A AUTO-ESTIMA DE NOSSOS FILHOS
Stephen Kanitz
Uma semana depois de minha
esposa e eu decidirmos começar uma família, entramos numa livraria e compramos
dois livros sobre como educar filhos. Por uma série de razões os dois filhos só
nasceram seis anos depois e acabamos lendo não dois, mas 36 livros. Se
dependesse de teoria, estávamos preparados. Hoje eles estão crescidos e um
amigo me perguntou que livros nós havíamos utilizado mais. Foi uma boa
pergunta que demorei a responder. Usamos um livro só, um que educava mais os
pais do que os filhos. Intitula-se 'A Auto-estima do seu filho' de Dorothy
Briggs, e o título já diz tudo.
A tese do livro é como agir para nunca reduzir a auto-estima
do seu filho: elogiá-lo freqüentemente , ouvir sempre suas pequenas
conquistas, festejar as suas pequenas vitórias, nunca mentir ou exagerar neste
intento, em suma mostrar a seus filhos seu verdadeiro valor. Ao contrário do
que defendem os demais livros, não é uma boa educação, nem disciplina, nem
muito amor e carinho, ou uma família bem estruturada que determinam o sucesso
de nossos filhos, embora tudo isto ajude.
A sacada mais importante do livro, no nosso entender, foi a
constatação que filhos já nascem com uma elevada auto-estima, e que são os
pais que irão sistematicamente arruiná-la com frases como: 'Seu imbecil!',
'Será que você nunca aprende?', 'Você ficou surda?'. Jean Jacques Rousseau
errou quando disse que "o homem nasce bom, mas é a sociedade que o
corrompe". São os próprios pais que se encarregam de fazer o estrago.
Por exemplo: você, pai ou mãe, chega do trabalho e encontra seu filho
pendurado na cadeira: 'Desça já seu idiota, vai torcer o seu pescoço'. Para
Dorothy, a resposta politicamente correta seria 'Desça já, mamãe tem medo que
você possa se machucar'. Primeiro porque seu filho não é um idiota, ele
assume riscos calculados. Segundo são os pais, com suas neuroses de segurança,
que têm medo de cadeiras.
Quando nossos dois filhos começaram a aprender a pular, entre três e quatro
anos de idade, desafiava-os para um campeonato de salto a distância. Depois de
algumas rodadas, seguindo a filosofia do livro, deixava-os ganhar. Ficavam muito
felizes, mas qual não foi a minha surpresa quando na sétima ou oitava rodada,
eles começavam a me dar uma colher de chá, deixando que eu ganhasse. Que lição
de cidadania: criança com boa auto-estima não é egoísta e se torna solidária.
Eu não tenho a menor dúvida de que os problemas que temos no Brasil em termos
de ganância empresarial, ânsia em ficar rico a qualquer custo que leva à
corrupção, advêm de um pai ou uma mãe que nunca se preocuparam com a
auto-estima de seus filhos.
Eu acho que políticos, professores e intelectuais, na maioria desesperados em
se autopromover, jamais darão dar oportunidades para outros vencerem, como até
crianças de três anos são capazes de fazer. A fogueira das
vaidades só atinge os inseguros com baixa auto-estima.
Alguns pais fazem questão até de vencer seus filhos nos esportes para acostumá-los
às agruras da vida, como se a vida já não destruísse a nossa auto-estima o
suficiente.
A teoria é simples, mas a prática é complicada. Uma frase desastrada pode
arruinar o efeito de 50 elogios bem dados. 'Meu marido queria que o segundo
fosse um menino, mas veio uma menina'. Imaginem o efeito desta frase na
auto-estima da filha. Portanto, quanto mais cedo consolidar a auto-estima
melhor.
Esta tese, porém, tem seus inconvenientes. Agora que meus filhos são muito
mais espertos, inteligentes e observadores do que eu, tenho que ouvir frases
como: 'É isto aí Pai', 'Faremos do seu jeito, pai', tentativas
bem-intencionadas de restaurar a minha abalada auto-estima.
Stephen Kanitz é pai e também administrador de empresas
Publicado na Revista Veja edição 1 650 de 3 de maio de 2000
Informações sobre o livro mencionado no artigo:
A auto-estima do seu filho BRIGGS, Dorothy Corkille MARTINS FONTES