CASAL DE TRÊS
Conto de nº. 91 de Nelson Rodrigues no livro “A Vida Como Ela é”
O
sogro era um santo e patusco cidadão. Assim que o viu
arremessou-se, de braços abertos:
-
Como vai essa figura? Bem?
Filadelfo
abraçou e deixou-se abraçar. E rosnou, lúgubre:
-
Essa figura vai mal.
Espanto
do sogro:
-
Por quê, carambolas? – e insistia – Vai mal por quê?
Caminha
do pela calçada, lado a lado com o velho e bom barrigudo, Filadelfo foi
enumerando as suas provações, só comparáveis às de Jô:
-
É o gênio de sua filha. Sou desacatado
a três por dois. Qualquer dia apanho na cara!
Dr,
Magarão assentiu, grave, e consternado:
-
Compreendo, compreendo – suspira admitindo: - Puxou à mãe. Gênio
igualzinho. A mãe é assim!
Súbito
Filadelfo estaca. Põe a mão no ombro do outro; interpela-o:
-
Quero que o senhor me responda o seguinte: isso está certo? É direito?
O
velho engasga:
-
Bem. Direito, propriamente, não sei – medita e pergunta: - Você quer uma
opinião sincera? Batata? Quer?
-
Quero.
E
o sogro:
_
Então, vamos tomar qualquer coisa ali, adiante. Vou te dizer umas coisas que
todo homem casado devia saber.
TEORIA
Entram
num pequeno bar, ocupam uma mesa discreta. Enquanto o garçom vai e vem, com uma
cerveja e dois copos, Dr. Magarão começa:
-
Você sabe que eu sou casado, claro. Muito bem. E além da minha experiência,
vejo a dos outros. Descobri que toda mulher honesta é assim mesmo.
Espanto
de Filadelfo:
-
Assim como?
O
gordo continua:
-
Como minha filha. Sem tirar nem pôr. Você, meu caro, desconfie da esposa amável,
da esposa cordial. Gentil. A virtude é triste, azeda e neurastênica.
Filadelfo
recua na cadeira.
-
Tem dó! Essa não! – e repetia, de olhos esbugalhados, lambendo a espuma da
cerveja: - Essa, não!
Mas
o sogro insistiu. Pergunta:
-
Sabe qual foi a esposa mais amável que eu já vi, na minha vida? Sabe? Foi uma
que traía o marido com a metade do Rio de Janeiro, inclusive comigo! –
espalmou a mão no próprio peito, numa feroz satisfação retrospectiva: - Também
comigo! E tratava o marido assim, na palma da mão!
Uma
hora depois, saíam os dois do pequeno bar. Dr. Magarão, com sua barriga de ópera
bufa e bêbado, trovejava:
-
Você deve-se dar por muito satisfeito! Deve lamber os dedos! Dar graças a
Deus!
O
genro, com as pernas bambas, o olho injetado, resmunga:
-
Vou tratar disso!
O
DESGRAÇADO
Não
mentira ao sogro. Sua vida conjugal era, de fato, de uma melancolia tremenda.
Descontado o período de lua-de-mel, que ele estimava em oito dias, nunca mais
fora bem tratado. Sofria as mais graves desconsiderações, inclusive na frente
de visitas. E, certa vez, durante um jantar com outras pessoas, ela o fulmina,
com a seguinte observação em voz altíssima:
-
Vê se pára de mastigar a dentadura, sim?
Houve
um constrangimento universal. O pobre do marido, assim desfeiteado, só faltou
atirar-se pela janela mais próxima. Após três anos de experiência
matrimonial, ele já não esperava mais nada da mulher, senão outros desacatos.
E só não compreendia que Jupira, amabilíssima com todo mundo, fizesse uma
exceção para ele, que era, justamente, o marido. Depois de ter deixado o
sogro, voltou para casa desesperado. Chega, abre a porta, sobe a escada e quando
entra no quarto, recebe a intimação:
-
Não acende a luz!
Obedeceu.
Tirou a roupa no escuro e, depois, andou caçando o pijama, como um cego. E
quando, afinal, pôde deitar-se, fez uma reflexão melancólica: há dez meses
ou mesmo um ano que o beijo na boca fora suprimido entre os dois. O máximo que
ele, intimidado, se permitia, era roçar com os lábios a face da esposa. Se
queria ser carinhoso demais, ela o desiludia: “Na boca, não! Não quero!”
Outra coisa que o amargurava era o seguinte: a negligência da mulher no lar. Não
se enfeitava, não se perfumava. Deitado, ao seu lado, ele pensava agora,
lembrando-se da teoria do sogro:
-
Será que a esposa honesta também precisa cheirar mal?
MUDANÇA
Um
mês depois, ele chega em casa, do trabalho, e acontece uma coisa sem
precedentes: a mulher, pintada, perfumada, se atira nos seus braços. Foi uma
surpresa tão violenta que Filadelfo perde o equilíbrio e quase cai. Em
seguida, ela aperta entre as mãos o seu rosto e o beija na boca, num
arrebatamento de namorada, de noiva ou de esposa em lua-de-mel. Ela apanha o
jornal, que deixara cair. Maravilhado, pergunta:
-
Mas que é isso? Que foi que houve?
Jupira
responde com outra pergunta:
-
Não gostou?
Ele
senta, confuso:
-
Gostar, gostei, mas... – ri: - Você não é assim, você não me beija nunca,
nunca.
Jupira
tem um gesto de petulância que o delicia: vem sentar-se no seu colo, encosta o
rosto no dele. Filadelfo é acariciado. Acaba perguntando:
-
Explica este mistério. Aconteceu alguma coisa. Aconteceu?
Ela
suspira:
-
Mudei, ora!
SOFRIMENTO
A
princípio, Filadelfo conjeturou: “É hoje só.” No dia seguinte, porém,
houve a mesma coisa. Ele coçava a cabeça: “Aqui há dente de coelho!”
Coincidiu que, por essa ocasião, os seus sogros aparecessem, para jantar. Dr.
Magarão, enquanto a mulher conversava com a filha, levou o genro para a janela:
“Como é? Como vai o negócio aqui?”
Filadelfo
exclama:
-
Estou besta! Estou com a minha cara no chão!
O
velho empina a barriga de ópera bufa:
-
Por quê?
E
o genro:
-
Tivemos aquela conversa. Pois bem. Jupira mudou. Está uma seda; e me trata que
só o senhor vendo!
Ao
lado, mascando o charuto apagado, o velho balança a cabeça:
-
Ótimo!
-
O negócio está bom, tão gostoso, que eu já começo a desconfiar!
O
sogro põe-lhe as duas mãos nos ombros:
-
Queres um conselho? De mãe pra filho? Não desconfie de nada, rapaz. Te custa
ser cego? Olha! O marido não deve ser o último a saber, compreendeu? O marido
não deve saber nunca!
LUA-DE-MEL
Seguindo
a sugestão do sogro, ele não quis investigar as causas da mudança da esposa.
Tratou de extrair o máximo possível da situação, tanto mais que passara a
viver num regime de lua-de-mel. Dias depois, porém, recebe uma minuciosíssima
carta anônima, com dados, nomes, endereços, duma imensa verossimilhança. O
missivista desconhecido começava assim: “Tua mulher e o Cunha...” O Cunha
era, talvez o seu maior amigo, e jantava três vezes na semana, ou no mínimo
duas, com o casal. A carta anônima dava, até, o número do edifício e o andar
do apartamento, em Copacabana, onde os amantes se encontravam. Filadelfo lê
aquilo, relê, e rasga, em mil pedacinhos, o papel indecoroso. Pensa no Cunha,
que é solteiro, simpático, quase bonito e tem bons dentes. Uma conclusão se
impõe: sua felicidade conjugal, na última fase, é feita à base do Cunha.
Filadelfo continuou sua vida, sem se dar por achado, tanto mais que Jupira
revivia, agora, os momentos áureos da lua-de-mel. Certa vez, jantavam os três,
quando cai o guardanapo de Filadelfo. Esta abaixa-se para apanhar e vê,
insofismavelmente, debaixo da mesa, os pés da mulher e do Cunha, numa fusão
nupcial, uns por cima dos outros. Passa-se o tempo e Filadelfo recebe a notícia:
o Cunha ficara noivo! Vai pra casa, preocupadíssimo. E lá, encontra a mulher,
de bruços, na cama, aos soluços. Num desespero obtuso, ela diz e repete:
-
Eu quero morrer! Eu quero morrer!
Filadelfo
olhou só: não fez nenhum comentário. Vai numa gaveta, apanha o revólver e
sai à procura do outro. Quando o encontra, cria o dilema:
-
Ou você desmancha esse noivado ou dou-lhe um tiro na boca, seu cachorro!
No
dia seguinte, o apavorado Cunha escreve uma carta ao futuro sogro, dando o dito
por não dito. À noite, comparecia, escabreado, para jantar com o casal. E, então,
à mesa, Filadelfo vira-se para o amigo e decide:
-
Você, agora, vem jantar aqui todas as noites!
Quando
o Cunha saiu, passada a meia-noite, Jupira atira-se nos braços do marido:
-
Você é um amor!