os exemplos na cara a primeira providencia tomada foi encher a casa de espelhos, no final do pequeno corredor, no quarto (há alguns anos o do quarto servia para propósitos bem mais deliciosos), cozinha  e principalmente no banheiro, dentro do box mesmo para se ver peladão mesmo, e poder “admirar” o quão deprimente estava  o corpo do cinquentão. Pronto! “carrascos” a postos e vamos ao primeiro round, eu sabia que a luta inicial seria: Eu versus Preguiça Matutina.

Soa o gongo (despertador do aparelho celular), em uma manhã do mês do meu aniversário, reviro-me na cama, olho pelas frestas da janela, o sol já abençoava nossa Mãe Terra, mas o corpo teimava em reclamar que cinco horas ainda  era madrugadão mesmo! Muito cedo! Que tal seis horas?? Bom. Preguiça Matutina me levou a nocaute durante dois rounds (dias) e quando eu levantava, todo dolorido e entrevado o sol já estava numa atividade frenética, aí a desculpa era de que estava muito calor, etc.

Vou a banca de verduras comprar bananas e aproveito para arriscar subir na balança da farmácia, que sem nenhum pudor me informa 79,800Kg, isso para os meus 1,70 m de estatura me dava já um crédito adiposo, isso para não falar, nas dificuldades de calçar sapatos, meias, enfim, qualquer agachamento, como bem define João Ubaldo Ribeiro para que “não subestimem o poder da barriga aliada ao da junta dura” (Livro: O Conselheiro Come - Página 88- Ed, Nova Fronteira).

Nesse dia o round foi meu, me fantasiei de caminhante, atleta, ou qualquer coisa parecida e me mandei para a praia. Embevecido pelo amanhecer na praia, caminhada na areia molhada, outras pessoas que ganharam também o round contra a Preguiça Matutina (alguma delas um bom colírio matinal, outras nem tanto), caminhei uns bons dois quilômetros, e, pasmem!, Voltei! E isso foi ficando bom, a Preguiça Matutina já não estava mais comparecendo aos embates, nem mandava representante, eu estava, após uma semana, ganhando de W x O, com uma folga de dar medo!

Por minha conta e risco comecei a verificar a minha alimentação, a condição de morar sozinho ajuda imensamente no emporcalhamento de nossa comida, ou seja, optamos pelo mais prático em detrimento do mais saudável ou alimentício, mas isso todo dia está na TV, Rádio, Jornais, panfletos etc, só que achamos que o recado não é para nós, aliás, recomendação nenhuma na TV, Rádio etc, é para nós, sempre é para os outros, eu não bebo tanto! Só socialmente! Não fumo muito! Não trepo com desconhecidas (mas é claro, pelo menos tem que se apresentarem antes de ir pra cama ora, onde já se viu comer inimigo? Só se for comer  “literalmente”) só os outros são assim, eu não!

Mas chega de admoestações e vamos caminhar! Caminhei bastante em direção norte, saía de casa, na bicicleta, por volta das seis horas, a deixava pacientemente me esperando amarrada a uma coluna no Bar do Acarajé, e seguia a jornada aumentando o percurso gradativamente, vendo novas caras e outras partes também, quando mereciam, claro! Decidi outras vezes caminhar sentido sul também, mudando o visual, observando obras que estavam sendo efetuadas na orla Pau-Amarelo/Janga. Numa dessas idas no sentido sul, ao retornar, passei por um rapaz de aproximadamente uns vinte e poucos anos que me cumprimentou educadamente e se pôs a me acompanhar quase ao lado, eu já estava para acelerar o passo ou mesmo reter para evitar  a parelha quando o mesmo se adiantou um pouco indo à minha frente onde pude notar que o calção do mesmo estava arriado na parte de trás. Não era “cofrinho” não, já era a Caixa-forte toda do banco. Esse tipo que alguns adolescentes costumam usar, onde quase a metade da regada da bunda fica aparecendo aguardando a colocação de uma moeda, eu acho. Era exposição mesmo de uma bunda branquela, em plena seis horas da matina, em jejum natural. Deu-me ânsias de gargalhar, e anunciar ao exibicionista matutino que estava dando o recado para pessoa errada, até que em meu socorro vem de encontro a nós duas senhoras ao que se apressou o “bunda branca” a se compor e tentar, baixando o ritmo da caminhada a emparelhar novamente comigo, onde errou novamente pois era chegado o Bar do Acarajé e o deixei “a ver navios” se é que passaria algum por ali.

Após exames e consultas, um check-up completo com a alimentação já orientada profissionalmente, e seguro de que estava fazendo a coisa certa, vi a balança informando após um mês que dois quilos já haviam ido passear, nessa altura o meu vizinho resolve me acompanhar e acompanhado é bem melhor, claro que uma companhia feminina seria o ideal, mas nada é perfeito nesta vida. Passamos a fazer o trajeto Pau-Amarelo até um Supermercado do Janga, na bicicleta, e lá deixando-as devidamente amarradas fazemos nossa caminhada em um calçadão recém construído. Ta uma beleza! É uma festa para todos os sentidos, principalmente para a visão, e, parodiando Jessier Quirino, “Tem de tudo e ainda sobra um pra tocar gaita”  a caminhada se torna uma festa tal que se por algum motivo algum de nós falta, por força maior, o outro no dia seguinte faz questão de contar amiúde o que o faltoso perdeu. Morra de inveja!!  São coisas inusitadas, são situações cômicas de alguns classificados por nós como “aindas”, são aqueles que começam a farra na sexta-feira e estica tanto que quando chegamos para nossa caminhada ou trote, ou corrida, ou passeio, os encontramos nas mais esdrúxulas situações, alguns tal qual bifes à milanesa, no maior sono sob um sol escaldante, outra com um vestido finíssimo branco  dormindo na areia sendo molhada  pelo mar e, tendo a pele muito alva, já estava bem marcada com um belíssimo vermelho-pimenta, somente na parte das costas, pois a frente estava mais alva que tapioca. Aquela senhora que até acho, não pode ter filhos pois cuida de um cachorro como se gente fosse, o animal, vestidinho até com chapéu (o que deve ser um sofrimento para ele, além de se sentir ridículo naqueles fatos, imagino até o que latem dele a meia-boca os outros caninos que por lá desfilam), senta o bicho no colo, aboleta-se no banco que margeia todo o passeio e dá mamadeira para o bicho na mesma posição que se dá a um recém-nascido, com direito a fraldinha de algodão à guisa de babadouro! Fala aí Dusek! Como é mesmo? Troque seu cachorro por uma criança pobre...

Novamente me reporto ao João Ubaldo, que em uma de suas crônicas, do mesmo livro acima, faz referencia a um “capenguinha” que o tirava do sério em suas caminhadas no calçadão do Leblom-RJ, e gostaria de poder informa-lo de que em nosso calçadão, aqui, temos um casal, isso mesmo! Um casal de capengas. Não que sejam casados ou talvez até nem se conheçam, mas estão lá diariamente cada um com sua perninha direita arrastando e “passando à frente” de muitos despreparados.

Cinco meses após minha primeira luta contra o bicho Preguiça Matutina, nove quilinhos mais leve, sem nenhum sofrimento ou privação, continuo comendo de tudo, tomando minhas geladinhas, uísques, cachaças, porém com consciência e uma certa organização no comer, trocando quantidade por qualidade e balanceando quando cometo excessos. E o que a princípio era um trabalhoso e tenebroso caminhar de dois quilômetros e o pânico de não saber se agüentaria voltar tamanha lonjura. Hoje é um prazeroso passeio de bicicleta de 8 Km entremeado pelo trote de 4,6 quilômetros no calçadão, com direito a assistir as mais variadas cenas de humor, amor, rancor e outros “ôr” que hajam. Digo rancor pois tem um casal que invariavelmente passa por nós, ele vestido normalmente para a caminhada mas ela tem uma coleção de umas calças compridas cheias de bolsos e folgadonas, encimadas por umas blusas no mesmo modelito, sabe aqueles casacos de fotógrafos? Cheio de bolsos? Daquele mesmo, um chapéu escandaloso mesmo e óculos escuro cujas lentes esconderiam um CD, fácil fácil, e ainda por cima ela coloca um cinto tão apertado que já a  apelidamos de “Pamonha mal amarrada”, e essas duas figuras passam por nós numa discussão de dar medo, ela sempre está reclamando de algo ou de alguém, não tem perdão! Em contra-partida tem o casal que caminha toda extensão dos 2 mil e trezentos metros do calçadão e quando vão dar a volta fazendo o retorno, ao se cruzarem na pista se beijam, aqueles do tipo “selinho”, cinematograficamente,  e fizeram isso bem a nossa frente, minha e do Nilson, estávamos nos alongando, nos preparando para a corrida, ida e volta à ponte do Janga, que é toda extensão do calçadão, olhei para ele já quase estourando para rir, e ele fazendo uma cara de reprovação pelo exibicionismo desnecessário do casal, ao terminar de balançar a cabeça negativamente, falei solenemente com o dedo em riste para ele: “Quando a gente for fazer o retorno lá no final da pista, nem me venha com essas novidades também”. Desnecessário dizer que, embora eu rindo, iniciamos a corrida naquele mesmo momento.

.

Hosted by www.Geocities.ws

1